sexta-feira, 29 de abril de 2016

clãdestinos

um canto
escondido no canto
da garganta
gargarejos
de limão & sal e as
penas
esperneiam

o pudor do verso per-
verso de ser
sua própria voz

canteiro
flores de algodão
um outono de dedos
sobre o dorso
da ideia
o verso
demoroso de esperas
cigarras
menstruadas sob a terra
teu nome
um uivo
enrolado à canela
limão
& sal
destemperança
na ideia:

cigarras machos
copulam
com outros machos e
com cadáveres de fêmeas
enquanto cigarras
ciganas
dançam
com deuses

no vão das coisas

um bicho-barbeiro
me lembra que o tempo
é agora


.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

devir-besta

cortaram o chifre do meu deus
dos unicórnios
mudaram a pronúncia do meu nome nômade: ninguém
me persegue
só a vida
graduada de ss
salve-se quem souber
porque é tudo lamento nos muros vermelhos do habbib's

levamos eras pra ficar em pé
e alguns anos pra nos botarem sentados
sedentários
e sedentos de vigilantes
do peso

quebraram meu golem
os dentes do meu urso
lenharam as raízes da yggdrasil pra fabricar
o clã das cadeiras quadrúpedes
desfiguraram meu totem
riscaram os lutos tatuados em minha garganta
um poema
do eliot
embrulhado em plástico bolha

içaram meus olhos com o guindaste de produzir
fiéis
somos todos fodidos
sem foder
titilando a tela touch
escavando microgozos holográficos

chove sobre seixos podres de antigas fogueiras
na língua a lama se mistura ao meio-
amargo do café descafei-

nada

se oca e empalhada
quem pensa essa revolução em minhas mãos
paralisadas?

segunda-feira, 11 de abril de 2016

[dentes]

desesperado orgasmo
corrente 
de versos escandalosos
que se furtam ao manso abismo da poesia

e espreitam
e espreitam

frestas 

ruínas de estátuas fuziladas
anjo vermelho 
possuído por crepúsculos e batom

restos escatológicos de um corpo 
prostituído em lasciva 
aurora
de unhas que riscam fósforos

espreitam 
e espreitam

onde no teu escuro - furioso e árido - um buracoso de dentes a ser alimentado com fome
e desejo?


.

[alegórica]

intocada 
minha voz se faz 
barro adâmico nas mãos do poeta
ébrio 
são os carnavais 
que começam nos dedos e invadem 
marrons e púrpura
os vãos 
entre a carne e a unha

nesse ali que é aqui
sou corpo de argila moldado à fantasia
eva ou ave
golem informe
muda meretriz

[e quase nem se ouve esses estridentes de dor 
nas nossas 
articulações]

asas de dragão do paraíso de fogo
ou serpente d'água
atadura viva sobre os cortes dos teus versos

tomame então
abstêmia e alegórica
nas palmas da mão e me decide
poeta

sopro alcoolizado com potência 
de sim

.

domingo, 10 de abril de 2016

[minha aldeia]

solitária
é a aldeia que cabe na minha cama

antes um primoroso de rios sempre
indo e vindo
regando margens, amainando fronteiras
vindo e indo

foram-se os rios para outras nascentes

hoje só leito
coberto de seixos e gravetos, sem
a gravidade 
das avencas
o vermelho
dos gerâneos em botão

havia céu
mas quem haveria de ver o céu
quando a terra tão úmida 
e tátil?

hoje azuis profundos
serenam a casa de uma só aldeã
aldeã de conceitos

shekinah

solitária
guardiã do fogo 
fabricando suas próprias chuvas


.


[bom dia]

eram minhas ou tuas essas mãos insones
buscando lugares 
antes tão mudos?

quem tem medo da pomba-gira?

batom redenção escarlate

encaro
esse poema que me olha

com sangue 
                       nos olhos

.

botânica

gerânios azuis florescem
nas axilas

todo meu caule
cintila


.

fim de tarde

um gavião gavioso
atravessa a fumaça do meu cigarro
e por um triz eu
                     nem percebo


.

[laços]

não importa a demora do tempo sobre penas azulescidas,
sempre se é criança à primeira vez

o primeiro uivo
a primeira lua
a primeira cheia tragando casas, caminhos e aldeias

ao primeiro não

ao primeiro dano
ao primeiro dono

ao primeiro beijo

todos os escuros são primeiros antes da primeira manhã
onde um gavião-
azul se esconde


.

[miséria]

se me chamasses cabra
sombria
ou emplumada

iluminura 
e sacrifício

se me chamasses Miséria
e glória

mojubá ou pomba-
gira


se me chamasses

                             eu iria

[nudez]

e haverá ainda nudez encoberta por palavras?
ou será apenas um absoluto 
como deus e a liberdade das pedras que não 
conhecem conceitos?

o que haveria de ver sobre minhas mãos se a-
pagasse o cruzamento das linhas q'um dia colidiram co'as tuas?
ou se extraísse dos meus próprios pés as esquinas
de todo trajeto
toda memória
toda história 
que sinalizam o futuro
do pretérito?

e se, das coxas e pulsos, desenrolasse, um a um, os versos  de
seda vermelha
sobre longa cicatriz?

e, se tudo ao corpo me arrancasse, não haveria ainda música?
a música
soando, agora, à meia-luz ou
o perfume
ensurdecedor?

despudorado o poema se exibe 
demoroso 
salto alto sobre a mesa
perdido entre os lençóis
castigando verdades absolutas

disciplinada no poema a nudez 
é o sonho 
da poesia


.

[súcubo]

nas pontas dos dedos
pequenos tambores 

relincham


.

[jamais]

conheci homem
que soubesse colher tempestades


.

[gesta]

uma pedra
não a pedra, mas qualquer pedra
uma pedra qualquer
fecundada

um pedra fecundada por um sapo
míope
e velho

(porque bem sabemos que sapos nunca foram ou
virão a ser jovens)

fodida
a pedra carrega o óvulo inglório
do seu escuro mineral
de uma foda sem rima ou lírica
da batalha entre lisura e rugas

(o que é da tradição dos sapos:)

longo e pegajoso abraço de língua
o peso pesado sobre a pedra bruta
e rara

(porque raras são todas as pedras
atemporais
que suportam o coaxar invasor
em sua zona de pelúcida loucura)

anfíbia uma pedra com óvulo dentro
não sangra
infla inexistentes pulmões uterinos
respira
imóvel

matter impassível de qualquer coisa
extranha
buscando no céu alguma lembrança
de estrela


.

[costa]

àquele que vem mundo
mudo narrador de asas
e anéis encadeados
aos pulsos ou canelas

que vem ainda muitos
ou nenhum
eu sedento, indistinto
em cacos
de fósforo,
carvão e bromo,
ferro e cário,
fogo
fôlego e fé

que vem à noite dentro
do dia, enxofre molhado
escarpado, escalpelado
náufragado
na terra fria

como quer que venha
àquele que vem:
o colmo
o quarto
a cama
a mesa
o corpo
acalma
e o breu
do meu vinho


.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

[noturna]

noturnos os peixes
no lago enigmático de dentro

absortos e nodosos os peixes-
espada
corte oceânico numa ideia de
ventre

suspensos
em negra contemplação:

nem lua
nem estrelas

cavalos-marinhos relincham
em outro poema

uma flor de lótus
(ainda em botão)
aguarda o desabrochar narcótico
de duas pétalas
amnésicas


.

domingo, 3 de abril de 2016

romântica

escrevi com sal grosso sete poemas n'água e você
nada!
de se afogar

só post-it verde-limão
colado nas margens
cagando regras prêmios e o diabo de quatro pr'essa
mentira!
que a tua vaidade quer

estilete cego não pode cortar inundação e o meu vermelho é mar é infinito é urbano

desvio - >

já troquei nome sobretudo cachecol
segredinhos sujos de liquidificador
joguei fora os desenhos desanimados das paredes
joguei paredes
nasci hoje há 15 minutos da estação lygia clark
esquina com a nossa-senhora-de-todos
-os-nomes

agora sou pisciana
co'ascendência escorpião e lua teimosa na casa
cheia
e um sol queimando a colmeia de pelos e azuis
raros entre as pernas

meus ovários cabem na pineal e são imensos

na garganta gesto um bebê que fala a língua
dos anjos e os anjos falam / a /
todas as línguas

me ciganei na luz
e posso ler teu futuro no encarte de um maço
de cigarros derby
debby é o meu nome e, por favor, entra na fila
do autógrafo

que risco uns versos lilases nessa tua cara
de espanto te espanco
mas sem poesia porque minha poesia é grande demais pra caber no ateu abraço