quarta-feira, 5 de outubro de 2016

tempo de sussurros

I
sozinha
espalho minha voz sobre a areia

construo uma ampulheta: trans-
parências a abrigar
o tempo suspenso
                                 do sussurro


II
caminho
todos os bolsos foram rasgados

nada me pertence
nada
para chamar meu

nem o poema
que se perde
da memória obsoleta das coisas

um assobio 
dissipa as estrelas
no deserto noturno dos meus dias


III
chovo
com a chuva que já começa a cair

uma cama flutua
e meus olhos dançantes no delírio
do horizonte

pista de gelo quente

miopias e mirações

nossos pés entrelaçados
no estranho caminho
que nem caminhávamos


IV
abra tua boca
e eu me gaguejo nela


V
sou ainda o nome despertencido
na tua língua adormecida

o contorno eletrizado da palavra
jambu & cachaça
quando ainda éramos
nós


VI
engulo o desejo de te pensar
fodendo com força
a minha história

engulo o desejo
pronunciando teu nome

minha vagina saliva


VII
é no meu corpo
que você hesita

na ponta da língua balança
um gemido
rabiscado ao meio

tínhamos um acordo e quando acordei
você já não estava lá


VIII
na assinatura mora o eco
de um corpo
ilegível
que escorre

misturando-me à areia


.

Um comentário:

  1. mulher, se você nao parar de escrever não vou dormir

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