quinta-feira, 19 de outubro de 2017

serpente

no debaixo da terra: uma serpente gigante ferida não se sabe onde: se na cabeça ou rabo: que é tudo rabo numa serpente.

sábado, 7 de outubro de 2017

regina

Salve, Regina, Mater misericordiae,
Vita, dulcedo, et spes nostra, salve.
Ad te clamamus, exsules filii Hevae,
Ad te suspiramus, gementes et flentes

terça-feira, 5 de setembro de 2017

colete salva vidas

e por causa de todos
de todos aqueles botes
e coletes luminosos
aos poucos
bem aos pouquinhos
fui esquecendo meus
tubarões

três vezes trezentos
mil dentes serrilhados
enterrados na barrriga
de uma estrela perdida
perdida do mar

barbatanas e belezas
azuis camuflando a
força de dois prédios
desabando o outro
sobre um

mas a memória
a memória amnésica
dissipada no laranja
inflável e nas luzes
e tochas acesas
numa intuição feliz
de margens

tudo parecia seguro
segura demais

a gente fica meio besta
quando está apaixo-

nado


.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

domingo, 18 de junho de 2017

oceano


arca

abriu meus dedos
e depositou ali
um anel
um beijo
um poema
e algumas penas

só nelas, a memória
de voo


.

boca de deus

vejo a boca de deus
e ela tem fome

também tu tomas
meu corpo
e alimenta de fome
a tua fome
e de sede
a tua sede

e de morte
a tua vinda


.

silente

meu corpo agora esse
estranho
ao qual só como visita
visitas

não tocas nada e tudo
se empoeira
unhas crescem
a língua atrofia
nos confins do silêncio
o grito

aninho no colo a solidão
bola de pelo
que ronrona e desliza
pela curva de um destino
branco
enrolado nesses lençóis

não temas:
retira o pano pálido
com que vestiste
o espelho dos olhos

por detrás das cortinas
soo ainda trovão
e tempestades

então entra na casa
como quem entra sem cerimônia
na própria vida:
com a lama
de tuas botas sujas


.



oco

não
há pressa
ou vagar
apenas a boca
do tempo
mascando
contínuo
o oco
da vida


.

pássaro poema

pensei a liberdade
nascendo ali
na folha branca 
e outonal

mas o poema é só 
mais um 
mais outro
pássaro batendo 
asas na gaiola:

ilusão de vôo


.

reinvenção

nascer pedra e
rolar
rolar
rolar
rolar
rolar
até ser só

pó e nada


.

esquecimento

amputada a memória
do corpo:

senta-te na cadeira-móvel
aquela do amor paralisado
apreenda o esquecimento
e ria-te muito
e sempre
de ti

pede
ao teu deus que me tenha
em teus
braços
lápis ou
caneta
o calendário em branco
dos dias
perdidos
na neblina de um futuro
indistinto

pede que eu possa
escrever
pérolas ou ostras
depois
de um mergulho fundo
atiras uma garrafa
ao mar

e não peças mais
nada



.

passarinha

encostas tuas costas
às minhas, tua boca
ao meu olvido:

me chamas passarinha

passeio, sorrio
no de-dentro feliz da vida
que já não tenho


.

desejo

águas sonambulas
pingam bêbadas
das calhas

peixes desesperam
sua fome
de anzóis:

desejo infante
de armadilhas


.

não sabes?

todo o meu corpo pensa
e em alguns lugares
o pensamento é pior
meu coração, por exemplo,
pensa geleiras
e espinhos
pensa a garganta
é o pensamento do fogo
inflamando meus pés
mas pior, pior mesmo
são as mãos
vazias
pensando
o amor


.

corpo-ilha

as palavras são nada
mas tudo que tenho
senhor,
é esse mar na língua

junto algumas letras
formo sílabas
e melodias diluídas
em balbucios

sobras de um corpo-
ilha atracado à cama

tu me olhas, aguado,
insone das noites e
há dias
em que sonhas céu

mas tua pena amputa
meu voo


.

oração

drena-me,
senhor,
esse mar na língua


.

poema

estendo-me como um verso sobre a cama
amanhã será sobre a caixa
depositada à terra
não temo
por detrás das palavras
todo verso

é poesia

haikai

três peixes dourados
apertados
disputando espaço


num pequeno aquário


.

escavação

escavo meu corpo
procuro-me 
do lado de lá 
da vida
deus boceja


.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

miragem

miragem:
garoa fina sobre tua pele

um oásis
antecipado na minha boca


.

à beira

sinto-me à beira
das palavras
à beira da pele
à beira do centro
à beira da voz
passada
atrofiada
a memória
à beira
do acidente
vasculhar

o cérebro
eu sonho
um sonho
sem imagens


brancura

decompondo
a palavra
tor-ci-co-lo
calo

torcionário
meu algoz
torturo-te
em palavras
mastigando-te
à boca
à beira
dos dentes

um rastro fino
de sangue
à beira
do papel

só a morte pode me deter
só a morte pode
salvar nossos sentidos

essa coisa-mãe
à beira do pai

bioluminescência


.

flauta

tu, entre todos
és o melhor flautista
ainda que flauta
não a tenhas tu

eu, sim, toco-te
a flauta
tua
examino teu
sopro e
suspiro

silencio
encantada


.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

sonolências

eu conto os fios dos seus cabelos
um por um até cem
depois de novo
e de novo
um pensamento me invade: "eu
não sabia que você tinha tanto
cabelo

com ele
poderíamos reflorestar o mundo"

e adormeço
feliz do futuro


.

sim, é tarde

nas costas
carrego um adeus
tatuado em linhas
finíssimas
quase não
se vê
mas eu vo
o


.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

caca

ela enfiou o dedo no nariz e tirou
um pedacinho de si
uma bolinha caprichosa
gestada no silêncio da noite

ela
um pedacinho de si
rolando vagarosa
até alcançar a sarjeta



.

terça-feira, 2 de maio de 2017

caneta

a caneta fincada à terra
refloresta      
a cidade
e os caramujos solitários
quarto
sala cozinha
e duas pernas se esticando
elétricas
no banheiro

a caneta deixa um rastro
de tinta
no meio
da noite



.

colheita do inhame

queria escrever mais sobre
ternura
mas arranho meus poemas
e eles sangram nas pontas

terno é o nome
que se dá ao paletó e ele
esconde a corda
amarrada
ao teu pescoço
eu me penduro
como nos fios
telefônicos
d'um bungee jump
mais longo
do que a distância
entre teu corpo




e o meu

senta e sinta

senta
as minhas extremidades estão frias

teus dedos acaso congelam
se me tocam?
(e já não me tocas quando

senta na cadeira
vermelha
ao meu lado

sente
as minhas extremidades estão frias

mas minha cabeça queima
a uns 45º. graus
há um fio de lava vulcânica
e se derrama e transborda

um buquê de gordas dálias
vermelhas
forçando os vasos cerebrais

minha cabeça queima e te convido
a jogar xadrez comigo
nesse calor infernal de
45º. graus

nós dois, face-to-face
alguns cavalos, uma e outra dama
vestida de passado
o rei derrubado em sua cadeira real
e a rainha

alta e hipertensa
magnânima
alheia a tudo que não é
vida

penetra na abstração:

uma instalação de artérias
obstrução de ideias
espaços vasoaracnóideos
neurônios em cadeiras de

roda

senta

sinta

45º. graus

nós: rei e rainha
frente a frente
cercados

labaredas de fogo





sexta-feira, 28 de abril de 2017

confissão à minha tia

confessas que me traístes
e clamas por perdão
neste meu leito de vida

amor, não se pode trair o rio
as nuvens
o vento
mesmo a montanha
é passageira
minha carne
tão preclara já não sente dor
de posse
de quentura nas partes
de ossatura tremulosa

sou agora apenas o pó
de uma poesia fecunda
porém feia
porque grudada à baba
que me escapa
no canto
da boca

então não chores
pela mulher que não fui
àquela cama
lembra a outra
que em mim te esperou
com o café quente
e o perfume escondido
atrás da orelha
o silêncio
de olhos fechados

não chores pela mulher
que não fui àquela cama
deita-te sobre essa
e sussurra o meu nome

rio
nuvem
vento
mentanha

só nele eu me lembro
quem sou


.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

lua

minha mãe nunca gostou de você
minha mãe nunca gostou de você
minha mãe nunca
gostou
de você eu deveria saber
que essa convulsão esse manchado
de tintas sobre a dialética
das flores eu deveria saber os
espinhos
amputando meus passos

agora me diz como amar a vida
se mastiga a mórula na língua
os teus dedos de poucas folhas
no papel
amputando meus ah braços

é tarde

há lobos uivando à janela
minha mãe nunca gostou
de lobos ou janelas
e eu deveria saber
que o teu nome
é lua
e me
mingua


.

sexta-feira, 31 de março de 2017

lietuva

*
não queria ter batizado
com o meu nome
- lietuva -
aquela ilha sob teus pés

uma pinta é só uma pinta
solitária
no meio de seus tropeços
os nomes
são territórios da poesia


*
não queria mas tracei
uma fronteira em giz
de cera

dois por um e meio:
são os limites da ca-
ma-
me
equilibro na borda
tubarões aguardam
no tapete de águas

*
rasas
as cortinas acenam
você
está me deixando


*
louca
a língua que falam
as anêmonas:


*
três calcinhas ver-
sejam de quem for
não são
minas


*
terrestres seus pés
não sabem
nada de mergulho
eu pulo


*
explosão


*
lʲɪɛtʊˈvɐ



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

bom-senso

se soubesses que a boca
obstinada
não cansa de beijar-te
de lamber-te, fogosa,
as migalhas
das orações que t'escapam
pelos cantos
e escorrem do pescoço
à camisa

- noto
que até o botão deixou-te,
não eu
(estou aqui) nesse buraco
vazio:
-

segues o cabo enfiado
à garganta
agarra-te nele que ele
alcança
minh'alma

sentirás que é ela uma
maçã polpuda
pingos sumorosos
de existência
todo o resto é história
da criação

deseja minha alma e
sinta ternura
por esse corpo que se ex-
tingue
antes da impudente
idade do bom-senso
crava-me
teus dentes
enquanto há tempo


.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

teto

os olhos colados no teto desenham poemas
que já não posso escrever
escondem versos invisíveis nas rachaduras
que só eu posso ver
só eu posso ver
eu posso
só, eu
me tornei palavra
muda
desde que o corpo calou
afetos
não me afetam
agulhas
mas a dor
estampada na aridez do toque

ninguém lê minha escritura
película fina sobre cristais
de tempo
em tempo: todos se arcam
sobre mim
buscando vida no debaixo
não olham para cima
não importa a poesia

vasculham feridas, buracos
o amarelo dos olhos

[não toquem na minha língua!]

agora tenho um teto só
meu
caderno de rascunhos
a vida e a morte se conjugam
no agora

eu escrevi um verso rimando
internamente cânula
& calêndula
tu devias de saber:

está tudo escrito
no lado de cima
sob luzes fosdorescentes
só eles não podem ver
só eles não podem
só, eles não
mas é lá que ela estou


.

bilhete

ontem minha mãe leu os poemas que escrevi para ti e
chorou
provavelmente entendeu
nada

[poesia é presença
e certamente tu estavas lá]


.


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

número 547

eles limpam as cinzas da minha boca
e forçam as gengivas banguelas
como se as escovassem

onde foram parar meus dentes de roer
mundo?
os dentes que fincava sobre tua guarda
costeira?
os dentes que riam tua rima desastrosa?
os dentes que tantas vezes emprestei
aos desdentados?

onde foram meus dentes e a dignidade
da minha boca de poeta?

não sabem nada da história
desses dentes tortos
do ciso quebrado
nem da escrita calcificada
na língua
penetram à noite
pelas fissuras da parede
amordaçam minhas palavras
e se vão sem deixar estímulo
à poesia

cada dia seco mais com o sol e murcho
como pássaro pesado
de chuva

ontem foi dia de banho e m'arrancaram 
a alma
enquanto riam de suas histórias tristes

eu queria para mim uma história triste 
então colocaria nela ataduras
derrubaria suas paredes e construiria
um muro
baixo que para ouvir teu sussuro
longe habitando uma grossa gota
seca de lágrima
só o sussurro me lembrando
que ainda tenho um nome

o nome que escondi enrolado
na minha morte
que escondi dos olhos que despem
indiferentes ao poema

e enquanto eles não me chamam
eu não vou



.

sem título

atreva-te a atravessar essas paredes
de uma memória dura
ficcionalizada em poesia
dobra teu corpo sobre minha cama
e injetas duas ampolas
de gozo líquido
nesses olhos
insones
são as noites que te espero tanto
são as noites que
são
escuros
todos os gritos guardados entre
a fronha e o travesseiro
não há espaço para a dor
e reza comigo três versos
não importa o que digam
apenas a rima açulando sentidos
e os meus pés
adormecidos
os cantos
as camas
os mortos-vivos
as seringas e as agulhas
os passos brancos e rítmicos

atreva-te a furar o silêncio
com teu falo que aguardo tanto
e com os dedos unidos
planta no meu sexo seco
a tua oração

não te enganes com o que vês
a vida
acontece no avesso

então dobra-te sobre ti mesmo
pois há um poema
em estado gasoso
escapando pela janela
da garganta
vejo tudo que respiro
tenta contê-lo
em teus lábios
guarda dele ao menos
as asas
para quebrarmos
junto suas arti
culações

porque se um dia eu voltar
a viver
será para a morte



.
[para minha tia, em espera]

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

casaco de pelo

atrevo-me a tocar o tambor e
colar-me como um desenho tribal
nas costas
do teu mar
espreitando tua cama
até que me chamas
para galopar

nas noites de verão o céu estrela
por debaixo das ondas
arraias pretas pintadas de branco
envenenam os dedos

deixa o piano mudo
e se muda para as sardas do meu braço
escondido sob o teu

e eu não digo nada
apenas

engulo cada pecíolo desse teu lençol florido
e me estico
minha perna sobre a tua e atuas sobre mim
gestos teatrais:
me faço árvore
enquanto enxertas o tempo no meu ventre
o tic-tac tic-tac tic-tac adiando
in-fi-ni-ta-men-te
a morte
da minha hora

eu só tenho uma hora e trinta e sete minutos
para te dar

tenho um coração bruto
mas minha vagina é macia
e ela recita poemas de cor
foca nela
e não te intimides com os animais selvagens
em debandada quando abro a boca
para gozar
os versos
que nunca serão
escorrem
abortados dos caninos

os versos que se escandalizam do teu cuspe
regando minha língua
minha face
o pescoço
o livro em russo que guardo entre pelos
e pernas

tu levarás no mínimo duas vidas
para traduzi-lo
então me chupa
enquanto os versos escandalizados fodem
a poesia

trepas com uma flor
não sabias?
pois agora saiba e cuida-
te


.


cadeira

então ela tampou a panela e tirou lá de dentro um pouco de coragem para perguntar.

logo ela sempre abismada no silêncio, entoando apenas a melodia morta de umas canções que nunca conseguiu aprender a letra, ou entender o que de fato significavam. só aquele amortecimento, aqueles calafrios, a quentura subindo na garganta enquanto balbuciava umas rimas fonéticas... 

"o que você mais gosta em mim?", cuspiu timidamente. 

ele enfiou uma asa de frango na boca e mastigou junto com um seilá quase incompreensível. mas olhou-a. olhou-a sob a cortina de silêncio que se fechava entre eles. "a boca". a boca? como assim a boca? a imagem atravessou-a como se um maçarico. depois um buraco vazio de significantes. quase um poço. enfiou a outra asa na boca. mastigou também uma ideias tortas. o tempo se estende quando sentamos no intervalo entre uma palavra e outra. cadeira por exemplo é uma palavra muito distante de outra cadeira. ficaria assim: o tempo se estende quando sentamos no intervalo entre uma cadeira e outra.

"por que a boca?" perguntou com a coragem renovada pelo ar fresco que vinha da geladeira aberta. que nessas noites de chuva sempre havia sobremesa antes da cama. dentro dela outras questões aconteciam, mas sem força para se formular: se eu sempre em silêncio por que a boca? seria pelo que falo ou calo? por que a boca se a língua tão estrangeira e todos esses dentes duros de segunda-feira? não, ela não pensava tudo isso. só parecia que ela pensava porque quem pensa são os outros. a gente sente. 

"ah porque sim", foi uma resposta de poucos olhos misturada à calda de frutas vermelhas. mas tudo foi bem mais rápido do que parece. não fossem os procedimentos tecnológicos não haveria nem tempo para o texto. ele estava bem perto agora. o tempo se contrai quando retiramos as palavras. intervalo por exemplo é uma palavra. aí só sobra a respiração. 

talvez que no momento da resposta, ou num momento posterior à ela, já que é preciso de alguma fração de tempo para que as coisas façam sentido, ela tenha pensado que diante daquilo - do que foi dito, claro - as palavras não importam tanto. 

são apenas detalhes.



.