terça-feira, 20 de dezembro de 2016

pirulito

cicatrizes na pele de uma árvore comprovam
que tudo é líquido & etílico

a água não pode ser estancada, muito menos
o álcool
há veneno morando nas minhas palavras
e eles se movimentam como cupins na corrente sanguínea

quantas palavras é preciso saber para domesticar o medo?

pedra
papel
tesoura

você sabe com quantos pés se afunda uma canoa?

há ainda muito trabalho por debaixo do bloco de notas
será que você vai dar conta de mim?
se não arranjo mais três que deem meia conta cada um
s'alguém precisa sair no lucro
que seja quem paga o aluguel e a hospedagem do blog
eu
gerusa
não chora
pega aqui um pirulito e essa nota laranja para o sorvete
de baunilha
vai chupando porque eu quero te ver realizada, chupa
chupa
realiza
goza
chupa
brilha

porque há sempre muita plateia para o fracasso


.

miando no escuro

eu sei que está tudo escuro
já não há olhos para ver o que se faz insônia
e perdimento

você sabe onde está?
sinta o cheiro e veja

você está perdida na pata de uma pantera
ela tem garras afiadas e um nome selvagem
que se pronuncia num urro

você sabe urrar para além dos punhos?
encoste a orelha no chão e ouça

a pantera embrenhada numa floresta de fome
cerrando os olhos como cerram os gatos e os
míopes

uma pantera cercada por pelos
negros
no de dentro escuro
ébano pingando das presas
olhos amarelos por debaixo das pálpebras
negras
à espreita d'uma noite que não acaba nunca

desista
não se mata uma pantera fechando os olhos


.

ciborgue

acordei com um eu-lírico pendurado na linha
de fuga da minha língua
ele diz coisas do futuro

e me obriga a escrever os poemas que só daqui
a três meses
se concretizarão

então eu cuspo na tua cara
quebro a garrafa do teu melhor uísque
digo aquela verdade guardada para o fim
do mundo
risco um fósforo sobre teus inéditos
falo mal da tua mãe e do móvel horroroso
que você comprou para a sala
de estar
dos livros em russo que não posso ler
do teu relógio suiço estacionado no inverno
digo que não importa a tinta com que se pinte porque teus cabelos estão brancos e não tem como fugir porque há tufos deles espalhados pela casa pela cama no ralo do banheiro e que há
baratas
famintas prescurtando segredos

daqui a três meses terão se passado setecentas e oitenta horas e algumas luas
a maré terá subido e descido
então digo que quero te deixar agora
e acabo com toda possibilidade de
volta

esse gosto salgado de mar na língua

e depois a gente fode
como é de praxe aos peixes
acontecer


.

abra a boca e diga a

deixei a minha voz
naquele poema que escrevi sobre o lençol da sua cama

você sonhou com sereias e mijou na palavra
amor
agora essa gagueira de amoras impossíveis
esse gargarejo de romãs romanas
esse amarelado triste de peças em liquidação
minha voz
dissolvida em sabão em pó e alvejante
na rave das máquinas
de lavar idiossincrasias

como é que se diz eu-te-amo sem amor?
como é que se diz eu-te-odeio sem amor?
como é que se diz leva-uma-blusa sem amor?
como é que se diz passa-no-banco-pra-pagar-as contas sem
amor?

rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
: a máquina de moer palavras tritura meus pensamentos
já não posso escrever poesia
só ouço os tambores tocados pelos anjos da memória
filhos-da-puta que só me lembram porque não posso
rrrrrrrrrrrrrrr !

sua cama nua e eu enrolada
em cachecóis feito de buracos vazios

antes de perder a voz minha mãe dizia: não se pode confiar em ninguém
cuja cama está constantemente desalinhada



.

eu sou

mãos sobre minha cabeça
e tuas unhas de picotar papel: eu sou
esse poema simples de quatro linhas
que termina aqui

o resto é mentira
e mais feliz



.

regras

as regras do mundo me aprisionam
e tingem de vermelho a louça da privada
o medo 
habita as pernas que se movem alucinadas
nas avenidas do trabalho
mas vivem especialmente no meu sexo
vagabundo
é lá que o medo toma chá com bolachas
lê jornais repetidos e notícias atemporais
ri da minha cara de gozo e granola
enquanto fogo fodo de olhos fechados 28 dias seguidos e
finjo 
que você não está lá
que está tudo sob controle, só eu
e o meu sexo
transgredindo com violência
o mundo
das regras


.

iridiscência

o medo cuspiu na minha cara
eu pensei que era você, com
tua saliva e dna's passageiros

mas não
era o ecnóide de mil patas
o anelídio sedento de merda
a hidra gigante
escondida na inflamação da minha garganta

o medo cuspiu na minha boca e me desmetriquei
trimiliquei
terceiro olho em explosão iridiscente
arco-íris líquido na rótula esquerda
meu umbigo direito, um depósito de fobias
e feromônios

eu sabia antes mesmo de saber: não se luta
com medo se luta com o medo
mas a gente sempre perde, ou
se perde

não há lugar mais inóspito do que nos vãos
do meu pólipo cerebral: chuva elétrica devastando a intuição

meus neurônios são células nervosas e tamborilam os pés
por debaixo da mesa

e eu perdi a fome numa viagem que fiz a orion e nunca mais
voltei

não há para onde fugir dentro de mim

o medo tem a cara do escuro e de noite,
das luzes acesas


.

o caos

lambendo a tua delícia


.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

antes de dormir

a imagem de um pássaro manco me aflige. era
como nos movíamos pela manhã. depois das bolachas e do café com duas colheres rasas de sal. do himalaia a foto na parede nos sorria. pássaros saudáveis passam o verão na califórnia. botamos ovos
na frigideira, mas o fogo não acendeu. e o amarelo ficou boiando na clara espessa. o gás só finda quando precisamos de verdade. dele. o pássaro manco
batendo o bico contra a vidraça. vidros espalhados no terraço. aquele copo de requeijão herança de família. tua mãe ou
a minha? e eu senti um pouco daquela vontade de me cortar. transparências brilham contra o sol. aquela vontade que guardo aqui:
escondida entre o pré e o molar. ninguém vê e só sinto. quando mastigo, um gosto de vida. e sangue. sangue é vida. mas cortar o quê? já cortei o açúcar o glúten a gordura saturada milho transgênico cortei o shiatsu a aula de yoga os pulsos e ontem cortei
o detrás da orelha
o detrás da orelha é o melhor lugar para cortar, depois da sola dos pés porque ninguém vê esses lugares. ninguém presta
atenção a esses lugares mais recônditos ou de difícil acesso. no texto, a vírgula gesta
o tempo. então
é lá que eu costumo cortar. o sangue
escorre no reflexo do espelho. sou linda ainda. as asas funcionam. como dobradiças enferrujadas. às vezes a gente se esbarra. eu manco. os cortes nos pés são uma dor invisível. velada no túmulo da adidas. às vezes arde demais.
e me perguntam porque levo esse sorriso torto. na mochila, os dias que não consigo me desfazer. digo que é bruxismo. siso. mas meus dentes doei ao betinho. ele ainda ria. eu, rio. que não estanca. rastro bem fino de vermelho no azulejo da sala. a lã
mina ainda fincada no fofinho do pé. esquerdo, porque o direito já perdi junto com a passagem que compramos para
a tailândia. iremos
um dia? a imagem do pássaro manco pressagia desastres. aéreos são os seus olhos que vasculham meu sexo, mas não veem as cicatrizes nos meus passos. nem
a orelha surda com que ouço seus lamentos. lamento que não sinta
o gosto de sangue fresco no pescoço. houve um dia
que isso poderia importar. hoje
não. apenas penso se o pássaro não precisasse mais. das bengalas. desse bico de pato. ridículo atado às asas. cortei
asasasasasasasasas e me deu azar. aquela gaiola azul presa no pássaro. já não cantava, a. penas os ferros tortos rangiam. eu já disse que o pássaro é o seu voo? uma gaiola também. eu não tenho a mínima ideia
do meu coeficiente mental. provavelmente não estou bem. há zonas de mim asfixiadas. hoje
que o pássaro manca
não há mais gás. no botijão
e eu. fuligem.



bicarbonato de sódio

2 NaHCO3 + H2SO4 → Na2SO4 + 2 H2CO3
H2CO3 → H2O + CO2(g)


.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

endoscopia

as palavras se movem no caos
dos sons guturais
com que me arrisco à comun-
icação

abóbora a abóboda da boca
gargarejo a minha gagueira
poética
refluxo
refluxo
reflexo

a brutalidade do amor soca
o estômago
e eu penso que é úlcera

uma palavra nasce agora
e não pode ser dita
porque não houve batismo
nem circuncisão feminina

tudo é prazer e dor
reflexo
reflexo
refluxo

endoscopia significa olhar
para dentro
quando se espera do lado
de fora da catraca
o trem triturando a torta
a bílis beliscando o cisto
o intestino fazendo coisas
que nem sei

é assim que o amor me vem

: um prato de vidro moído
cacos temperados com sal
cal, soda, sílica e pimenta

do reino



.

inesquecível

e se não encosto minha testa
à tua
e descanso
os pensamentos, uma cicatriz
em teu corpo inspira
meus dedos à poesia:
procura pelos lugares
mais improváveis da página
em branco:
uma fenda
um fundo
uma pinta
pinto os pingos: dois rentes
ao pescoço
marrons e dourados de sol
e sal ainda entre os fios e
a lembrança
de uma tarde que ardeu
mais do que devia, se via
que seria para sempre

é assim que o amor se vinga
inesquecível
mesmo quando acaba

imagem

uma pedra
pesando
no caos
do meu peito

rego-a todas as noites

a pedra
pesada
florindo


.

café da manhã

histórias que escorrem dos olhos
e pingam
no copo de café com leite, antes
frio


.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

la calle

suportar a escritura
seu peso
o gosto amargo do mate
o vento frio de la plata

sobreviver
ao silêncio

alojado entre palavras banais
aos livros
esquecidos na memória

descimbrar o amor

suco gástrico
corroendo o estômago

e continuar

porque a beleza de uma árvore
se parece à beleza
de outra árvore

e elas caminham
afastadas
pelas ruas de paralelepípedos


.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016