quarta-feira, 29 de junho de 2016

segunda-feira, 27 de junho de 2016

carta a Murilo

e eu que era a mulher do fim
do mundo
metade pássaro
metade gaiola
me vejo e canto
em demora
nua de asas e
portinhola
tatuada de inícios
mulher
de agora

.

paixão

porque o olho tentando perfurar a imagem
porque a voz tentando perfurar o limite
porque a escuta tentando perfurar o sentido
porque a intuição tentando a lógica
porque o vazio tentando 
o abismo
porque o corpo nunca
nunca
cede

então o punho
e o nada


.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

descobertas

tento te abraçar e
me faltam braços
para abarcar todo
esse escândalo que é o amor na sua manifestação mais humana


.

escuro

na plena luz de um dia
você
me aconteceu



.

tanto

sorvo o amarelo dos girassóis que te florescem
no debaixo dos braços

meu deus,
como é longo o caminho entre tua boca e tua
boca

então refaço com a língua os mesmos passos
que unem o ponto
de partida
ao destino
da minha chegada

circular e longa é a viagem que te quero tanto




mas tenho tempo


.

mallarmé

carrego no bolso um maço
de poemas

nos dias frios
- como hoje -
em que o tempo s'estende
infinito entre 
nós
dichavamos um mallarmé
e transamos nosso estado 
de desatino


.

inverno 4

atrás da colina
um lobo
eriça o pelo

e uiva
o nome secreto
da lua


.

impressões

sento-me à janela
olho o frio

escrevo um poema
dois três e mais outro
e outro
ainda

sento-me no frio
observo
a janela

meia dúzia de linhas
versos livres
aladas
há palavras
que não se submetem
à tinta

- onde estás agora? -

escrevo frio
frio
frio

mas é o mundo que estremece


.

marejada

me fincas o prego
na língua
e desloca
minha sede
para outros
sítios
mais afastados
de mim

salivas
água da bica
linda
linda àgua
cristalina

me fincas no prego
da língua
marejo

barca infinita

o corpo

me acena
m'encena
nos bastidores da métrica
marulha

poesia


.

do verbo tanto

me tomas um tanto
de braços, d'abraços
de pernas e
cotovelos
joelhos
cabelos
suores
e sais

me tomas meu tanto
de ais, de cais
de porto
de corpo
de água da bica
m'excita

e é como morar
demorar
d'amorar
no breve instante d'um relâmpago:

depois escuros


.

inverno 3

há que se pensar na força
das plantas
que enfrentam o inverno
e
germinam


.

inverno 2

e porque me regastes
mesmo no inverno
girassóis me abrasam


.

celebração

I
passos trôpegos
pés de pato
insensato megulho
nas coisas da terra 

II
as coisas da terra
cobertas 
por água

II
cacos tilintam 
àvidas anêmonas 
enroscando asas

III
cinzas de arraia
largam manchas no mar

IV
amargo bruto
adoçando o grande corpo 
de sal

V
tudo é vida
quando não se morre
mais

V
entre a pele e a pele
só água

VI
águias-marinhas
s'aprendendo a nadar 

VII
o tempo
comprimido no fundo 
do'mar

VII
à luz de velas
tomamos alguns cilindros 
de oxigênio
e emergimos 
bêbados
de nós mesmos


.

revelação

eu não acreditava em poemas felizes
até eu ri-
mar com você


.

inverno

se inverno
por que girassois florescem em minha cama?


.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

tua

de sangue
é feito esse nosso amor
útero, bocas e cotovelo

onde
começa o teu vermelho
                   e termina

meu?


.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

por questão de segurança

quem não usa capacete
morre
co'a cabeça estatelada
no asfalto

quem usa
morre
com a cabeça intacta
dentro do capacete


.

terça-feira, 7 de junho de 2016

da flor que fugiu do ninho

plantei-me tão longe e mesmo assim
vieste
colher-me

para quê?

se queres tua casa adornada
há papéis de parede
há paredes

toma nas mãos essas tintas
deixa-me
                     só
com meus ventos


.

capa dura

debruçados
um
         sobre
outro
           eles
s'equilibram
como
livros
esquecidos na poeira
dos dias


.

suspiro

e é dos teus dentes
que me lembro
mais


.