segunda-feira, 14 de março de 2016

1/4 canto

ácida eu era sua
viagem
cosmogônica
um zepelin
entalado na garganta
e você
sonhando irrigação eólica
no meu mangue
seco

caranguejos espadachins
deixam seus túmulos
em andada
pelas minhas coxas
e se espantam dos joelhos esfolados
'pede perdão e reza
o credo' ele dizia depois de gozar
da minha cara
e até hoje tenho medo de gente
destemida

mas não era o caso de me casar
com você
apenas desenterrarmos juntos
a carcaça de um tubarão-rei
xamã dos mares
naufragado nas dunas escorregadias
de suas ancas e omoplata
e eu queria dizer que
sou a pomba-gira do absolut
mas é só o piva assombrando
minhas próprias alucinações

a língua amortecida
o maracatu obstruindo a cantata
sarabanda de natal

e o que importa agora é que também eu
[aqui]
com o catimbó todo
pulsando no peito
exus, ebós & tambores
silenciosos
você
com o lampião à frente
acendendo os quatro cantos
onde chegamos juntos
e solitários

vindos de lugar nenhum


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