sábado, 30 de janeiro de 2016

pedra ainda

I
uma pedra
perdida
de suas asas

uma pedra
apartada
pra sempre
do princípio

do principal:

privada até do impulso
de voo


II
uma pedra
paralisada
no nunca 
mais
alada

petrificada toda ela
uma pedra
sem pedra
concreta
íntegra
integrada
desprovida a pedra
do seu im-possível
não ser


III
uma pedra
só pedra
mais nada


IV
profundo
é o sono
das pedras que nem
dormem


V
peito de pedra
empedrado
ainda peito
fóssil de água-
viva
alerta

vidrada


VI
pedra empertigada
remoendo asas
alheias



.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

de onde vem a voz que não se houve

onde as pedras guardam
suas asas?

como saber as pedras no movimento lento de seu ir
e vir?

pergunto mais: quem testemunhará pela testemunha
senão a pedra?

o apelo das pedras despidas do algodão
malha fina da linguagem
à vista de outras, também nuas e mudas
de gestos

tudo é superfície porosa nas pedras que suam
sob o sol
pedras-anfíbias, polidas pelo tempo recusam-se
ao grito

como um poema que fracassou
ao permitir-se ser / esse mesmo
em seu lugar


.



do imperdoável

de quem são os rostos que violentam meu sono?

a fênix não pode parar
de nascer
essa é a sua sentença

e rara é a palavra
proferida
no quase-silêncio
das pedras

traços
lembranças do que jamais
                     [se] passou

a menina traída
no balanço distante
olha-me acusadora:

'por que revelou
meus segredos?'

(ouço-a no eco
das coisas mudas)

ela me aponta o indicador
no lugar da unha, uma ferida
sangra

(de que liberdade falamos se mesmo o meu olhar
contido
na circularidade do olho?)

digo não sei
e que os segredos não são ainda
o segredo

mas a tinta da caneta é azul
e já escorre entre os dedos

(uma cicatriz na íris comprometerá para sempre
sua identificação)

então a memória
mora atrás
ou à frente
do pensamento?

digo não sei
e peço perdão



quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

oração à nau que te tem dentro

[para nuno g.]

oro
à estranha nau que te trouxe
à terra

havia pudor neste corpo
pálido de primeira 
pessoa no singular
apátrida 
pudento
antes da chuva jorrando
vômitos
e mitos

tua boca 
na minha, abusada 
não contém os versos que m'escapam dos lábios leporinos
tua boca
abusada, na minha

oro
ao cão-morcego que pensaram morto
triturado nos dedos gástricos do sol

corsário negro 
vestindo sombras na luz que invade 
a pequena fresta: vulva azul 
das minhas cortinas insones



.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

o rio me olha

o rio me olha
perdido

não sabe para onde
segue

não conhece mapas
hidrográficos
e cartilhas escolares

o rio me olha
assustado 
co'a força q'o arrasta

interroga meu saber
preciso
de ciência e engenha-
rias

ouso o silêncio

[ ]

não há resposta
fora
da língua muda
dos rios  
do grito
das enchurradas

o rio me olha
perdida
e segue  
o seu destino
de rio
           cego


.

ritual

e mais uma vez incorporada de mim
transtorno-me
poeta

é a chuva que não cessa de lançar-me

versos
à janela


.

domingo, 3 de janeiro de 2016

algo



algo de asas me coçavam as costas 
e quando olhei pra trás não eram asas, não eram metáforas aladas, 
eram costas; 

algo de naus me rasgavam o peito 
e quando olhei pros peitos, não eram naus, não eram metáforas marítimas, 
eram peitos; 

então algo de abuso, algo de traição, algo de faca afiada 
cortou meu pensamento, 
mas quando olhei o escuro nos vãos dos trilhos
das minhas pernas 
era só menstrução; 

foi aí que algo de braços e pernas, algo de garganta e orelha, 
cu e vagina, 
algo de língua e umbigo e mamilos, 
algo de rosto nos dedos dos pés, 
cotovelos e canela, algo 
de corpo m'incorporou 
e quando olhei 
[de frente] 
pra ele já era deus...


.