quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A doença da literatura

e se me dizem que ela está em coma, respirando por tubos e que uma veia explodiu no seu cérebro, nada a não ser um impulso de preparar minha mãe para o pior - porque a vida tem muitos piores para nos apresentar - me comove. nem um torcer de lábios, nem uma fisgada no peito, talvez porque os acontecimentos todos tenham tirado de mim esse espanto, essa sensibilidade diante da vida, ou mais ainda, diante da morte. apenas um corpo destinado ao destino de todos os corpos: o fim.
mas se eu lhe digo assim que ela agora está dormindo e que no seu sono reelabora as experiências vividas, os encontros dessa vida, as horas em que já morreu, se lhe digo que ela dorme e se elabora em sonho ponderando com seu corpo se vale a pena continuar aqui ou se o melhor a ser feito é destinar-se, porque se lhe digo isso, creio mesmo que me ouve acolhendo-me no canto dos olhos. então a imagem de uma mulher que dorme e pondera, com toda autonomia de seu ser, se seus olhos se abrirão ou não, se digo isso então eu choro, então meu corpo todo se contrai e é como se todas as facas do mundo estivessem me atravessando e é como se meus ombros e omoplatas se rasgassem e sinto minha pele em flor picada de aço e insetos. porque é sempre só através da literatura, da doença da literatura, que consigo tocar a vida e me espantar da morte. ou tocar a morte e me espantar da... talvez porque o acontecimento que em nada se pareça ao real só possa ser assimilado pelo literário. e então nada posso fazer pela minha mãe, não posso consolá-la porque não há consolo para minhas mãos e esse soluço que convulsiona meu corpo, essas lágrimas que vazam e contaminam de mim esse mim mesmo ereto e duro, então eu amoleço e peço para que ela viva, para que ela escolha viver, que pelo menos tente como tentam os rios que sofreram um derrame de barro, os asfaltos inundados pela explosão de sangue daqueles que não puderam escolher. ela não sabia ler e tentava sílaba por sílaba compreender o que diziam aqueles versos porque a poesia ensina mais dos vazios do que a prosa contínua. tia, esse livro não é pra você e então ela lia um poema por dia e um dia eu a ouvi dizer para minha mãe, essa mulher que já não há quem a console, essa menina... ah meu deus ela dizia essa menina porque eu sempre serei a menina uma menina para ela que sempre será uma mulher, uma grande e tão querida mulher, para mim... naquela manhã eu me escondi para ouvir porque naquela casa eu sempre serei e farei coisas de menina... ela disse para minha mãe essa menina a branca sente muita solidão e eu chorei porque aquilo que ela disse já era literatura, era um eu-ela-terceira pessoa capaz de me alçar ao reino da dor... ninguém me leu como minha tia que não sabia ler... que não sabe ler... encasulo-me na solidão e descubro que você sempre esteve aqui comigo no escuro dessa genealogia de mulheres que podem decidir pela vida ou pela morte de seu corpo... há um livro de contos ainda por ler, há um romance tatuado de versos especialmente para você entender... esse livro é pra você... um capítulo por dia, tia... eu respeito tua escolha, mas por favor... volta

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