terça-feira, 5 de dezembro de 2017

retrato de mulher

"não entende de parafusos
mas constrói uma ponte"
[Wislawa Szymborska]


eu sou aquela que mete
o pé, não está nem aí,
[nem aqui]
chuta o pau
da barraca
sou aquela que tem medo
de amar
que vence os obstáculos
da vida, eu sou aquela
que o sofrimento é visível
e reflete no espelho
eu sou aquela que reflete
que reflete
no espelho
e brilha
alegre ou feliz, in-
teligent
mulher
eu vida
eu família
eu positivo
no ali
quero eu feliz
vida
sou aquela que ri
e chora
que não gosta
de chorar, ninguém
nunca me viu
chorar
[superei]
eu sou aquela que tem
inquietudes e aglutina
gente
eu sou toda
gente
a gente
"para o bem, para o mal
e para o que der e vier"
ninguém vem, ninguém
[veio, você veio
e me trouxe um livro
um cigarro
a promessa de
um sorriso e uma lágrima]
eu sou aquela que reflete
no espelho
reflete, reflete, reflete
semblante contagiante
iluminada, viva dentro
de mim mesma, sou
as vigas de sustentação
eu sou aquela que reflete
e reflete
no vazio
no espelho vazio
sentimentos desencontrados
no absurdo
da vida
eu sou maria, maria
aparecida
brasileira
hungara
americana
índia africana, eu sou
aquela que perdeu
os cabelos, não
tem cabelos
revoltos
e gosta
de seus revoltos cabelos
grisalhos
de tempo
sou aquela que fui e sereia
mulher da vida
hoje serva
do senhor
do Senhor
da senhora
sim, senhora
sou aquela sem hora, essa
senhora
de mim


[poema de autoria mista: exercício de criação realizado com mulheres da Penitenciária Feminina do Butantan... toda minha gratidão por poder reunir essas vozes nesse encontro de espelhos]

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

tecnorixá

no sistema internacional de unidade, a velocidade
é o metro por segundo
ao quadrado
e circulares são as hélices como leques místicos
no meu peito
filtrando axé
da boca por detrás das grades dos dentes
mora yami oxorongá e "se levanta pra não cair"
porque a gravidade pode alterar a equação
de torricelli
(e ele tinha vinte e dois mas idade não entra
na fórmula de ofurufu)
tempestade de areia arrancando olhos
hotspot no meio da testa: conectudo
conectanto
iansã e o machado elétrico de xangô
no meio das pernas, curto-
circuito de fórmula 1
a justiça é falha porque perdeu 300 parafusos
na guerra com o destino
"Destino", que nome é esse? se no lugar da mão
empunho o isqueiro
eu queria beber água, mas só há
cinzas

por que o futuro é um automóvel em alta velocidade
na direção contrária

é preciso se equipar

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

linha

apura o ouvido
ouça o trem, não
não há trem
apenas a linha
..........................
e o corpo
exaurido
..........................
anexo ao poema
um verso, não
não escrito
apenas reverso
eco de um
..........................
gemido
..........................
não (apura)
ouvido



.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

cascata

eu não quero o teu dinheiro

enfeita com ele a tua morte
faz uma cascata pra cobrir esse teu corpo
de frango
pelado e branco
cobre com ele tua barriga flácida
teu pinto quase nada
um roxo de mínima doença aquelas taturanas de fogo brotando das
coxas
das minhas coxas que nunca mais
jardim só quintal terreiro arenoso
tua baba branca tua barba branca
regando as garras de uma roseira
toda tronco
sem o álibi
da efemiridade da infância que
nunca tarda a envelhecer

fica com teu dinheiro velho
com tua velhice
de sapo murcho
boca sem língua
haste sem babosa

aloevera é um nome bonito para uma seiva perigosa que pode até
matar

e se você não estivesse morto eu te mataria
com minhas botas de montaria essas mesmas de cano alto apertada
na garganta
eu to muito bem obrigada agora com todos
esses alfinetes espetados à coluna serviçal

são duzentos cruzeiros cruzados os dedos sobre o papel sob a caixa
e o caixão e leva contigo essa história
enterrada na cova do dente de leite que um dia foi mas hoje é só mais
uma história de criação
as pessoas se divertem
eu não


.


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

cascos

teus cascos
sobre
minha boca
e um ponto
final
adianta-se
no meio
da frase que
nunca
terminou.


.

pineal

desloco a pineal
com as pontas
dos dedos
leio em braile
teus dentes
falam da fome
de uma barriga
cheia


.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

bruxa

e se eu dançasse sobre o meu sexo?
se tocasse-o com os dedos como toco-o
com os dedos?
se afundasse meus dedos dos pés na terra úmida
do meu sexo?
pisasse-o como às uvas até florescer, ver
te-lo vinho
vermelho?
diriam aqueles que voam
é uma bruxa essa que tem os pés
plantados na própria selvageria
e eu levantaria as saias e mostra
-ria os dentes
da vagina
afinados e retorcidos como unhas
famintas
encravadas na casa 7
é quente

a casa da loucura
e da fantasia

indecifráveis as digitais
como linhas que costuram os caminhos
pra dentro


.


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

três

na casa das três mulheres
3 bucetas
esquizofrênicas
sem pai ou mãe
sem karma ou dharma

3 bucetas
esquizo
frênicas
e uma plantação de margaridas
indecifráveis


..

terça-feira, 31 de outubro de 2017

aquela que

aquela que come unhas
cava
com os dentes
a própria história e alguns
caramujos
retorcidos

frágil aquela que come
unhas que já não tem
dedos
de pouca digital
dentes
cegos de corte
pescoço inclinado
de chão

aquela que come unhas
tem o ventre afiado
a vagina ressequida

aquela que come unhas
tem o corpo entortável


corpo bom
para uma boa tortura


.

biológico

presa dessa cadeia
evolutiva
de versos livres

desnecessária
como o pente
ao careca
ou as palavras
ao poeta


.

parentes

meus parentes me olham
pelo buraco da fechadura
os mortos, menos
modestos
emoldurados no alto
da parede

por isso minha rima
assim tão patética


.

dignidade

a dignidade
de um pardal pousado
ao ombro
de um vira-lata
encoleirado
aos pés
de um hálito antigo
soprando
versos dignos
num poema
que já se foi


.

na rua

a sofisticação das mulheres
da rua
com seus trejeitos
plumas e pênis
implantes
amputadas
de salto
agulha

a sofisticação dessas mulheres
da rua
nos coloca em nossos lugares



.

edição

numa próxima edição
quero nasce corrigida
diminuta
essencial
sem acréscimos nas pontas
ou notas*













_________________
* de rodapé


.

negro

não o cheiro
mas o som:

primeira gota de chuva
abismando-se no negro
do asfalto


.

consonantais

sentir somente a ponta
de uma língua
enrijecida
geleiras e icebergs idio
márticos
trios consonantais me intimidam
dedos

quero a intimidade de um ovo
gestando no barulho
seu próprio silêncio


.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

serpente

no debaixo da terra: uma serpente gigante ferida não se sabe onde: se na cabeça ou rabo: que é tudo rabo numa serpente.

sábado, 7 de outubro de 2017

regina

Salve, Regina, Mater misericordiae,
Vita, dulcedo, et spes nostra, salve.
Ad te clamamus, exsules filii Hevae,
Ad te suspiramus, gementes et flentes

terça-feira, 5 de setembro de 2017

colete salva vidas

e por causa de todos
de todos aqueles botes
e coletes luminosos
aos poucos
bem aos pouquinhos
fui esquecendo meus
tubarões

três vezes trezentos
mil dentes serrilhados
enterrados na barrriga
de uma estrela perdida
perdida do mar

barbatanas e belezas
azuis camuflando a
força de dois prédios
desabando o outro
sobre um

mas a memória
a memória amnésica
dissipada no laranja
inflável e nas luzes
e tochas acesas
numa intuição feliz
de margens

tudo parecia seguro
segura demais

a gente fica meio besta
quando está apaixo-

nado


.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

segunda-feira, 10 de julho de 2017

colecionadores

ele era colecionador. amador, colecionava lingeries. toda vez que trepava a mina, dava um jeito de levar a calcinha. às vezes pedia, outras forçava. quando não conseguia, comia de novo. até conseguir. a maioria, porém, dava de prima. parecia bonitinho isso de souvenier. aí colavam no celular. ele descolava. elas acabavam. no preju. total. a calcinha varia de 30 a 60 pilas. já a foda, dependendo da foda, não tem preço.

bom, ele sumia porque namorava. da namorada não colecionava nada. só metia. demorado e gostoso. todo dia. quase todo dia. às vezes ele catava outra. mas só quando adivinhava a calcinha entalada no rego daquela legg branca. ou cinza. da namorada, arrancava no dente. a calcinha cor de pele. sem renda. sem mimimi. beginha. arrancava no dente e metia a língua fundo na vereda de carne vermelha entre os pelos. 

um dia ela descobriu. tava ali no case da raquete. contou. uma a uma. 39 calcinhas: 12 vermelhas, 15 pretas, 9 brancas. o resto, cores variadas. tom sobre tom. todas calcinhas de dar. cheias dos mimimis. fio dental ainda com cheiro de bunda. manchinha de cola transparente no fundilho. ela ficou triste. era o que se esperava. comportamento molar. com choro e tudo. ele, evasivo. depois, explicativo. talvez da mãe. ou da empregada. quem sabe.

ela, tudo bem. molecular. tinha suas próprias microrrevoluções. às vezes se imaginava com aquelas calcinhas. e ele chamando-a. letícia, luana, natalia. gostava de nomes em éle. pareciam ser bons de bater. ou apanhar. tudo bem. ou quase. diminuía a culpa. a dela. cadela. colecionadora. ela também.

colecionava pintos. tinha-os aos montes. com aquela cara de bochechas. risonha. alegre. ninguém diria que. 63. número recorde pra uma coleção tão recente. grande. pequeno. fino. com cabeça de cogumelo. trabalhado na fimose. circuncidado. duro. mole. meia bomba. nunca dava sem levar. e dava muito. tinha uns até bem básicos. mas gostava mesmo é de pintos excêntricos. estereotipados. pra coleção. coisa rara. pra conseguir um pinto-pequeno-japonês teve de experimentar 15. 14 não cumpriam com o que se dizia. de boca pequena. morria de tesão. na coleção. e a coleção crescia. teve até de dividir a estante. uma parte pros livros. na outra, os pintos. um por um. como soldados. eretos e enfileirados.

é claro que não arrancava os pintos dos caras. levava-os embalado na memória. ora, tava pensando o quê? isso aqui é literatura contemporânea. não tem nada de fantástico. ou efeitos de sentido. coleção de lingerie é coleção de lingerie. coleção de pinto é coleção de pinto. pronto. só que pinto a gente leva pra casa é na cabeça. não é coisa simples. precisa de muito contato. precisa é trato. pra conseguir levar um pinto na lembrança. e ela, a colecionadora, levava. ah e como levava. aqueles pintos todos. ali à disposição de um piscar de olhos. 

o bom é que ele nunca encontraria a coleção. muito muito bom. bom pra ele que não precisaria ter um comportamento molar e quebrar a cara dela. e pra ela. que poderia continuar vestindo o pinto dele com aqueles pintos que trazia de outras fodas. e ele nem suporia quando ela

ai ai mete mete fundo fundo um pinto todo duro e tamanhudo entrando ali no molhado. bem no lugar do seu. digo, do dele. ou

nossa que caralho é esse meu deus e uau era aquele todo lustroso e negro. grande demais da conta. ou

hum ai glub argh nooooossa engasgado ali um pinto pedra polida. joia rara. tão diferente do seu. do dele, quero dizer. 

talvez se ele olhasse pra baixo enquanto ela gozava e gemia e apertava a raiz do pau entre os dedos enquanto ele metia fundo estocava duas três sete vezes gostoso

nossa. se ele nessa hora.

ai safado. se ele olhasse pro pau talvez se tocasse que. mas não. não. não dava porque nessa hora ele tava é olhando por cima dos ombros dela. ali na fenda do armário toda sua coleção de lingerie. e ele suspirava gemia gostoso

putinha. ai bucetinha apertada. mexe a bunda cadela. punhetando as calcinhas na imaginação. 39. 12 vermelhas, 15 pretas, 9 brancas. o resto, cores variadas. tom sobre tom. e metia fundo. ela, toda melada metida naqueles pintos todos. 63. número recorde pra uma coleção tão recente. um por vez. às vezes dois. no lugar do dele. nunca olhava pra cima. nem sabia que os olhos dele lá. perdidos no armário.

nossa. mais fundo mais fundo que eu vou gozar. os olhos fincados no pinto que não era dele. então gozavam. grosso e gostoso. exaustos. felizes. nunca se comeram. eram colecionadores. talvez um dia quando ele lhe roubasse a calcinha. e ela levasse o pinto dele pra casa. e que bela foda seria. com os dois assim

tão distantes.



.

domingo, 18 de junho de 2017

oceano


arca

abriu meus dedos
e depositou ali
um anel
um beijo
um poema
e algumas penas

só nelas, a memória
de voo


.

boca de deus

vejo a boca de deus
e ela tem fome

também tu tomas
meu corpo
e alimenta de fome
a tua fome
e de sede
a tua sede

e de morte
a tua vinda


.

silente

meu corpo agora esse
estranho
ao qual só como visita
visitas

não tocas nada e tudo
se empoeira
unhas crescem
a língua atrofia
nos confins do silêncio
o grito

aninho no colo a solidão
bola de pelo
que ronrona e desliza
pela curva de um destino
branco
enrolado nesses lençóis

não temas:
retira o pano pálido
com que vestiste
o espelho dos olhos

por detrás das cortinas
soo ainda trovão
e tempestades

então entra na casa
como quem entra sem cerimônia
na própria vida:
com a lama
de tuas botas sujas


.



oco

não
há pressa
ou vagar
apenas a boca
do tempo
mascando
contínuo
o oco
da vida


.

pássaro poema

pensei a liberdade
nascendo ali
na folha branca 
e outonal

mas o poema é só 
mais um 
mais outro
pássaro batendo 
asas na gaiola:

ilusão de vôo


.

reinvenção

nascer pedra e
rolar
rolar
rolar
rolar
rolar
até ser só

pó e nada


.

esquecimento

amputada a memória
do corpo:

senta-te na cadeira-móvel
aquela do amor paralisado
apreenda o esquecimento
e ria-te muito
e sempre
de ti

pede
ao teu deus que me tenha
em teus
braços
lápis ou
caneta
o calendário em branco
dos dias
perdidos
na neblina de um futuro
indistinto

pede que eu possa
escrever
pérolas ou ostras
depois
de um mergulho fundo
atiras uma garrafa
ao mar

e não peças mais
nada



.

passarinha

encostas tuas costas
às minhas, tua boca
ao meu olvido:

me chamas passarinha

passeio, sorrio
no de-dentro feliz da vida
que já não tenho


.

desejo

águas sonambulas
pingam bêbadas
das calhas

peixes desesperam
sua fome
de anzóis:

desejo infante
de armadilhas


.

não sabes?

todo o meu corpo pensa
e em alguns lugares
o pensamento é pior
meu coração, por exemplo,
pensa geleiras
e espinhos
pensa a garganta
é o pensamento do fogo
inflamando meus pés
mas pior, pior mesmo
são as mãos
vazias
pensando
o amor


.

corpo-ilha

as palavras são nada
mas tudo que tenho
senhor,
é esse mar na língua

junto algumas letras
formo sílabas
e melodias diluídas
em balbucios

sobras de um corpo-
ilha atracado à cama

tu me olhas, aguado,
insone das noites e
há dias
em que sonhas céu

mas tua pena amputa
meu voo


.

oração

drena-me,
senhor,
esse mar na língua


.

poema

estendo-me como um verso sobre a cama
amanhã será sobre a caixa
depositada à terra
não temo
por detrás das palavras
todo verso

é poesia

haikai

três peixes dourados
apertados
disputando espaço


num pequeno aquário


.

escavação

escavo meu corpo
procuro-me 
do lado de lá 
da vida
deus boceja


.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

miragem

miragem:
garoa fina sobre tua pele

um oásis
antecipado na minha boca


.

à beira

sinto-me à beira
das palavras
à beira da pele
à beira do centro
à beira da voz
passada
atrofiada
a memória
à beira
do acidente
vasculhar

o cérebro
eu sonho
um sonho
sem imagens


brancura

decompondo
a palavra
tor-ci-co-lo
calo

torcionário
meu algoz
torturo-te
em palavras
mastigando-te
à boca
à beira
dos dentes

um rastro fino
de sangue
à beira
do papel

só a morte pode me deter
só a morte pode
salvar nossos sentidos

essa coisa-mãe
à beira do pai

bioluminescência


.

flauta

tu, entre todos
és o melhor flautista
ainda que flauta
não a tenhas tu

eu, sim, toco-te
a flauta
tua
examino teu
sopro e
suspiro

silencio
encantada


.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

sonolências

eu conto os fios dos seus cabelos
um por um até cem
depois de novo
e de novo
um pensamento me invade: "eu
não sabia que você tinha tanto
cabelo

com ele
poderíamos reflorestar o mundo"

e adormeço
feliz do futuro


.

sim, é tarde

nas costas
carrego um adeus
tatuado em linhas
finíssimas
quase não
se vê
mas eu vo
o


.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

caca

ela enfiou o dedo no nariz e tirou
um pedacinho de si
uma bolinha caprichosa
gestada no silêncio da noite

ela
um pedacinho de si
rolando vagarosa
até alcançar a sarjeta



.

terça-feira, 2 de maio de 2017

caneta

a caneta fincada à terra
refloresta      
a cidade
e os caramujos solitários
quarto
sala cozinha
e duas pernas se esticando
elétricas
no banheiro

a caneta deixa um rastro
de tinta
no meio
da noite



.

colheita do inhame

queria escrever mais sobre
ternura
mas arranho meus poemas
e eles sangram nas pontas

terno é o nome
que se dá ao paletó e ele
esconde a corda
amarrada
ao teu pescoço
eu me penduro
como nos fios
telefônicos
d'um bungee jump
mais longo
do que a distância
entre teu corpo




e o meu

senta e sinta

senta
as minhas extremidades estão frias

teus dedos acaso congelam
se me tocam?
(e já não me tocas quando

senta na cadeira
vermelha
ao meu lado

sente
as minhas extremidades estão frias

mas minha cabeça queima
a uns 45º. graus
há um fio de lava vulcânica
e se derrama e transborda

um buquê de gordas dálias
vermelhas
forçando os vasos cerebrais

minha cabeça queima e te convido
a jogar xadrez comigo
nesse calor infernal de
45º. graus

nós dois, face-to-face
alguns cavalos, uma e outra dama
vestida de passado
o rei derrubado em sua cadeira real
e a rainha

alta e hipertensa
magnânima
alheia a tudo que não é
vida

penetra na abstração:

uma instalação de artérias
obstrução de ideias
espaços vasoaracnóideos
neurônios em cadeiras de

roda

senta

sinta

45º. graus

nós: rei e rainha
frente a frente
cercados

labaredas de fogo





sexta-feira, 28 de abril de 2017

confissão à minha tia

confessas que me traístes
e clamas por perdão
neste meu leito de vida

amor, não se pode trair o rio
as nuvens
o vento
mesmo a montanha
é passageira
minha carne
tão preclara já não sente dor
de posse
de quentura nas partes
de ossatura tremulosa

sou agora apenas o pó
de uma poesia fecunda
porém feia
porque grudada à baba
que me escapa
no canto
da boca

então não chores
pela mulher que não fui
àquela cama
lembra a outra
que em mim te esperou
com o café quente
e o perfume escondido
atrás da orelha
o silêncio
de olhos fechados

não chores pela mulher
que não fui àquela cama
deita-te sobre essa
e sussurra o meu nome

rio
nuvem
vento
mentanha

só nele eu me lembro
quem sou


.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

lua

minha mãe nunca gostou de você
minha mãe nunca gostou de você
minha mãe nunca
gostou
de você eu deveria saber
que essa convulsão esse manchado
de tintas sobre a dialética
das flores eu deveria saber os
espinhos
amputando meus passos

agora me diz como amar a vida
se mastiga a mórula na língua
os teus dedos de poucas folhas
no papel
amputando meus ah braços

é tarde

há lobos uivando à janela
minha mãe nunca gostou
de lobos ou janelas
e eu deveria saber
que o teu nome
é lua
e me
mingua


.

sexta-feira, 31 de março de 2017

lietuva

*
não queria ter batizado
com o meu nome
- lietuva -
aquela ilha sob teus pés

uma pinta é só uma pinta
solitária
no meio de seus tropeços
os nomes
são territórios da poesia


*
não queria mas tracei
uma fronteira em giz
de cera

dois por um e meio:
são os limites da ca-
ma-
me
equilibro na borda
tubarões aguardam
no tapete de águas

*
rasas
as cortinas acenam
você
está me deixando


*
louca
a língua que falam
as anêmonas:


*
três calcinhas ver-
sejam de quem for
não são
minas


*
terrestres seus pés
não sabem
nada de mergulho
eu pulo


*
explosão


*
lʲɪɛtʊˈvɐ



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

bom-senso

se soubesses que a boca
obstinada
não cansa de beijar-te
de lamber-te, fogosa,
as migalhas
das orações que t'escapam
pelos cantos
e escorrem do pescoço
à camisa

- noto
que até o botão deixou-te,
não eu
(estou aqui) nesse buraco
vazio:
-

segues o cabo enfiado
à garganta
agarra-te nele que ele
alcança
minh'alma

sentirás que é ela uma
maçã polpuda
pingos sumorosos
de existência
todo o resto é história
da criação

deseja minha alma e
sinta ternura
por esse corpo que se ex-
tingue
antes da impudente
idade do bom-senso
crava-me
teus dentes
enquanto há tempo


.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

teto

os olhos colados no teto desenham poemas
que já não posso escrever
escondem versos invisíveis nas rachaduras
que só eu posso ver
só eu posso ver
eu posso
só, eu
me tornei palavra
muda
desde que o corpo calou
afetos
não me afetam
agulhas
mas a dor
estampada na aridez do toque

ninguém lê minha escritura
película fina sobre cristais
de tempo
em tempo: todos se arcam
sobre mim
buscando vida no debaixo
não olham para cima
não importa a poesia

vasculham feridas, buracos
o amarelo dos olhos

[não toquem na minha língua!]

agora tenho um teto só
meu
caderno de rascunhos
a vida e a morte se conjugam
no agora

eu escrevi um verso rimando
internamente cânula
& calêndula
tu devias de saber:

está tudo escrito
no lado de cima
sob luzes fosdorescentes
só eles não podem ver
só eles não podem
só, eles não
mas é lá que ela estou


.

bilhete

ontem minha mãe leu os poemas que escrevi para ti e
chorou
provavelmente entendeu
nada

[poesia é presença
e certamente tu estavas lá]


.


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

número 547

eles limpam as cinzas da minha boca
e forçam as gengivas banguelas
como se as escovassem

onde foram parar meus dentes de roer
mundo?
os dentes que fincava sobre tua guarda
costeira?
os dentes que riam tua rima desastrosa?
os dentes que tantas vezes emprestei
aos desdentados?

onde foram meus dentes e a dignidade
da minha boca de poeta?

não sabem nada da história
desses dentes tortos
do ciso quebrado
nem da escrita calcificada
na língua
penetram à noite
pelas fissuras da parede
amordaçam minhas palavras
e se vão sem deixar estímulo
à poesia

cada dia seco mais com o sol e murcho
como pássaro pesado
de chuva

ontem foi dia de banho e m'arrancaram 
a alma
enquanto riam de suas histórias tristes

eu queria para mim uma história triste 
então colocaria nela ataduras
derrubaria suas paredes e construiria
um muro
baixo que para ouvir teu sussuro
longe habitando uma grossa gota
seca de lágrima
só o sussurro me lembrando
que ainda tenho um nome

o nome que escondi enrolado
na minha morte
que escondi dos olhos que despem
indiferentes ao poema

e enquanto eles não me chamam
eu não vou



.

sem título

atreva-te a atravessar essas paredes
de uma memória dura
ficcionalizada em poesia
dobra teu corpo sobre minha cama
e injetas duas ampolas
de gozo líquido
nesses olhos
insones
são as noites que te espero tanto
são as noites que
são
escuros
todos os gritos guardados entre
a fronha e o travesseiro
não há espaço para a dor
e reza comigo três versos
não importa o que digam
apenas a rima açulando sentidos
e os meus pés
adormecidos
os cantos
as camas
os mortos-vivos
as seringas e as agulhas
os passos brancos e rítmicos

atreva-te a furar o silêncio
com teu falo que aguardo tanto
e com os dedos unidos
planta no meu sexo seco
a tua oração

não te enganes com o que vês
a vida
acontece no avesso

então dobra-te sobre ti mesmo
pois há um poema
em estado gasoso
escapando pela janela
da garganta
vejo tudo que respiro
tenta contê-lo
em teus lábios
guarda dele ao menos
as asas
para quebrarmos
junto suas arti
culações

porque se um dia eu voltar
a viver
será para a morte



.
[para minha tia, em espera]

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

casaco de pelo

atrevo-me a tocar o tambor e
colar-me como um desenho tribal
nas costas
do teu mar
espreitando tua cama
até que me chamas
para galopar

nas noites de verão o céu estrela
por debaixo das ondas
arraias pretas pintadas de branco
envenenam os dedos

deixa o piano mudo
e se muda para as sardas do meu braço
escondido sob o teu

e eu não digo nada
apenas

engulo cada pecíolo desse teu lençol florido
e me estico
minha perna sobre a tua e atuas sobre mim
gestos teatrais:
me faço árvore
enquanto enxertas o tempo no meu ventre
o tic-tac tic-tac tic-tac adiando
in-fi-ni-ta-men-te
a morte
da minha hora

eu só tenho uma hora e trinta e sete minutos
para te dar

tenho um coração bruto
mas minha vagina é macia
e ela recita poemas de cor
foca nela
e não te intimides com os animais selvagens
em debandada quando abro a boca
para gozar
os versos
que nunca serão
escorrem
abortados dos caninos

os versos que se escandalizam do teu cuspe
regando minha língua
minha face
o pescoço
o livro em russo que guardo entre pelos
e pernas

tu levarás no mínimo duas vidas
para traduzi-lo
então me chupa
enquanto os versos escandalizados fodem
a poesia

trepas com uma flor
não sabias?
pois agora saiba e cuida-
te


.


cadeira

então ela tampou a panela e tirou lá de dentro um pouco de coragem para perguntar.

logo ela sempre abismada no silêncio, entoando apenas a melodia morta de umas canções que nunca conseguiu aprender a letra, ou entender o que de fato significavam. só aquele amortecimento, aqueles calafrios, a quentura subindo na garganta enquanto balbuciava umas rimas fonéticas... 

"o que você mais gosta em mim?", cuspiu timidamente. 

ele enfiou uma asa de frango na boca e mastigou junto com um seilá quase incompreensível. mas olhou-a. olhou-a sob a cortina de silêncio que se fechava entre eles. "a boca". a boca? como assim a boca? a imagem atravessou-a como se um maçarico. depois um buraco vazio de significantes. quase um poço. enfiou a outra asa na boca. mastigou também uma ideias tortas. o tempo se estende quando sentamos no intervalo entre uma palavra e outra. cadeira por exemplo é uma palavra muito distante de outra cadeira. ficaria assim: o tempo se estende quando sentamos no intervalo entre uma cadeira e outra.

"por que a boca?" perguntou com a coragem renovada pelo ar fresco que vinha da geladeira aberta. que nessas noites de chuva sempre havia sobremesa antes da cama. dentro dela outras questões aconteciam, mas sem força para se formular: se eu sempre em silêncio por que a boca? seria pelo que falo ou calo? por que a boca se a língua tão estrangeira e todos esses dentes duros de segunda-feira? não, ela não pensava tudo isso. só parecia que ela pensava porque quem pensa são os outros. a gente sente. 

"ah porque sim", foi uma resposta de poucos olhos misturada à calda de frutas vermelhas. mas tudo foi bem mais rápido do que parece. não fossem os procedimentos tecnológicos não haveria nem tempo para o texto. ele estava bem perto agora. o tempo se contrai quando retiramos as palavras. intervalo por exemplo é uma palavra. aí só sobra a respiração. 

talvez que no momento da resposta, ou num momento posterior à ela, já que é preciso de alguma fração de tempo para que as coisas façam sentido, ela tenha pensado que diante daquilo - do que foi dito, claro - as palavras não importam tanto. 

são apenas detalhes.



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