terça-feira, 24 de janeiro de 2017

casaco de pelo

atrevo-me a tocar o tambor e
colar-me como um desenho tribal
nas costas
do teu mar
espreitando tua cama
até que me chamas
para galopar

nas noites de verão o céu estrela
por debaixo das ondas
arraias pretas pintadas de branco
envenenam os dedos

deixa o piano mudo
e se muda para as sardas do meu braço
escondido sob o teu

e eu não digo nada
apenas

engulo cada pecíolo desse teu lençol florido
e me estico
minha perna sobre a tua e atuas sobre mim
gestos teatrais:
me faço árvore
enquanto enxertas o tempo no meu ventre
o tic-tac tic-tac tic-tac adiando
in-fi-ni-ta-men-te
a morte
da minha hora

eu só tenho uma hora e trinta e sete minutos
para te dar

tenho um coração bruto
mas minha vagina é macia
e ela recita poemas de cor
foca nela
e não te intimides com os animais selvagens
em debandada quando abro a boca
para gozar
os versos
que nunca serão
escorrem
abortados dos caninos

os versos que se escandalizam do teu cuspe
regando minha língua
minha face
o pescoço
o livro em russo que guardo entre pelos
e pernas

tu levarás no mínimo duas vidas
para traduzi-lo
então me chupa
enquanto os versos escandalizados fodem
a poesia

trepas com uma flor
não sabias?
pois agora saiba e cuida-
te


.


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