domingo, 18 de junho de 2017

oceano


arca

abriu meus dedos
e depositou ali
um anel
um beijo
um poema
e algumas penas

só nelas, a memória
de voo


.

boca de deus

vejo a boca de deus
e ela tem fome

também tu tomas
meu corpo
e alimenta de fome
a tua fome
e de sede
a tua sede

e de morte
a tua vinda


.

silente

meu corpo agora esse
estranho
ao qual só como visita
visitas

não tocas nada e tudo
se empoeira
unhas crescem
a língua atrofia
nos confins do silêncio
o grito

aninho no colo a solidão
bola de pelo
que ronrona e desliza
pela curva de um destino
branco
enrolado nesses lençóis

não temas:
retira o pano pálido
com que vestiste
o espelho dos olhos

por detrás das cortinas
soo ainda trovão
e tempestades

então entra na casa
como quem entra sem cerimônia
na própria vida:
com a lama
de tuas botas sujas


.



oco

não
há pressa
ou vagar
apenas a boca
do tempo
mascando
contínuo
o oco
da vida


.

pássaro poema

pensei a liberdade
nascendo ali
na folha branca 
e outonal

mas o poema é só 
mais um 
mais outro
pássaro batendo 
asas na gaiola:

ilusão de vôo


.

reinvenção

nascer pedra e
rolar
rolar
rolar
rolar
rolar
até ser só

pó e nada


.

esquecimento

amputada a memória
do corpo:

senta-te na cadeira-móvel
aquela do amor paralisado
apreenda o esquecimento
e ria-te muito
e sempre
de ti

pede
ao teu deus que me tenha
em teus
braços
lápis ou
caneta
o calendário em branco
dos dias
perdidos
na neblina de um futuro
indistinto

pede que eu possa
escrever
pérolas ou ostras
depois
de um mergulho fundo
atiras uma garrafa
ao mar

e não peças mais
nada



.

passarinha

encostas tuas costas
às minhas, tua boca
ao meu olvido:

me chamas passarinha

passeio, sorrio
no de-dentro feliz da vida
que já não tenho


.

desejo

águas sonambulas
pingam bêbadas
das calhas

peixes desesperam
sua fome
de anzóis:

desejo infante
de armadilhas


.

não sabes?

todo o meu corpo pensa
e em alguns lugares
o pensamento é pior
meu coração, por exemplo,
pensa geleiras
e espinhos
pensa a garganta
é o pensamento do fogo
inflamando meus pés
mas pior, pior mesmo
são as mãos
vazias
pensando
o amor


.

corpo-ilha

as palavras são nada
mas tudo que tenho
senhor,
é esse mar na língua

junto algumas letras
formo sílabas
e melodias diluídas
em balbucios

sobras de um corpo-
ilha atracado à cama

tu me olhas, aguado,
insone das noites e
há dias
em que sonhas céu

mas tua pena amputa
meu voo


.

oração

drena-me,
senhor,
esse mar na língua


.

poema

estendo-me como um verso sobre a cama
amanhã será sobre a caixa
depositada à terra
não temo
por detrás das palavras
todo verso

é poesia

haikai

três peixes dourados
apertados
disputando espaço


num pequeno aquário


.

escavação

escavo meu corpo
procuro-me 
do lado de lá 
da vida
deus boceja


.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

miragem

miragem:
garoa fina sobre tua pele

um oásis
antecipado na minha boca


.

à beira

sinto-me à beira
das palavras
à beira da pele
à beira do centro
à beira da voz
passada
atrofiada
a memória
à beira
do acidente
vasculhar

o cérebro
eu sonho
um sonho
sem imagens


brancura

decompondo
a palavra
tor-ci-co-lo
calo

torcionário
meu algoz
torturo-te
em palavras
mastigando-te
à boca
à beira
dos dentes

um rastro fino
de sangue
à beira
do papel

só a morte pode me deter
só a morte pode
salvar nossos sentidos

essa coisa-mãe
à beira do pai

bioluminescência


.

flauta

tu, entre todos
és o melhor flautista
ainda que flauta
não a tenhas tu

eu, sim, toco-te
a flauta
tua
examino teu
sopro e
suspiro

silencio
encantada


.