terça-feira, 31 de janeiro de 2017

número 547

eles limpam as cinzas da minha boca
e forçam as gengivas banguelas
como se as escovassem

onde foram parar meus dentes de roer
mundo?
os dentes que fincava sobre tua guarda
costeira?
os dentes que riam tua rima desastrosa?
os dentes que tantas vezes emprestei
aos desdentados?

onde foram meus dentes e a dignidade
da minha boca de poeta?

não sabem nada da história
desses dentes tortos
do ciso quebrado
nem da escrita calcificada
na língua
penetram à noite
pelas fissuras da parede
amordaçam minhas palavras
e se vão sem deixar estímulo
à poesia

cada dia seco mais com o sol e murcho
como pássaro pesado
de chuva

ontem foi dia de banho e m'arrancaram 
a alma
enquanto riam de suas histórias tristes

eu queria para mim uma história triste 
então colocaria nela ataduras
derrubaria suas paredes e construiria
um muro
baixo que para ouvir teu sussuro
longe habitando uma grossa gota
seca de lágrima
só o sussurro me lembrando
que ainda tenho um nome

o nome que escondi enrolado
na minha morte
que escondi dos olhos que despem
indiferentes ao poema

e enquanto eles não me chamam
eu não vou



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