sexta-feira, 28 de outubro de 2016

domingo, 16 de outubro de 2016

poesia oral

co'a mão atada escrevo
<o poema>

enquanto você me fode
<o verso>

ainda melado de cuspe
<o seu cuspe>

ainda melado do verso


.

sopro

ao invés do grito
: um sopro

foi assim que vim ao mundo
e sigo
embaraçando cabelos sempre
que me aproximo
ou tropeço
em mim mesma


.

sábado, 15 de outubro de 2016

assentamento

com camomila & calêndula
preparo um banho-
de-assento
não sento, de cócoras ainda
rego
teu nome
assentado nas partes

íntimas, as conexões que trans-
ladram do corpo
à mente

ascendo

<13 horas de avião para pousar
no teu assentamento>

esfregaço de pimenta
só do pescoço
pra baixo: e o poema
arrepia todo

<eu ardo>

melado de dendê
iminente
no entre pernas

<melhor mesmo é jejuar>

acendo

uma vela na língua
e me escuro toda

versos enrolados
nas folhas

<de chicória>

a pele picando:
abelha-rosa, moscatel
& mel

e o poema se faz
ebó eu mesma gegê
jejurada axé
deitado no tempo
filha de santo
com dentes


.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

a mar

se te confundo com o mar
é porque nada
sei dos meus mistérios

talvez menos por causa dos olhos
e mais pelas mãos
que vãos
e vem sobre meu próprio corpo
plástico
de ideias

rara, sou és
-sa que m'olha nublada
encrespada de ondas
pelos em riste
e unhas encravadas
na poesia

no dorso do teu pescoço
que já foi e mesmo assim
permanece

permane'sença

se me confundo com o mar
é porque nado
no entretempo
das coisas que se inscrevem
sobre a rocha dura da palavra
túmulo aberto
em que moro
                          me demoro
rememoro

em memória
do girassol tatuado nas costas
pétalas derramadas
sobre a cama
num incêndio que nunca mais
me apagou

.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

oronlá

conta-se que oronlá, a rainha dos sons, era a mais linda de todas as orixás
e enlouquecia todos aqueles que a ouvissem
no canto dos pássaros, no esfregaço das folhas ou no silêncio das noites
quentes de verão

então obá, despeitada que era, uniu-se à iansã e ambas sopraram todos os ventos
reunindo 8816 asas de borboletas e, enlouquecidas de ciúmes, tramaram um lindo
vestido translúcido para presentear oronlá
com transparências

oronlá que era cega
e surda às intenções
vestiu-se com ele que se colou à sua pele para todo o sempre

desde então todos os orixás só podem ouvi-la
mas não conseguem ver suas belas formas
furtacores

nas festas do candomblé os orixás ouvem oronlá cantando
recebem seu axé
e sonham
nos braços de iansã
e obá


.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

tempo de sussurros

I
sozinha
espalho minha voz sobre a areia

construo uma ampulheta: trans-
parências a abrigar
o tempo suspenso
                                 do sussurro


II
caminho
todos os bolsos foram rasgados

nada me pertence
nada
para chamar meu

nem o poema
que se perde
da memória obsoleta das coisas

um assobio 
dissipa as estrelas
no deserto noturno dos meus dias


III
chovo
com a chuva que já começa a cair

uma cama flutua
e meus olhos dançantes no delírio
do horizonte

pista de gelo quente

miopias e mirações

nossos pés entrelaçados
no estranho caminho
que nem caminhávamos


IV
abra tua boca
e eu me gaguejo nela


V
sou ainda o nome despertencido
na tua língua adormecida

o contorno eletrizado da palavra
jambu & cachaça
quando ainda éramos
nós


VI
engulo o desejo de te pensar
fodendo com força
a minha história

engulo o desejo
pronunciando teu nome

minha vagina saliva


VII
é no meu corpo
que você hesita

na ponta da língua balança
um gemido
rabiscado ao meio

tínhamos um acordo e quando acordei
você já não estava lá


VIII
na assinatura mora o eco
de um corpo
ilegível
que escorre

misturando-me à areia


.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

respiração

eu & você
com ela no meio das nossas frases
buscando colo
na tua língua
e meus dentes de arrancar sangue
vampirizando
reticências

se eu pudesse apontaria esse lápis
com a faca de serra
que divido o pão
agora em três fatias desiguais

como come mais aquele que mendiga
migalhas?

corro a borracha feito o trator
arando a terra dos meus ouvidos
só o eco inaudível
toques de sedução
disfarces de lamento

e eu lamento que as coisas
acabaram assim: você e ela
comigo no meio
dando colo pra tua língua

na cova do dente ainda guardo
aquela faca de serra
que s'enterra no meio daquele
pulmão


.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

do amor

I

caranguejo-violinista: teu braço longo apertando meu pescoço

por que não enfia mais fundo tua mão na minha vida
e toca essas pedras adormecidas nos bolsos
do meu paletó?


II

pois quando te sonhei
já estavas ancorado na desembocadura de um rio

e eu vinha de longe
trazendo a poeira nos cabelos e um excesso
de mar
ainda pingando dos olhos


II

e se pensei, não poderia supor que teus atos anulassem
minha voz armada num bote certeiro

são pedras, eu digo

e ele as tira - uma a uma - tão bem disfarçadas
no verloque da boca
de sino
das minhas calças largas


III

são pedras, são pedras, repito
e seus dedos de tocar feridas arrancam-me o colar
apertado no bolso da camisa

girando enlouquecidas na aba do meu chapéu
pedras-meninas extirpadas
antes mesmo
do pesar


IV

pedras, eu quase grito
e enfia sem compaixão os dedos dentro
dos meus olhos: dois diamantes azuis

que não valem nada


V

por que carrega tanto peso?

digo-lhe que não sei e não me pergunta mais

nada

me desfaz laborioso os pedregulhos
acomodados
no debaixo das unhas


VI


todos os bolsos e covas vazios
de mim as pedras me espiam nas margens do rio


VII

ele parece feliz: desenterrou a terra
dos meus ossos

revolveu o vulcão
da língua

é um bom homem


VIII

é um bom homem
e tem amor


IX

sinta a insustentável leveza
de ser, ele diz
e eu boio
suspensa

pedra alguma depositada na conta d'água corrente

não afundo, flutua apenas
minha cabeça num travesseiro de plumas


X

respiro
só no seu nome mergulho
e volto

na rasura de um beijo, não
me afogo


XI

na desembocadura de um rio, longo abraço de caranguejo-violinista
me livrou do peso
da vida

tirou-me todas as pedras

e também as profundezas

corais & anêmonas

águas-vivas perigosíssimas

e um cavalo-marinho

distraído

de incerto destino


.

folheio teus cabelos nessa manha de domingo

com força
a última página se abisma na primeira

rasuras do desejo
o livro são folhas invernosas e brancas
sujas de palavras

até quando essa história será a minha?
de bruços não vejo
teu rosto traduzido em fôlego e sopro

no outono as folhas se perdem pêlos
descaminhos
mas estamos em abril e minhas pernas
desabrocham

eu quero que todos os livros se fodam
e você mais
do que todos

então mordo tua mudez e arranco voz
desses silêncios
até sangrar a carne dos teus não-ditos

os domingos sentem a urgência da vida
que expia
por entre as estantes
derramadas de café

os domingos pedem riso e cavalgadura

até quando a poesia assim metida atrás
do que já foi limite?

é um pouco grave o que sinto por você
então disfarço na rima imprecisa
e peço mais força

abismo-me na dor:
raridade do prazer

me amará ainda na semana santa?
no corpus christi?

será esse amor mais amor e mais
real do que a ficção?

há uma frase de você que teima
meu pensamento
e tua mudez esbanja reticências

é um livro de se ler chorando

fecho os olhos: não importa
ouço o trem

amanhã é outro dia
[e arde]
mas só até a noite
voltar


.

domingo, 2 de outubro de 2016

folheio teus cabelos nessa manha de sábado

todo livro é um quarto
porisso a intimidade do um

convite

dois é um
na matemática aproximada
da poesia

então m'ajeito com o livro
pousado no colo
esse jeito teu de se abrir
impudicamente pra mim

sonolentos são os pássaros
que não cantam à janela
quando teu sol desarma
a noite

tuas palavras me invadem
pelo ouvido
eu as aspiro

tua voz na minha língua é ainda tua ou minha
essa voz na tua língua?

me lambe a dobra sugando dela o excesso
de brancos
e rasga todas as páginas em que não se lê
'me fode'
folha por folha: uma a uma desde a raiz
dos teus cabelos
ilegíveis

cuidado: todo livro guarda um abismo numa das páginas

convém não demorar muito neste buraco porque há sítios
ainda não percorridos: à página 99 sou menino e atendo
pelo nome de
puta
e três traços fundos te cortam a testa: isso não vai acabar
nunca

meu nome é ainda antes das 6 e as fodas de sábado se esticam muito muito longamente
até o anoitecer

eu ardo

.