segunda-feira, 3 de outubro de 2016

do amor

I

caranguejo-violinista: teu braço longo apertando meu pescoço

por que não enfia mais fundo tua mão na minha vida
e toca essas pedras adormecidas nos bolsos
do meu paletó?


II

pois quando te sonhei
já estavas ancorado na desembocadura de um rio

e eu vinha de longe
trazendo a poeira nos cabelos e um excesso
de mar
ainda pingando dos olhos


II

e se pensei, não poderia supor que teus atos anulassem
minha voz armada num bote certeiro

são pedras, eu digo

e ele as tira - uma a uma - tão bem disfarçadas
no verloque da boca
de sino
das minhas calças largas


III

são pedras, são pedras, repito
e seus dedos de tocar feridas arrancam-me o colar
apertado no bolso da camisa

girando enlouquecidas na aba do meu chapéu
pedras-meninas extirpadas
antes mesmo
do pesar


IV

pedras, eu quase grito
e enfia sem compaixão os dedos dentro
dos meus olhos: dois diamantes azuis

que não valem nada


V

por que carrega tanto peso?

digo-lhe que não sei e não me pergunta mais

nada

me desfaz laborioso os pedregulhos
acomodados
no debaixo das unhas


VI


todos os bolsos e covas vazios
de mim as pedras me espiam nas margens do rio


VII

ele parece feliz: desenterrou a terra
dos meus ossos

revolveu o vulcão
da língua

é um bom homem


VIII

é um bom homem
e tem amor


IX

sinta a insustentável leveza
de ser, ele diz
e eu boio
suspensa

pedra alguma depositada na conta d'água corrente

não afundo, flutua apenas
minha cabeça num travesseiro de plumas


X

respiro
só no seu nome mergulho
e volto

na rasura de um beijo, não
me afogo


XI

na desembocadura de um rio, longo abraço de caranguejo-violinista
me livrou do peso
da vida

tirou-me todas as pedras

e também as profundezas

corais & anêmonas

águas-vivas perigosíssimas

e um cavalo-marinho

distraído

de incerto destino


.

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