terça-feira, 24 de janeiro de 2017

cadeira

então ela tampou a panela e tirou lá de dentro um pouco de coragem para perguntar.

logo ela sempre abismada no silêncio, entoando apenas a melodia morta de umas canções que nunca conseguiu aprender a letra, ou entender o que de fato significavam. só aquele amortecimento, aqueles calafrios, a quentura subindo na garganta enquanto balbuciava umas rimas fonéticas... 

"o que você mais gosta em mim?", cuspiu timidamente. 

ele enfiou uma asa de frango na boca e mastigou junto com um seilá quase incompreensível. mas olhou-a. olhou-a sob a cortina de silêncio que se fechava entre eles. "a boca". a boca? como assim a boca? a imagem atravessou-a como se um maçarico. depois um buraco vazio de significantes. quase um poço. enfiou a outra asa na boca. mastigou também uma ideias tortas. o tempo se estende quando sentamos no intervalo entre uma palavra e outra. cadeira por exemplo é uma palavra muito distante de outra cadeira. ficaria assim: o tempo se estende quando sentamos no intervalo entre uma cadeira e outra.

"por que a boca?" perguntou com a coragem renovada pelo ar fresco que vinha da geladeira aberta. que nessas noites de chuva sempre havia sobremesa antes da cama. dentro dela outras questões aconteciam, mas sem força para se formular: se eu sempre em silêncio por que a boca? seria pelo que falo ou calo? por que a boca se a língua tão estrangeira e todos esses dentes duros de segunda-feira? não, ela não pensava tudo isso. só parecia que ela pensava porque quem pensa são os outros. a gente sente. 

"ah porque sim", foi uma resposta de poucos olhos misturada à calda de frutas vermelhas. mas tudo foi bem mais rápido do que parece. não fossem os procedimentos tecnológicos não haveria nem tempo para o texto. ele estava bem perto agora. o tempo se contrai quando retiramos as palavras. intervalo por exemplo é uma palavra. aí só sobra a respiração. 

talvez que no momento da resposta, ou num momento posterior à ela, já que é preciso de alguma fração de tempo para que as coisas façam sentido, ela tenha pensado que diante daquilo - do que foi dito, claro - as palavras não importam tanto. 

são apenas detalhes.



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