terça-feira, 20 de dezembro de 2016

ciborgue

acordei com um eu-lírico pendurado na linha
de fuga da minha língua
ele diz coisas do futuro

e me obriga a escrever os poemas que só daqui
a três meses
se concretizarão

então eu cuspo na tua cara
quebro a garrafa do teu melhor uísque
digo aquela verdade guardada para o fim
do mundo
risco um fósforo sobre teus inéditos
falo mal da tua mãe e do móvel horroroso
que você comprou para a sala
de estar
dos livros em russo que não posso ler
do teu relógio suiço estacionado no inverno
digo que não importa a tinta com que se pinte porque teus cabelos estão brancos e não tem como fugir porque há tufos deles espalhados pela casa pela cama no ralo do banheiro e que há
baratas
famintas prescurtando segredos

daqui a três meses terão se passado setecentas e oitenta horas e algumas luas
a maré terá subido e descido
então digo que quero te deixar agora
e acabo com toda possibilidade de
volta

esse gosto salgado de mar na língua

e depois a gente fode
como é de praxe aos peixes
acontecer


.

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