sexta-feira, 30 de setembro de 2016

folheio teus cabelos nessa manha de sexta-feira

se não houvessem leis
nosso seria o tempo da poesia

então declamaríamos a ordem
dos homens vestidos de saias

mas tudo isso eu li no final
da página 35, um parágrafo longo que termina na 36
esquina dos meus joelhos,
esfolados, com a dos teus calcanhares de pisar preciso
dessa marca de dedos ainda
colados na palidez da página
e nem por isso deixei de ser feminista: a dor é uma
escolha também

então colho algumas aliterações, subindo e descendo
nos hipérbatos necessários

olhando de longe teu corpo
nem parecia tão complexo
mas são tantas as articulações, as camadas finíssimas
que se escondem sob os fios finos e entrelaçados
do papiro e das papilas gustativas que me gusta mucho
estar em você
abrigada
dessas chuvas
obrigada
à tua palavra

o viver absoluto de um livro aberto ao meio:

geruza agora ama, livre o livro se escreve sobre mim
com letras gaguejadas
na minha pele tremida

eu digo não, mas já é sim


.


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