sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

antes de dormir

a imagem de um pássaro manco me aflige. era
como nos movíamos pela manhã. depois das bolachas e do café com duas colheres rasas de sal. do himalaia a foto na parede nos sorria. pássaros saudáveis passam o verão na califórnia. botamos ovos
na frigideira, mas o fogo não acendeu. e o amarelo ficou boiando na clara espessa. o gás só finda quando precisamos de verdade. dele. o pássaro manco
batendo o bico contra a vidraça. vidros espalhados no terraço. aquele copo de requeijão herança de família. tua mãe ou
a minha? e eu senti um pouco daquela vontade de me cortar. transparências brilham contra o sol. aquela vontade que guardo aqui:
escondida entre o pré e o molar. ninguém vê e só sinto. quando mastigo, um gosto de vida. e sangue. sangue é vida. mas cortar o quê? já cortei o açúcar o glúten a gordura saturada milho transgênico cortei o shiatsu a aula de yoga os pulsos e ontem cortei
o detrás da orelha
o detrás da orelha é o melhor lugar para cortar, depois da sola dos pés porque ninguém vê esses lugares. ninguém presta
atenção a esses lugares mais recônditos ou de difícil acesso. no texto, a vírgula gesta
o tempo. então
é lá que eu costumo cortar. o sangue
escorre no reflexo do espelho. sou linda ainda. as asas funcionam. como dobradiças enferrujadas. às vezes a gente se esbarra. eu manco. os cortes nos pés são uma dor invisível. velada no túmulo da adidas. às vezes arde demais.
e me perguntam porque levo esse sorriso torto. na mochila, os dias que não consigo me desfazer. digo que é bruxismo. siso. mas meus dentes doei ao betinho. ele ainda ria. eu, rio. que não estanca. rastro bem fino de vermelho no azulejo da sala. a lã
mina ainda fincada no fofinho do pé. esquerdo, porque o direito já perdi junto com a passagem que compramos para
a tailândia. iremos
um dia? a imagem do pássaro manco pressagia desastres. aéreos são os seus olhos que vasculham meu sexo, mas não veem as cicatrizes nos meus passos. nem
a orelha surda com que ouço seus lamentos. lamento que não sinta
o gosto de sangue fresco no pescoço. houve um dia
que isso poderia importar. hoje
não. apenas penso se o pássaro não precisasse mais. das bengalas. desse bico de pato. ridículo atado às asas. cortei
asasasasasasasasas e me deu azar. aquela gaiola azul presa no pássaro. já não cantava, a. penas os ferros tortos rangiam. eu já disse que o pássaro é o seu voo? uma gaiola também. eu não tenho a mínima ideia
do meu coeficiente mental. provavelmente não estou bem. há zonas de mim asfixiadas. hoje
que o pássaro manca
não há mais gás. no botijão
e eu. fuligem.



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