terça-feira, 20 de dezembro de 2016

abra a boca e diga a

deixei a minha voz
naquele poema que escrevi sobre o lençol da sua cama

você sonhou com sereias e mijou na palavra
amor
agora essa gagueira de amoras impossíveis
esse gargarejo de romãs romanas
esse amarelado triste de peças em liquidação
minha voz
dissolvida em sabão em pó e alvejante
na rave das máquinas
de lavar idiossincrasias

como é que se diz eu-te-amo sem amor?
como é que se diz eu-te-odeio sem amor?
como é que se diz leva-uma-blusa sem amor?
como é que se diz passa-no-banco-pra-pagar-as contas sem
amor?

rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
: a máquina de moer palavras tritura meus pensamentos
já não posso escrever poesia
só ouço os tambores tocados pelos anjos da memória
filhos-da-puta que só me lembram porque não posso
rrrrrrrrrrrrrrr !

sua cama nua e eu enrolada
em cachecóis feito de buracos vazios

antes de perder a voz minha mãe dizia: não se pode confiar em ninguém
cuja cama está constantemente desalinhada



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