sexta-feira, 30 de setembro de 2016

folheio teus cabelos nessa manha de sexta-feira

se não houvessem leis
nosso seria o tempo da poesia

então declamaríamos a ordem
dos homens vestidos de saias

mas tudo isso eu li no final
da página 35, um parágrafo longo que termina na 36
esquina dos meus joelhos,
esfolados, com a dos teus calcanhares de pisar preciso
dessa marca de dedos ainda
colados na palidez da página
e nem por isso deixei de ser feminista: a dor é uma
escolha também

então colho algumas aliterações, subindo e descendo
nos hipérbatos necessários

olhando de longe teu corpo
nem parecia tão complexo
mas são tantas as articulações, as camadas finíssimas
que se escondem sob os fios finos e entrelaçados
do papiro e das papilas gustativas que me gusta mucho
estar em você
abrigada
dessas chuvas
obrigada
à tua palavra

o viver absoluto de um livro aberto ao meio:

geruza agora ama, livre o livro se escreve sobre mim
com letras gaguejadas
na minha pele tremida

eu digo não, mas já é sim


.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

folheio teus cabelos nessa manha de quinta-feira

a semana já quase acabou e
continuo lendo teu corpo de cabeceira

não há pontos finais, apenas
os vazios de páginas brancas
e por escrever

mesmo assim li teu rodapé
de joelhos
enquanto teus dedos folheavam os meus
cabelos

restos de resistência
apodrecendo entre os dentes

uma chama enterrada na vela
me vela ou chama
depois desaparece
com o gosto da tua língua es-
correndo na minha
rumo ao breu desses nós
mesmos

meu nome é agora ainda antes das 6
[e temos tempo]
a senha é um acento lituano no u
depois passa saliva
na ponta dos dedos
e vira as páginas da minha história
sem se preocupar com o contéudo

só a forma
       faz
       literatura

é sempre no depois que se demora
o agora

um beija-flor sugando sementes
de marijuana
e petúnias espetadas nos ombros
camuflam o rugir do despertador
mas despertam
tudo que é carvão esquecido na extremidade da cama

aí você me inflama e outra vez
eu ardo


.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A doença da literatura

e se me dizem que ela está em coma, respirando por tubos e que uma veia explodiu no seu cérebro, nada a não ser um impulso de preparar minha mãe para o pior - porque a vida tem muitos piores para nos apresentar - me comove. nem um torcer de lábios, nem uma fisgada no peito, talvez porque os acontecimentos todos tenham tirado de mim esse espanto, essa sensibilidade diante da vida, ou mais ainda, diante da morte. apenas um corpo destinado ao destino de todos os corpos: o fim.
mas se eu lhe digo assim que ela agora está dormindo e que no seu sono reelabora as experiências vividas, os encontros dessa vida, as horas em que já morreu, se lhe digo que ela dorme e se elabora em sonho ponderando com seu corpo se vale a pena continuar aqui ou se o melhor a ser feito é destinar-se, porque se lhe digo isso, creio mesmo que me ouve acolhendo-me no canto dos olhos. então a imagem de uma mulher que dorme e pondera, com toda autonomia de seu ser, se seus olhos se abrirão ou não, se digo isso então eu choro, então meu corpo todo se contrai e é como se todas as facas do mundo estivessem me atravessando e é como se meus ombros e omoplatas se rasgassem e sinto minha pele em flor picada de aço e insetos. porque é sempre só através da literatura, da doença da literatura, que consigo tocar a vida e me espantar da morte. ou tocar a morte e me espantar da... talvez porque o acontecimento que em nada se pareça ao real só possa ser assimilado pelo literário. e então nada posso fazer pela minha mãe, não posso consolá-la porque não há consolo para minhas mãos e esse soluço que convulsiona meu corpo, essas lágrimas que vazam e contaminam de mim esse mim mesmo ereto e duro, então eu amoleço e peço para que ela viva, para que ela escolha viver, que pelo menos tente como tentam os rios que sofreram um derrame de barro, os asfaltos inundados pela explosão de sangue daqueles que não puderam escolher. ela não sabia ler e tentava sílaba por sílaba compreender o que diziam aqueles versos porque a poesia ensina mais dos vazios do que a prosa contínua. tia, esse livro não é pra você e então ela lia um poema por dia e um dia eu a ouvi dizer para minha mãe, essa mulher que já não há quem a console, essa menina... ah meu deus ela dizia essa menina porque eu sempre serei a menina uma menina para ela que sempre será uma mulher, uma grande e tão querida mulher, para mim... naquela manhã eu me escondi para ouvir porque naquela casa eu sempre serei e farei coisas de menina... ela disse para minha mãe essa menina a branca sente muita solidão e eu chorei porque aquilo que ela disse já era literatura, era um eu-ela-terceira pessoa capaz de me alçar ao reino da dor... ninguém me leu como minha tia que não sabia ler... que não sabe ler... encasulo-me na solidão e descubro que você sempre esteve aqui comigo no escuro dessa genealogia de mulheres que podem decidir pela vida ou pela morte de seu corpo... há um livro de contos ainda por ler, há um romance tatuado de versos especialmente para você entender... esse livro é pra você... um capítulo por dia, tia... eu respeito tua escolha, mas por favor... volta

folheio teus cabelos nessa manha de quarta-feira

um sol:
teu sexo na minha boca
aquecendo palavras mergulhadas num gole
de silêncio

a luz penetra com força o vão entre as duas
bandas da cortina
tua bunda sempre
linda
sobre a minha
linda também

então trago tua fumaça pra minha
e sopro sobre teus cabelos
fio de nylon resistente à pescaria

três gotas de cera quente sobre as costas
é pharmakon suficiente
para um gozo vermelho
e in-can-descente

o segundo sol pulsando
na palma da minha mão
teu nome
escrito com gilete sobre os trilhos da vida

é bom que chova um pouco à tardinha
porque labaredas consomem o agreste
dos lençóis

dois sóis
na órbita da boca

fecho os olhos: não importa
ouço o trem
só em você eu ardo



.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

folheio teus cabelos nessa manhã de terça-feira

desse incêndio só me restaram
os dentes
empenhados no sorriso sonso
de cinzas

eu quero é crescer livro brotar
nuns verdes longos
sumorosos de cama-de-açúcar
meu de engenho
e mais outra vez
fogo

labaredas lambendo o costado
do asfalto

e os meus olhos muito secos
descobrindo
assimetrias

um eito é muito chão pr'essa
queimada
e é o inverno ainda sugando
a gravidade
dos mamilos

os livros sobem perniciosos
pelas estantes
e minhas pernas, fortes, sobem mais ainda

teu céu, meu limite infinito

minhas cinzas todas penhoradas
no esfregaço de dentes lascados

uma caverna é o tamanho exato
pra essa floresta
sem pressa
sempr'essa

então a gente se arrisca no risco
de um riscado: papel pautado
brasa incandescente, rubor vivo
depois ai


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

folheio teus cabelos nessa manha de segunda-feira

folheio teus cabelos pela manhã
e um sonho colado à corda de sete linhas mais
uma orelha
pendurada na língua a palavra
estremeço

meus olhos abertos no escuro

todas as páginas escritas começam a queimar
pelas beiradas
depois o centro
estremece

a cidade e seus chakras encobertos pela luz

um poema escapa
dos teus pêlos
e eu não posso perdê-lo

fodam-se os livros

fodam-se os livros
e todas bibliotecas itinerantes

teu nome é incêndio
e morde


.

sábado, 17 de setembro de 2016

do fim ao príncipio

não
paro
corro
é de iku que eu corro
pra frente eu corro
é com exu que eu corro
do lado eu corro
é pra nanã que eu corro
pra trás eu corro
corro
não
paro

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

oferenda

e se me dizes que é bento, movimento
se me dizes boiadeiro,
flecha ao vento, marinheiro, seda, saia
rodada mulher
se me dizes, ouço tua vinda na minha
gira o terreiro tatuado na sola dos pés
soleira exótica
guerreira, tu a que te moves no canto
dos olhos, íris

se me dizes na mudez dos versossímeis
então é a ti que te entrego
não só o mundo, mas a casa
não só a casa, mas o quarto
não só o quarto, mas a cama
não só a cama, mas o travesseiro não
só o travesseiro mais o sonho
não só o sonho, a pineal

e se é para haver entrega então veja
minha oferenda: o lúmen
e três cigarras aterradas na garganta
minha oferenda: o hímen
da língua renovado a cada investida
pó&cia ogiva transcriada'e'traduzida
minha oferenda: o dendê
da palavra formiga laborada vagina
céu de minha boca, salina
e saliva

em segura na ginga geruza me gira
no t'eu mover-me o equilíbrio des-
equilibra
re-re-reorganiza balança ajustada não
dança
no escuro, descansa
do lúmen ao hímen
do quimen ao kimen
sumaúma: sim&sina

m'ensina