domingo, 2 de outubro de 2016

folheio teus cabelos nessa manha de sábado

todo livro é um quarto
porisso a intimidade do um

convite

dois é um
na matemática aproximada
da poesia

então m'ajeito com o livro
pousado no colo
esse jeito teu de se abrir
impudicamente pra mim

sonolentos são os pássaros
que não cantam à janela
quando teu sol desarma
a noite

tuas palavras me invadem
pelo ouvido
eu as aspiro

tua voz na minha língua é ainda tua ou minha
essa voz na tua língua?

me lambe a dobra sugando dela o excesso
de brancos
e rasga todas as páginas em que não se lê
'me fode'
folha por folha: uma a uma desde a raiz
dos teus cabelos
ilegíveis

cuidado: todo livro guarda um abismo numa das páginas

convém não demorar muito neste buraco porque há sítios
ainda não percorridos: à página 99 sou menino e atendo
pelo nome de
puta
e três traços fundos te cortam a testa: isso não vai acabar
nunca

meu nome é ainda antes das 6 e as fodas de sábado se esticam muito muito longamente
até o anoitecer

eu ardo

.





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