segunda-feira, 3 de outubro de 2016

folheio teus cabelos nessa manha de domingo

com força
a última página se abisma na primeira

rasuras do desejo
o livro são folhas invernosas e brancas
sujas de palavras

até quando essa história será a minha?
de bruços não vejo
teu rosto traduzido em fôlego e sopro

no outono as folhas se perdem pêlos
descaminhos
mas estamos em abril e minhas pernas
desabrocham

eu quero que todos os livros se fodam
e você mais
do que todos

então mordo tua mudez e arranco voz
desses silêncios
até sangrar a carne dos teus não-ditos

os domingos sentem a urgência da vida
que expia
por entre as estantes
derramadas de café

os domingos pedem riso e cavalgadura

até quando a poesia assim metida atrás
do que já foi limite?

é um pouco grave o que sinto por você
então disfarço na rima imprecisa
e peço mais força

abismo-me na dor:
raridade do prazer

me amará ainda na semana santa?
no corpus christi?

será esse amor mais amor e mais
real do que a ficção?

há uma frase de você que teima
meu pensamento
e tua mudez esbanja reticências

é um livro de se ler chorando

fecho os olhos: não importa
ouço o trem

amanhã é outro dia
[e arde]
mas só até a noite
voltar


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