sexta-feira, 28 de abril de 2017

confissão à minha tia

confessas que me traístes
e clamas por perdão
neste meu leito de vida

amor, não se pode trair o rio
as nuvens
o vento
mesmo a montanha
é passageira
minha carne
tão preclara já não sente dor
de posse
de quentura nas partes
de ossatura tremulosa

sou agora apenas o pó
de uma poesia fecunda
porém feia
porque grudada à baba
que me escapa
no canto
da boca

então não chores
pela mulher que não fui
àquela cama
lembra a outra
que em mim te esperou
com o café quente
e o perfume escondido
atrás da orelha
o silêncio
de olhos fechados

não chores pela mulher
que não fui àquela cama
deita-te sobre essa
e sussurra o meu nome

rio
nuvem
vento
mentanha

só nele eu me lembro
quem sou


.

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