quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

teto

os olhos colados no teto desenham poemas
que já não posso escrever
escondem versos invisíveis nas rachaduras
que só eu posso ver
só eu posso ver
eu posso
só, eu
me tornei palavra
muda
desde que o corpo calou
afetos
não me afetam
agulhas
mas a dor
estampada na aridez do toque

ninguém lê minha escritura
película fina sobre cristais
de tempo
em tempo: todos se arcam
sobre mim
buscando vida no debaixo
não olham para cima
não importa a poesia

vasculham feridas, buracos
o amarelo dos olhos

[não toquem na minha língua!]

agora tenho um teto só
meu
caderno de rascunhos
a vida e a morte se conjugam
no agora

eu escrevi um verso rimando
internamente cânula
& calêndula
tu devias de saber:

está tudo escrito
no lado de cima
sob luzes fosdorescentes
só eles não podem ver
só eles não podem
só, eles não
mas é lá que ela estou


.

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