terça-feira, 20 de dezembro de 2016

pirulito

cicatrizes na pele de uma árvore comprovam
que tudo é líquido & etílico

a água não pode ser estancada, muito menos
o álcool
há veneno morando nas minhas palavras
e eles se movimentam como cupins na corrente sanguínea

quantas palavras é preciso saber para domesticar o medo?

pedra
papel
tesoura

você sabe com quantos pés se afunda uma canoa?

há ainda muito trabalho por debaixo do bloco de notas
será que você vai dar conta de mim?
se não arranjo mais três que deem meia conta cada um
s'alguém precisa sair no lucro
que seja quem paga o aluguel e a hospedagem do blog
eu
gerusa
não chora
pega aqui um pirulito e essa nota laranja para o sorvete
de baunilha
vai chupando porque eu quero te ver realizada, chupa
chupa
realiza
goza
chupa
brilha

porque há sempre muita plateia para o fracasso


.

miando no escuro

eu sei que está tudo escuro
já não há olhos para ver o que se faz insônia
e perdimento

você sabe onde está?
sinta o cheiro e veja

você está perdida na pata de uma pantera
ela tem garras afiadas e um nome selvagem
que se pronuncia num urro

você sabe urrar para além dos punhos?
encoste a orelha no chão e ouça

a pantera embrenhada numa floresta de fome
cerrando os olhos como cerram os gatos e os
míopes

uma pantera cercada por pelos
negros
no de dentro escuro
ébano pingando das presas
olhos amarelos por debaixo das pálpebras
negras
à espreita d'uma noite que não acaba nunca

desista
não se mata uma pantera fechando os olhos


.

ciborgue

acordei com um eu-lírico pendurado na linha
de fuga da minha língua
ele diz coisas do futuro

e me obriga a escrever os poemas que só daqui
a três meses
se concretizarão

então eu cuspo na tua cara
quebro a garrafa do teu melhor uísque
digo aquela verdade guardada para o fim
do mundo
risco um fósforo sobre teus inéditos
falo mal da tua mãe e do móvel horroroso
que você comprou para a sala
de estar
dos livros em russo que não posso ler
do teu relógio suiço estacionado no inverno
digo que não importa a tinta com que se pinte porque teus cabelos estão brancos e não tem como fugir porque há tufos deles espalhados pela casa pela cama no ralo do banheiro e que há
baratas
famintas prescurtando segredos

daqui a três meses terão se passado setecentas e oitenta horas e algumas luas
a maré terá subido e descido
então digo que quero te deixar agora
e acabo com toda possibilidade de
volta

esse gosto salgado de mar na língua

e depois a gente fode
como é de praxe aos peixes
acontecer


.

abra a boca e diga a

deixei a minha voz
naquele poema que escrevi sobre o lençol da sua cama

você sonhou com sereias e mijou na palavra
amor
agora essa gagueira de amoras impossíveis
esse gargarejo de romãs romanas
esse amarelado triste de peças em liquidação
minha voz
dissolvida em sabão em pó e alvejante
na rave das máquinas
de lavar idiossincrasias

como é que se diz eu-te-amo sem amor?
como é que se diz eu-te-odeio sem amor?
como é que se diz leva-uma-blusa sem amor?
como é que se diz passa-no-banco-pra-pagar-as contas sem
amor?

rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
: a máquina de moer palavras tritura meus pensamentos
já não posso escrever poesia
só ouço os tambores tocados pelos anjos da memória
filhos-da-puta que só me lembram porque não posso
rrrrrrrrrrrrrrr !

sua cama nua e eu enrolada
em cachecóis feito de buracos vazios

antes de perder a voz minha mãe dizia: não se pode confiar em ninguém
cuja cama está constantemente desalinhada



.

eu sou

mãos sobre minha cabeça
e tuas unhas de picotar papel: eu sou
esse poema simples de quatro linhas
que termina aqui

o resto é mentira
e mais feliz



.

regras

as regras do mundo me aprisionam
e tingem de vermelho a louça da privada
o medo 
habita as pernas que se movem alucinadas
nas avenidas do trabalho
mas vivem especialmente no meu sexo
vagabundo
é lá que o medo toma chá com bolachas
lê jornais repetidos e notícias atemporais
ri da minha cara de gozo e granola
enquanto fogo fodo de olhos fechados 28 dias seguidos e
finjo 
que você não está lá
que está tudo sob controle, só eu
e o meu sexo
transgredindo com violência
o mundo
das regras


.

iridiscência

o medo cuspiu na minha cara
eu pensei que era você, com
tua saliva e dna's passageiros

mas não
era o ecnóide de mil patas
o anelídio sedento de merda
a hidra gigante
escondida na inflamação da minha garganta

o medo cuspiu na minha boca e me desmetriquei
trimiliquei
terceiro olho em explosão iridiscente
arco-íris líquido na rótula esquerda
meu umbigo direito, um depósito de fobias
e feromônios

eu sabia antes mesmo de saber: não se luta
com medo se luta com o medo
mas a gente sempre perde, ou
se perde

não há lugar mais inóspito do que nos vãos
do meu pólipo cerebral: chuva elétrica devastando a intuição

meus neurônios são células nervosas e tamborilam os pés
por debaixo da mesa

e eu perdi a fome numa viagem que fiz a orion e nunca mais
voltei

não há para onde fugir dentro de mim

o medo tem a cara do escuro e de noite,
das luzes acesas


.

o caos

lambendo a tua delícia


.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

antes de dormir

a imagem de um pássaro manco me aflige. era
como nos movíamos pela manhã. depois das bolachas e do café com duas colheres rasas de sal. do himalaia a foto na parede nos sorria. pássaros saudáveis passam o verão na califórnia. botamos ovos
na frigideira, mas o fogo não acendeu. e o amarelo ficou boiando na clara espessa. o gás só finda quando precisamos de verdade. dele. o pássaro manco
batendo o bico contra a vidraça. vidros espalhados no terraço. aquele copo de requeijão herança de família. tua mãe ou
a minha? e eu senti um pouco daquela vontade de me cortar. transparências brilham contra o sol. aquela vontade que guardo aqui:
escondida entre o pré e o molar. ninguém vê e só sinto. quando mastigo, um gosto de vida. e sangue. sangue é vida. mas cortar o quê? já cortei o açúcar o glúten a gordura saturada milho transgênico cortei o shiatsu a aula de yoga os pulsos e ontem cortei
o detrás da orelha
o detrás da orelha é o melhor lugar para cortar, depois da sola dos pés porque ninguém vê esses lugares. ninguém presta
atenção a esses lugares mais recônditos ou de difícil acesso. no texto, a vírgula gesta
o tempo. então
é lá que eu costumo cortar. o sangue
escorre no reflexo do espelho. sou linda ainda. as asas funcionam. como dobradiças enferrujadas. às vezes a gente se esbarra. eu manco. os cortes nos pés são uma dor invisível. velada no túmulo da adidas. às vezes arde demais.
e me perguntam porque levo esse sorriso torto. na mochila, os dias que não consigo me desfazer. digo que é bruxismo. siso. mas meus dentes doei ao betinho. ele ainda ria. eu, rio. que não estanca. rastro bem fino de vermelho no azulejo da sala. a lã
mina ainda fincada no fofinho do pé. esquerdo, porque o direito já perdi junto com a passagem que compramos para
a tailândia. iremos
um dia? a imagem do pássaro manco pressagia desastres. aéreos são os seus olhos que vasculham meu sexo, mas não veem as cicatrizes nos meus passos. nem
a orelha surda com que ouço seus lamentos. lamento que não sinta
o gosto de sangue fresco no pescoço. houve um dia
que isso poderia importar. hoje
não. apenas penso se o pássaro não precisasse mais. das bengalas. desse bico de pato. ridículo atado às asas. cortei
asasasasasasasasas e me deu azar. aquela gaiola azul presa no pássaro. já não cantava, a. penas os ferros tortos rangiam. eu já disse que o pássaro é o seu voo? uma gaiola também. eu não tenho a mínima ideia
do meu coeficiente mental. provavelmente não estou bem. há zonas de mim asfixiadas. hoje
que o pássaro manca
não há mais gás. no botijão
e eu. fuligem.



bicarbonato de sódio

2 NaHCO3 + H2SO4 → Na2SO4 + 2 H2CO3
H2CO3 → H2O + CO2(g)


.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

endoscopia

as palavras se movem no caos
dos sons guturais
com que me arrisco à comun-
icação

abóbora a abóboda da boca
gargarejo a minha gagueira
poética
refluxo
refluxo
reflexo

a brutalidade do amor soca
o estômago
e eu penso que é úlcera

uma palavra nasce agora
e não pode ser dita
porque não houve batismo
nem circuncisão feminina

tudo é prazer e dor
reflexo
reflexo
refluxo

endoscopia significa olhar
para dentro
quando se espera do lado
de fora da catraca
o trem triturando a torta
a bílis beliscando o cisto
o intestino fazendo coisas
que nem sei

é assim que o amor me vem

: um prato de vidro moído
cacos temperados com sal
cal, soda, sílica e pimenta

do reino



.

inesquecível

e se não encosto minha testa
à tua
e descanso
os pensamentos, uma cicatriz
em teu corpo inspira
meus dedos à poesia:
procura pelos lugares
mais improváveis da página
em branco:
uma fenda
um fundo
uma pinta
pinto os pingos: dois rentes
ao pescoço
marrons e dourados de sol
e sal ainda entre os fios e
a lembrança
de uma tarde que ardeu
mais do que devia, se via
que seria para sempre

é assim que o amor se vinga
inesquecível
mesmo quando acaba

imagem

uma pedra
pesando
no caos
do meu peito

rego-a todas as noites

a pedra
pesada
florindo


.

café da manhã

histórias que escorrem dos olhos
e pingam
no copo de café com leite, antes
frio


.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

la calle

suportar a escritura
seu peso
o gosto amargo do mate
o vento frio de la plata

sobreviver
ao silêncio

alojado entre palavras banais
aos livros
esquecidos na memória

descimbrar o amor

suco gástrico
corroendo o estômago

e continuar

porque a beleza de uma árvore
se parece à beleza
de outra árvore

e elas caminham
afastadas
pelas ruas de paralelepípedos


.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

ainda hoje

ainda hoje escrevi impertinência numa folha em branco
depois risquei um fósforo e queimei-a
até o fim

então cortei as unhas dos pés que já estavam grandes
demais para os meus passos e
eu só queria ter os pés - os dois pés - do tamanho exato
para caber nesse sapato chato
chamado vida

há uns dias você esteve em minha casa e disse qu'isso
que eu faço não é poesia
eu sorri meu sorriso mais irônico e amaldiçoei cada grão
de pipoca que você engolia
acho que foi por isso que você passou mal e ainda passa
os dias sofrendo por mim

cento e trinta e cinco grãos de pipoca fazendo pipoquices
nas suas entranhas e eu sei que é uma magia estranha
mas funciona

espero que algum dia você consiga ficar em pé de novo
embora eu não
acredite em milagres
há tantos mistérios desencapados nos fios telefônicos
quanto supõe nossa
van escolar filosofia

será que algum dia te brotarão de novo dedos de escrever
poesia?


.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

sujas são as ruas da liberdade



furuike ya

kawazu tobikomu
mizu no oto

diria ser sashimi isso de mym
entre teus dentes

e sorriria o riso mais infinito

mas só há silêncio na boca, cheia d'água

eu te desejo co'a mesma fome de antes
da fome desse teu sorriso tão... infinitos
fios de cabelo diagramando
o olhar:

milenar é a cultura do amor

gotas nuas dançam sobre guarda-chuvas decorativos
e sob nossos pés ávidos queimando asfalto, calçadas,
bocas-de-lobo, poços e poças
impuras
e sujas são as ruas da liberdade

mas não me importa que sob nossas unhas bichos
carpinteiros construam telhados
pra duas águas

e tão afinados
teus caninos aos meus
traçando rotas mais ou
menos seguras
pro nosso barquinho de sushi em plena tempestade

mergulho
os dedos nos teus cabelos: sempre-os-teus-cabelos
de anjo
enrolando meus dedos negros
de shoyu

se come crua a carne do pensamento?

misturo letras no karaoke
cara, o quê?

como são hábeis teus dedos na arte
de deter o aroma débil desses indizíveis

detalhes presos às pontas do hashi

saciedade se escreve com dois
esses ou c?

eu sei que

I.
em algum lugar duas rãs descansam
insubmissas à poesia

II.
nus sobre o tatame
os peixes dormem
olhos abertos encarando os sonhos


.

noite

a noite arma
o bote sobre o dia

precisa a espreita

chocalhos 

na ponta da unha
silêncio

agoniza 
último fio de luz

enlaça a poesia 

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

eu lavo teus cabelos

quero escrever um poema onde eu lavo teus cabelos
um poema úmido
dos pés à cabeça
um poema
molhado como tem sido a vida
das minhas pernas
sempre apertadas desde que minúsculos peixes desesperados resolveram subir as en-
costas e ocupar o raso lago da minha sina
de mulher

eu te mandei uma música da joni mitchell
que supostamente você não ouviu porque
há trabalho demais e
tantas músicas ainda
por ouvir

então estou escrevendo um poema onde
enfio os meus dedos cheios de shampoo
e esfrego
os meus
nos teus pensamentos

e, supostamente, depois de seco, você vai acreditar que essas ideias todas de azul
brotaram irmanadas à tua raiz braba
à negrura indômita dos teus cabelos
mas
fio a fio eu teci com espuma uma arte
esquecida no tempo das minhas irmãs

é uma arte que se chama conceito e escorre pelos ralos entupidos de pelos pubianos
contaminando os esgotos e os rios contaminados pelos esgotos
prisioneiros dos de-baixo radioativos

agora eu só posso tecer pensamentos numa linha lógica entrecortada por um ou
outro sorriso surrealista

então ouça a canção e apenas retire dela o trecho em que ela fala da meia-calça
porque eu já não tenho meia-calça, você a rasgou com os dentes, lembra?
enquanto defumávamos o quarto com sexo, poesia & uma droga leve
levíssima que para afugentar assombrações
lembrou?

e nessa hora eu esqueci as assombrações e então as minhas pernas úmidas como
meus dedos indo e vindo nos teus cabelos
por acaso isso se parece com um romance
estamos tendo um romance, baby?

porque se sim, eu também vou tecer um suéter
pra minha língua e aquecer essas palavras frias que vezenquando se esquecem que
já é verão
e queima
nos lugares radioativos onde uma perna e outra
sufocam
meu caos

teus cabelos, um pouco de espuma, paciência, sorrisos surrealistas, joni mitchell
na vitrola imaginária, você
inteireza desloucada em azul, eu
artesã de conceitos

quer dançar comigo, baby?

hoje.


.

reflexão sobre o segredo

peixes secos habitam o ventre da mulher que deu de comer ao pescador ingrato

adiamentos

eu era noite
e tu
o dia que devagarinho me comia

sonhos esquartejados na engrenagem das horas

dois girassois encarando espelhos

já era dia
e tu
ainda dia

e me ardia insone, preclaro projeto de escuros


.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

domingo, 16 de outubro de 2016

poesia oral

co'a mão atada escrevo
<o poema>

enquanto você me fode
<o verso>

ainda melado de cuspe
<o seu cuspe>

ainda melado do verso


.

sopro

ao invés do grito
: um sopro

foi assim que vim ao mundo
e sigo
embaraçando cabelos sempre
que me aproximo
ou tropeço
em mim mesma


.

sábado, 15 de outubro de 2016

assentamento

com camomila & calêndula
preparo um banho-
de-assento
não sento, de cócoras ainda
rego
teu nome
assentado nas partes

íntimas, as conexões que trans-
ladram do corpo
à mente

ascendo

<13 horas de avião para pousar
no teu assentamento>

esfregaço de pimenta
só do pescoço
pra baixo: e o poema
arrepia todo

<eu ardo>

melado de dendê
iminente
no entre pernas

<melhor mesmo é jejuar>

acendo

uma vela na língua
e me escuro toda

versos enrolados
nas folhas

<de chicória>

a pele picando:
abelha-rosa, moscatel
& mel

e o poema se faz
ebó eu mesma gegê
jejurada axé
deitado no tempo
filha de santo
com dentes


.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

a mar

se te confundo com o mar
é porque nada
sei dos meus mistérios

talvez menos por causa dos olhos
e mais pelas mãos
que vãos
e vem sobre meu próprio corpo
plástico
de ideias

rara, sou és
-sa que m'olha nublada
encrespada de ondas
pelos em riste
e unhas encravadas
na poesia

no dorso do teu pescoço
que já foi e mesmo assim
permanece

permane'sença

se me confundo com o mar
é porque nado
no entretempo
das coisas que se inscrevem
sobre a rocha dura da palavra
túmulo aberto
em que moro
                          me demoro
rememoro

em memória
do girassol tatuado nas costas
pétalas derramadas
sobre a cama
num incêndio que nunca mais
me apagou

.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

oronlá

conta-se que oronlá, a rainha dos sons, era a mais linda de todas as orixás
e enlouquecia todos aqueles que a ouvissem
no canto dos pássaros, no esfregaço das folhas ou no silêncio das noites
quentes de verão

então obá, despeitada que era, uniu-se à iansã e ambas sopraram todos os ventos
reunindo 8816 asas de borboletas e, enlouquecidas de ciúmes, tramaram um lindo
vestido translúcido para presentear oronlá
com transparências

oronlá que era cega
e surda às intenções
vestiu-se com ele que se colou à sua pele para todo o sempre

desde então todos os orixás só podem ouvi-la
mas não conseguem ver suas belas formas
furtacores

nas festas do candomblé os orixás ouvem oronlá cantando
recebem seu axé
e sonham
nos braços de iansã
e obá


.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

tempo de sussurros

I
sozinha
espalho minha voz sobre a areia

construo uma ampulheta: trans-
parências a abrigar
o tempo suspenso
                                 do sussurro


II
caminho
todos os bolsos foram rasgados

nada me pertence
nada
para chamar meu

nem o poema
que se perde
da memória obsoleta das coisas

um assobio 
dissipa as estrelas
no deserto noturno dos meus dias


III
chovo
com a chuva que já começa a cair

uma cama flutua
e meus olhos dançantes no delírio
do horizonte

pista de gelo quente

miopias e mirações

nossos pés entrelaçados
no estranho caminho
que nem caminhávamos


IV
abra tua boca
e eu me gaguejo nela


V
sou ainda o nome despertencido
na tua língua adormecida

o contorno eletrizado da palavra
jambu & cachaça
quando ainda éramos
nós


VI
engulo o desejo de te pensar
fodendo com força
a minha história

engulo o desejo
pronunciando teu nome

minha vagina saliva


VII
é no meu corpo
que você hesita

na ponta da língua balança
um gemido
rabiscado ao meio

tínhamos um acordo e quando acordei
você já não estava lá


VIII
na assinatura mora o eco
de um corpo
ilegível
que escorre

misturando-me à areia


.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

respiração

eu & você
com ela no meio das nossas frases
buscando colo
na tua língua
e meus dentes de arrancar sangue
vampirizando
reticências

se eu pudesse apontaria esse lápis
com a faca de serra
que divido o pão
agora em três fatias desiguais

como come mais aquele que mendiga
migalhas?

corro a borracha feito o trator
arando a terra dos meus ouvidos
só o eco inaudível
toques de sedução
disfarces de lamento

e eu lamento que as coisas
acabaram assim: você e ela
comigo no meio
dando colo pra tua língua

na cova do dente ainda guardo
aquela faca de serra
que s'enterra no meio daquele
pulmão


.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

do amor

I

caranguejo-violinista: teu braço longo apertando meu pescoço

por que não enfia mais fundo tua mão na minha vida
e toca essas pedras adormecidas nos bolsos
do meu paletó?


II

pois quando te sonhei
já estavas ancorado na desembocadura de um rio

e eu vinha de longe
trazendo a poeira nos cabelos e um excesso
de mar
ainda pingando dos olhos


II

e se pensei, não poderia supor que teus atos anulassem
minha voz armada num bote certeiro

são pedras, eu digo

e ele as tira - uma a uma - tão bem disfarçadas
no verloque da boca
de sino
das minhas calças largas


III

são pedras, são pedras, repito
e seus dedos de tocar feridas arrancam-me o colar
apertado no bolso da camisa

girando enlouquecidas na aba do meu chapéu
pedras-meninas extirpadas
antes mesmo
do pesar


IV

pedras, eu quase grito
e enfia sem compaixão os dedos dentro
dos meus olhos: dois diamantes azuis

que não valem nada


V

por que carrega tanto peso?

digo-lhe que não sei e não me pergunta mais

nada

me desfaz laborioso os pedregulhos
acomodados
no debaixo das unhas


VI


todos os bolsos e covas vazios
de mim as pedras me espiam nas margens do rio


VII

ele parece feliz: desenterrou a terra
dos meus ossos

revolveu o vulcão
da língua

é um bom homem


VIII

é um bom homem
e tem amor


IX

sinta a insustentável leveza
de ser, ele diz
e eu boio
suspensa

pedra alguma depositada na conta d'água corrente

não afundo, flutua apenas
minha cabeça num travesseiro de plumas


X

respiro
só no seu nome mergulho
e volto

na rasura de um beijo, não
me afogo


XI

na desembocadura de um rio, longo abraço de caranguejo-violinista
me livrou do peso
da vida

tirou-me todas as pedras

e também as profundezas

corais & anêmonas

águas-vivas perigosíssimas

e um cavalo-marinho

distraído

de incerto destino


.

folheio teus cabelos nessa manha de domingo

com força
a última página se abisma na primeira

rasuras do desejo
o livro são folhas invernosas e brancas
sujas de palavras

até quando essa história será a minha?
de bruços não vejo
teu rosto traduzido em fôlego e sopro

no outono as folhas se perdem pêlos
descaminhos
mas estamos em abril e minhas pernas
desabrocham

eu quero que todos os livros se fodam
e você mais
do que todos

então mordo tua mudez e arranco voz
desses silêncios
até sangrar a carne dos teus não-ditos

os domingos sentem a urgência da vida
que expia
por entre as estantes
derramadas de café

os domingos pedem riso e cavalgadura

até quando a poesia assim metida atrás
do que já foi limite?

é um pouco grave o que sinto por você
então disfarço na rima imprecisa
e peço mais força

abismo-me na dor:
raridade do prazer

me amará ainda na semana santa?
no corpus christi?

será esse amor mais amor e mais
real do que a ficção?

há uma frase de você que teima
meu pensamento
e tua mudez esbanja reticências

é um livro de se ler chorando

fecho os olhos: não importa
ouço o trem

amanhã é outro dia
[e arde]
mas só até a noite
voltar


.

domingo, 2 de outubro de 2016

folheio teus cabelos nessa manha de sábado

todo livro é um quarto
porisso a intimidade do um

convite

dois é um
na matemática aproximada
da poesia

então m'ajeito com o livro
pousado no colo
esse jeito teu de se abrir
impudicamente pra mim

sonolentos são os pássaros
que não cantam à janela
quando teu sol desarma
a noite

tuas palavras me invadem
pelo ouvido
eu as aspiro

tua voz na minha língua é ainda tua ou minha
essa voz na tua língua?

me lambe a dobra sugando dela o excesso
de brancos
e rasga todas as páginas em que não se lê
'me fode'
folha por folha: uma a uma desde a raiz
dos teus cabelos
ilegíveis

cuidado: todo livro guarda um abismo numa das páginas

convém não demorar muito neste buraco porque há sítios
ainda não percorridos: à página 99 sou menino e atendo
pelo nome de
puta
e três traços fundos te cortam a testa: isso não vai acabar
nunca

meu nome é ainda antes das 6 e as fodas de sábado se esticam muito muito longamente
até o anoitecer

eu ardo

.





sexta-feira, 30 de setembro de 2016

folheio teus cabelos nessa manha de sexta-feira

se não houvessem leis
nosso seria o tempo da poesia

então declamaríamos a ordem
dos homens vestidos de saias

mas tudo isso eu li no final
da página 35, um parágrafo longo que termina na 36
esquina dos meus joelhos,
esfolados, com a dos teus calcanhares de pisar preciso
dessa marca de dedos ainda
colados na palidez da página
e nem por isso deixei de ser feminista: a dor é uma
escolha também

então colho algumas aliterações, subindo e descendo
nos hipérbatos necessários

olhando de longe teu corpo
nem parecia tão complexo
mas são tantas as articulações, as camadas finíssimas
que se escondem sob os fios finos e entrelaçados
do papiro e das papilas gustativas que me gusta mucho
estar em você
abrigada
dessas chuvas
obrigada
à tua palavra

o viver absoluto de um livro aberto ao meio:

geruza agora ama, livre o livro se escreve sobre mim
com letras gaguejadas
na minha pele tremida

eu digo não, mas já é sim


.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

folheio teus cabelos nessa manha de quinta-feira

a semana já quase acabou e
continuo lendo teu corpo de cabeceira

não há pontos finais, apenas
os vazios de páginas brancas
e por escrever

mesmo assim li teu rodapé
de joelhos
enquanto teus dedos folheavam os meus
cabelos

restos de resistência
apodrecendo entre os dentes

uma chama enterrada na vela
me vela ou chama
depois desaparece
com o gosto da tua língua es-
correndo na minha
rumo ao breu desses nós
mesmos

meu nome é agora ainda antes das 6
[e temos tempo]
a senha é um acento lituano no u
depois passa saliva
na ponta dos dedos
e vira as páginas da minha história
sem se preocupar com o contéudo

só a forma
       faz
       literatura

é sempre no depois que se demora
o agora

um beija-flor sugando sementes
de marijuana
e petúnias espetadas nos ombros
camuflam o rugir do despertador
mas despertam
tudo que é carvão esquecido na extremidade da cama

aí você me inflama e outra vez
eu ardo


.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A doença da literatura

e se me dizem que ela está em coma, respirando por tubos e que uma veia explodiu no seu cérebro, nada a não ser um impulso de preparar minha mãe para o pior - porque a vida tem muitos piores para nos apresentar - me comove. nem um torcer de lábios, nem uma fisgada no peito, talvez porque os acontecimentos todos tenham tirado de mim esse espanto, essa sensibilidade diante da vida, ou mais ainda, diante da morte. apenas um corpo destinado ao destino de todos os corpos: o fim.
mas se eu lhe digo assim que ela agora está dormindo e que no seu sono reelabora as experiências vividas, os encontros dessa vida, as horas em que já morreu, se lhe digo que ela dorme e se elabora em sonho ponderando com seu corpo se vale a pena continuar aqui ou se o melhor a ser feito é destinar-se, porque se lhe digo isso, creio mesmo que me ouve acolhendo-me no canto dos olhos. então a imagem de uma mulher que dorme e pondera, com toda autonomia de seu ser, se seus olhos se abrirão ou não, se digo isso então eu choro, então meu corpo todo se contrai e é como se todas as facas do mundo estivessem me atravessando e é como se meus ombros e omoplatas se rasgassem e sinto minha pele em flor picada de aço e insetos. porque é sempre só através da literatura, da doença da literatura, que consigo tocar a vida e me espantar da morte. ou tocar a morte e me espantar da... talvez porque o acontecimento que em nada se pareça ao real só possa ser assimilado pelo literário. e então nada posso fazer pela minha mãe, não posso consolá-la porque não há consolo para minhas mãos e esse soluço que convulsiona meu corpo, essas lágrimas que vazam e contaminam de mim esse mim mesmo ereto e duro, então eu amoleço e peço para que ela viva, para que ela escolha viver, que pelo menos tente como tentam os rios que sofreram um derrame de barro, os asfaltos inundados pela explosão de sangue daqueles que não puderam escolher. ela não sabia ler e tentava sílaba por sílaba compreender o que diziam aqueles versos porque a poesia ensina mais dos vazios do que a prosa contínua. tia, esse livro não é pra você e então ela lia um poema por dia e um dia eu a ouvi dizer para minha mãe, essa mulher que já não há quem a console, essa menina... ah meu deus ela dizia essa menina porque eu sempre serei a menina uma menina para ela que sempre será uma mulher, uma grande e tão querida mulher, para mim... naquela manhã eu me escondi para ouvir porque naquela casa eu sempre serei e farei coisas de menina... ela disse para minha mãe essa menina a branca sente muita solidão e eu chorei porque aquilo que ela disse já era literatura, era um eu-ela-terceira pessoa capaz de me alçar ao reino da dor... ninguém me leu como minha tia que não sabia ler... que não sabe ler... encasulo-me na solidão e descubro que você sempre esteve aqui comigo no escuro dessa genealogia de mulheres que podem decidir pela vida ou pela morte de seu corpo... há um livro de contos ainda por ler, há um romance tatuado de versos especialmente para você entender... esse livro é pra você... um capítulo por dia, tia... eu respeito tua escolha, mas por favor... volta

folheio teus cabelos nessa manha de quarta-feira

um sol:
teu sexo na minha boca
aquecendo palavras mergulhadas num gole
de silêncio

a luz penetra com força o vão entre as duas
bandas da cortina
tua bunda sempre
linda
sobre a minha
linda também

então trago tua fumaça pra minha
e sopro sobre teus cabelos
fio de nylon resistente à pescaria

três gotas de cera quente sobre as costas
é pharmakon suficiente
para um gozo vermelho
e in-can-descente

o segundo sol pulsando
na palma da minha mão
teu nome
escrito com gilete sobre os trilhos da vida

é bom que chova um pouco à tardinha
porque labaredas consomem o agreste
dos lençóis

dois sóis
na órbita da boca

fecho os olhos: não importa
ouço o trem
só em você eu ardo



.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

folheio teus cabelos nessa manhã de terça-feira

desse incêndio só me restaram
os dentes
empenhados no sorriso sonso
de cinzas

eu quero é crescer livro brotar
nuns verdes longos
sumorosos de cama-de-açúcar
meu de engenho
e mais outra vez
fogo

labaredas lambendo o costado
do asfalto

e os meus olhos muito secos
descobrindo
assimetrias

um eito é muito chão pr'essa
queimada
e é o inverno ainda sugando
a gravidade
dos mamilos

os livros sobem perniciosos
pelas estantes
e minhas pernas, fortes, sobem mais ainda

teu céu, meu limite infinito

minhas cinzas todas penhoradas
no esfregaço de dentes lascados

uma caverna é o tamanho exato
pra essa floresta
sem pressa
sempr'essa

então a gente se arrisca no risco
de um riscado: papel pautado
brasa incandescente, rubor vivo
depois ai


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

folheio teus cabelos nessa manha de segunda-feira

folheio teus cabelos pela manhã
e um sonho colado à corda de sete linhas mais
uma orelha
pendurada na língua a palavra
estremeço

meus olhos abertos no escuro

todas as páginas escritas começam a queimar
pelas beiradas
depois o centro
estremece

a cidade e seus chakras encobertos pela luz

um poema escapa
dos teus pêlos
e eu não posso perdê-lo

fodam-se os livros

fodam-se os livros
e todas bibliotecas itinerantes

teu nome é incêndio
e morde


.

sábado, 17 de setembro de 2016

do fim ao príncipio

não
paro
corro
é de iku que eu corro
pra frente eu corro
é com exu que eu corro
do lado eu corro
é pra nanã que eu corro
pra trás eu corro
corro
não
paro

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

oferenda

e se me dizes que é bento, movimento
se me dizes boiadeiro,
flecha ao vento, marinheiro, seda, saia
rodada mulher
se me dizes, ouço tua vinda na minha
gira o terreiro tatuado na sola dos pés
soleira exótica
guerreira, tu a que te moves no canto
dos olhos, íris

se me dizes na mudez dos versossímeis
então é a ti que te entrego
não só o mundo, mas a casa
não só a casa, mas o quarto
não só o quarto, mas a cama
não só a cama, mas o travesseiro não
só o travesseiro mais o sonho
não só o sonho, a pineal

e se é para haver entrega então veja
minha oferenda: o lúmen
e três cigarras aterradas na garganta
minha oferenda: o hímen
da língua renovado a cada investida
pó&cia ogiva transcriada'e'traduzida
minha oferenda: o dendê
da palavra formiga laborada vagina
céu de minha boca, salina
e saliva

em segura na ginga geruza me gira
no t'eu mover-me o equilíbrio des-
equilibra
re-re-reorganiza balança ajustada não
dança
no escuro, descansa
do lúmen ao hímen
do quimen ao kimen
sumaúma: sim&sina

m'ensina


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

a viagem

I.

demora. mas uma hora a gente vê que o mar, o sol, a lua, o sorriso, nada
disso cabe na foto-
grafia. moldura. cinto apertado na cintura. demora. é quase sempre do meio
pra frente, na viagem. desligamos então. a máquina. olhos. nas pontas dos dedos, cílios. na língua, o cheiro. a gente
se expande. cabe então a saudade. demora.

memória: o encontro entre dois infinitos



II.

toda viagem se faz só. primeiro. depois: 
no aberto.  passageiros. pegadas sobre pegadas. e o vento 
camuflando os passamentos...

intimidade: encontro entre dois grandes
silêncios.



III.

o meio. pouco antes até. o meio
é marcado pelo des-
controle. olhamos as fotos. tudo
parece. nos escapa: os dentes
do sorriso, as ondas
do mar, a barriga
da calça, o contorno
da lua, a grandeza
do sol, você
que era para estar aqui, no meio,
ao meu lado, o limite
de um cartão. de crédito. então começamos a a-
pagar tudo que está duplicado. ou tudo que não parece com
o que. não tem forma. somos só
isso. e já é tanto. 
o flash. de um vento
nos cabelos.

forma: tentativa de contenção do in-
finito



IV.

é no meio que nasce o desejo. nos meios. todo desejo começa no.
arrepio. dos dentes. entres. o desejo não está no iní-
cio. nem no fim, na viagem. o sexo.
demora. 
no começo tudo são. curiosidades. no fim, saudades. [até do que não 
se
passou]. mas
no meio, a vontade. lateja. então pés. se trombam. sotaques. se
enroscam. se dançam. cegueiras. se
reconhecem. e seria tão fácil
se

se: a condição para os encontros.



V.

desejo que não se
mata. se alimenta.
a fome. na viagem. da viagem. não se
sacia. se multiplica. duas
viagens. lineas paralelas se esticando no tiempo. dos rios
que só transbordam
se
se
encontram

transbordo: passagem de um corpo a outro
corpo
itinerante



VI.

somei minha viagem
a tua. e a distância. ainda. procuro
a estrela.
aquela.
aquarela.
que também te guia.

distância: dois pontos preenchidos por água, noite, dia,
melodia e f-
é



VII.

o mar me disse. cuidado com essas águas de dentro. então
piso suave
meus pés
entre ouriços
e corais.

o mar: tem a sabedoria dos pais.



VIII.

a paraíba me convida. pra ficar. eu tenho
uma rede.
um repente.
tenho corda e cordel. tenho
um sotaque escondido no fim. de cada
frase. pronto.
mas viagem é movimento. só
fico. onde o coração. balança.
viajeira. 
viajante.

vertigem: nos marinheiros, a instabilidade
do chão



IX.

é nessa cama. onde? de areia. que te espero. nossa cama. onde tua viagem
termina. e a minha.
recomeça.

então recomeçamos. do meio.
pra frente:

viagem,
todo movimento que sempre e
ainda
é



.
[Praia Areia Vermelha, Paraíba, 20/08/2016]

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A cabra

há tanto tempo que nem sei quando foi o quando mais certo em que comecei a te criar, te deixar num corre largado de prados frescos, comendo de sua própria fome, cabra ancuda, chifrenrolada nas ideias, fêmea da seca montanhosa, lanhosa e lustrosa nos cascos, cabra-angorá carnuda parida na ponta do lápis, e eu já nem sei e se soubesse diria que foi nuns outubros certamente porque mês outro que não esse que é dos maios macios onde é a mais pura verdade: me escondo em você, toda em caco, caprítica, partida, barba finafininha, balido baixo, sendo outra que outubra só nos cantos, pouco conformada à capinagem e confinada na adversidade de mimesma, domestico é nada que tão selvagem aquela que não se aparenta a si quando a selvageria está na seiva da pele em flor, despelada, em carne crua descarnada, desgraçada, prolífera, aquela que não é e cabra sendo...

quinta-feira, 14 de julho de 2016

sobre a mesa do bar

de cócoras
sobre teu rosto
enquanto pinto
as unhas
de vermelho-
vivo
o amor
de ponta
cabeça-
dura, você
contando notas
amassadas
embebido
de mim

desequilibrada
sobre salto
rascunho
teu corpo
amargo, amora
dois riscos
perdidos

sinuca de bico
a bola
branca
encaçapada
na garganta

não demora, tua
língua
me fode
a alma


e eu tomaria uma garrafa
[ou duas]
de você
sem tirar a boca
do gargalo


.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

segunda-feira, 27 de junho de 2016

carta a Murilo

e eu que era a mulher do fim
do mundo
metade pássaro
metade gaiola
me vejo e canto
em demora
nua de asas e
portinhola
tatuada de inícios
mulher
de agora

.

paixão

porque o olho tentando perfurar a imagem
porque a voz tentando perfurar o limite
porque a escuta tentando perfurar o sentido
porque a intuição tentando a lógica
porque o vazio tentando 
o abismo
porque o corpo nunca
nunca
cede

então o punho
e o nada


.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

descobertas

tento te abraçar e
me faltam braços
para abarcar todo
esse escândalo que é o amor na sua manifestação mais humana


.

escuro

na plena luz de um dia
você
me aconteceu



.

tanto

sorvo o amarelo dos girassóis que te florescem
no debaixo dos braços

meu deus,
como é longo o caminho entre tua boca e tua
boca

então refaço com a língua os mesmos passos
que unem o ponto
de partida
ao destino
da minha chegada

circular e longa é a viagem que te quero tanto




mas tenho tempo


.

mallarmé

carrego no bolso um maço
de poemas

nos dias frios
- como hoje -
em que o tempo s'estende
infinito entre 
nós
dichavamos um mallarmé
e transamos nosso estado 
de desatino


.

inverno 4

atrás da colina
um lobo
eriça o pelo

e uiva
o nome secreto
da lua


.

impressões

sento-me à janela
olho o frio

escrevo um poema
dois três e mais outro
e outro
ainda

sento-me no frio
observo
a janela

meia dúzia de linhas
versos livres
aladas
há palavras
que não se submetem
à tinta

- onde estás agora? -

escrevo frio
frio
frio

mas é o mundo que estremece


.

marejada

me fincas o prego
na língua
e desloca
minha sede
para outros
sítios
mais afastados
de mim

salivas
água da bica
linda
linda àgua
cristalina

me fincas no prego
da língua
marejo

barca infinita

o corpo

me acena
m'encena
nos bastidores da métrica
marulha

poesia


.

do verbo tanto

me tomas um tanto
de braços, d'abraços
de pernas e
cotovelos
joelhos
cabelos
suores
e sais

me tomas meu tanto
de ais, de cais
de porto
de corpo
de água da bica
m'excita

e é como morar
demorar
d'amorar
no breve instante d'um relâmpago:

depois escuros


.

inverno 3

há que se pensar na força
das plantas
que enfrentam o inverno
e
germinam


.

inverno 2

e porque me regastes
mesmo no inverno
girassóis me abrasam


.

celebração

I
passos trôpegos
pés de pato
insensato megulho
nas coisas da terra 

II
as coisas da terra
cobertas 
por água

II
cacos tilintam 
àvidas anêmonas 
enroscando asas

III
cinzas de arraia
largam manchas no mar

IV
amargo bruto
adoçando o grande corpo 
de sal

V
tudo é vida
quando não se morre
mais

V
entre a pele e a pele
só água

VI
águias-marinhas
s'aprendendo a nadar 

VII
o tempo
comprimido no fundo 
do'mar

VII
à luz de velas
tomamos alguns cilindros 
de oxigênio
e emergimos 
bêbados
de nós mesmos


.

revelação

eu não acreditava em poemas felizes
até eu ri-
mar com você


.

inverno

se inverno
por que girassois florescem em minha cama?


.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

tua

de sangue
é feito esse nosso amor
útero, bocas e cotovelo

onde
começa o teu vermelho
                   e termina

meu?


.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

por questão de segurança

quem não usa capacete
morre
co'a cabeça estatelada
no asfalto

quem usa
morre
com a cabeça intacta
dentro do capacete


.

terça-feira, 7 de junho de 2016

da flor que fugiu do ninho

plantei-me tão longe e mesmo assim
vieste
colher-me

para quê?

se queres tua casa adornada
há papéis de parede
há paredes

toma nas mãos essas tintas
deixa-me
                     só
com meus ventos


.

capa dura

debruçados
um
         sobre
outro
           eles
s'equilibram
como
livros
esquecidos na poeira
dos dias


.

suspiro

e é dos teus dentes
que me lembro
mais


.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

JUNTAS E DESCALÇAS BRINDAREMOS COM JACK DANIEL'S E LITHIUM, DO NIRVANA

ela enrolou um verso muito muito longo no pescoço e não
pulou / deu
um passo apenas
sobre a superfície lisa da cadeira
a mesma cadeira
madeira vermelha em que passara muito muito tempo lendo
literatura
como se ela se estendesse muito infinitamente sobre o vazio
só mais um passo
um passo
apenas
e saiu
da estrofe
sem dizer

adeus, amiga

soluço poético fundindo sílabas atônitas num poema que já
começa apodrecer


.
_______________________________________________

J.
amiga, não tá fácil...
nem a poesia pode me salvar da tua ausência
até breve e até lá morro um pouco por dia
:'(

.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

vida

e por que me olhas
, nua sobre a mesa,
se podes comer-me por dentro, Vida?

por que me desejas
pele, unhas, cáries
se podes desatar-me o cordão, Vida?

por que me chamas
tempo, dom, ação
Vida, se só podes nomear-me, Morte?


.

...

que fazem os vivos
quando os porteiros morrem?


.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

terça-feira, 10 de maio de 2016

pixo

porque você meteu teu pixo
nas paredes de casa,
da minha casa
agora tua, rua, calçada
nua porque você des-
cobriu as janelas, a cortina
rendida
no banheiro dos fundos
porque você entrou sem
bater, sem
me bater com
tuas chinelas mendigas
porque você disse que não
sabia dizer
o meu nome
com laços lituanos você
desenhou um grafite
conceitual
uma ong
uma escritura
uma saída de incêndio e
acendeu incensos e
fósforos indianos
porque você meteu o teu
dente no concreto
meteu os teus pés
na porta
meteu o teu pixo
no desejo
e abriu
minha casa
pra dentro


.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

aquário

lembrei que éramos dois
peixes:
robalo você
roubada eu
agitados no banco de trás

dois anzóis
emoldurados pelos vidros
embaçados
do aquário

sexta-feira, 29 de abril de 2016

clãdestinos

um canto
escondido no canto
da garganta
gargarejos
de limão & sal e as
penas
esperneiam

o pudor do verso per-
verso de ser
sua própria voz

canteiro
flores de algodão
um outono de dedos
sobre o dorso
da ideia
o verso
demoroso de esperas
cigarras
menstruadas sob a terra
teu nome
um uivo
enrolado à canela
limão
& sal
destemperança
na ideia:

cigarras machos
copulam
com outros machos e
com cadáveres de fêmeas
enquanto cigarras
ciganas
dançam
com deuses

no vão das coisas

um bicho-barbeiro
me lembra que o tempo
é agora


.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

devir-besta

cortaram o chifre do meu deus
dos unicórnios
mudaram a pronúncia do meu nome nômade: ninguém
me persegue
só a vida
graduada de ss
salve-se quem souber
porque é tudo lamento nos muros vermelhos do habbib's

levamos eras pra ficar em pé
e alguns anos pra nos botarem sentados
sedentários
e sedentos de vigilantes
do peso

quebraram meu golem
os dentes do meu urso
lenharam as raízes da yggdrasil pra fabricar
o clã das cadeiras quadrúpedes
desfiguraram meu totem
riscaram os lutos tatuados em minha garganta
um poema
do eliot
embrulhado em plástico bolha

içaram meus olhos com o guindaste de produzir
fiéis
somos todos fodidos
sem foder
titilando a tela touch
escavando microgozos holográficos

chove sobre seixos podres de antigas fogueiras
na língua a lama se mistura ao meio-
amargo do café descafei-

nada

se oca e empalhada
quem pensa essa revolução em minhas mãos
paralisadas?

segunda-feira, 11 de abril de 2016

[dentes]

desesperado orgasmo
corrente 
de versos escandalosos
que se furtam ao manso abismo da poesia

e espreitam
e espreitam

frestas 

ruínas de estátuas fuziladas
anjo vermelho 
possuído por crepúsculos e batom

restos escatológicos de um corpo 
prostituído em lasciva 
aurora
de unhas que riscam fósforos

espreitam 
e espreitam

onde no teu escuro - furioso e árido - um buracoso de dentes a ser alimentado com fome
e desejo?


.

[alegórica]

intocada 
minha voz se faz 
barro adâmico nas mãos do poeta
ébrio 
são os carnavais 
que começam nos dedos e invadem 
marrons e púrpura
os vãos 
entre a carne e a unha

nesse ali que é aqui
sou corpo de argila moldado à fantasia
eva ou ave
golem informe
muda meretriz

[e quase nem se ouve esses estridentes de dor 
nas nossas 
articulações]

asas de dragão do paraíso de fogo
ou serpente d'água
atadura viva sobre os cortes dos teus versos

tomame então
abstêmia e alegórica
nas palmas da mão e me decide
poeta

sopro alcoolizado com potência 
de sim

.

domingo, 10 de abril de 2016

[minha aldeia]

solitária
é a aldeia que cabe na minha cama

antes um primoroso de rios sempre
indo e vindo
regando margens, amainando fronteiras
vindo e indo

foram-se os rios para outras nascentes

hoje só leito
coberto de seixos e gravetos, sem
a gravidade 
das avencas
o vermelho
dos gerâneos em botão

havia céu
mas quem haveria de ver o céu
quando a terra tão úmida 
e tátil?

hoje azuis profundos
serenam a casa de uma só aldeã
aldeã de conceitos

shekinah

solitária
guardiã do fogo 
fabricando suas próprias chuvas


.


[bom dia]

eram minhas ou tuas essas mãos insones
buscando lugares 
antes tão mudos?

quem tem medo da pomba-gira?

batom redenção escarlate

encaro
esse poema que me olha

com sangue 
                       nos olhos

.

botânica

gerânios azuis florescem
nas axilas

todo meu caule
cintila


.

fim de tarde

um gavião gavioso
atravessa a fumaça do meu cigarro
e por um triz eu
                     nem percebo


.

[laços]

não importa a demora do tempo sobre penas azulescidas,
sempre se é criança à primeira vez

o primeiro uivo
a primeira lua
a primeira cheia tragando casas, caminhos e aldeias

ao primeiro não

ao primeiro dano
ao primeiro dono

ao primeiro beijo

todos os escuros são primeiros antes da primeira manhã
onde um gavião-
azul se esconde


.

[miséria]

se me chamasses cabra
sombria
ou emplumada

iluminura 
e sacrifício

se me chamasses Miséria
e glória

mojubá ou pomba-
gira


se me chamasses

                             eu iria

[nudez]

e haverá ainda nudez encoberta por palavras?
ou será apenas um absoluto 
como deus e a liberdade das pedras que não 
conhecem conceitos?

o que haveria de ver sobre minhas mãos se a-
pagasse o cruzamento das linhas q'um dia colidiram co'as tuas?
ou se extraísse dos meus próprios pés as esquinas
de todo trajeto
toda memória
toda história 
que sinalizam o futuro
do pretérito?

e se, das coxas e pulsos, desenrolasse, um a um, os versos  de
seda vermelha
sobre longa cicatriz?

e, se tudo ao corpo me arrancasse, não haveria ainda música?
a música
soando, agora, à meia-luz ou
o perfume
ensurdecedor?

despudorado o poema se exibe 
demoroso 
salto alto sobre a mesa
perdido entre os lençóis
castigando verdades absolutas

disciplinada no poema a nudez 
é o sonho 
da poesia


.

[súcubo]

nas pontas dos dedos
pequenos tambores 

relincham


.

[jamais]

conheci homem
que soubesse colher tempestades


.

[gesta]

uma pedra
não a pedra, mas qualquer pedra
uma pedra qualquer
fecundada

um pedra fecundada por um sapo
míope
e velho

(porque bem sabemos que sapos nunca foram ou
virão a ser jovens)

fodida
a pedra carrega o óvulo inglório
do seu escuro mineral
de uma foda sem rima ou lírica
da batalha entre lisura e rugas

(o que é da tradição dos sapos:)

longo e pegajoso abraço de língua
o peso pesado sobre a pedra bruta
e rara

(porque raras são todas as pedras
atemporais
que suportam o coaxar invasor
em sua zona de pelúcida loucura)

anfíbia uma pedra com óvulo dentro
não sangra
infla inexistentes pulmões uterinos
respira
imóvel

matter impassível de qualquer coisa
extranha
buscando no céu alguma lembrança
de estrela


.

[costa]

àquele que vem mundo
mudo narrador de asas
e anéis encadeados
aos pulsos ou canelas

que vem ainda muitos
ou nenhum
eu sedento, indistinto
em cacos
de fósforo,
carvão e bromo,
ferro e cário,
fogo
fôlego e fé

que vem à noite dentro
do dia, enxofre molhado
escarpado, escalpelado
náufragado
na terra fria

como quer que venha
àquele que vem:
o colmo
o quarto
a cama
a mesa
o corpo
acalma
e o breu
do meu vinho


.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

[noturna]

noturnos os peixes
no lago enigmático de dentro

absortos e nodosos os peixes-
espada
corte oceânico numa ideia de
ventre

suspensos
em negra contemplação:

nem lua
nem estrelas

cavalos-marinhos relincham
em outro poema

uma flor de lótus
(ainda em botão)
aguarda o desabrochar narcótico
de duas pétalas
amnésicas


.

domingo, 3 de abril de 2016

romântica

escrevi com sal grosso sete poemas n'água e você
nada!
de se afogar

só post-it verde-limão
colado nas margens
cagando regras prêmios e o diabo de quatro pr'essa
mentira!
que a tua vaidade quer

estilete cego não pode cortar inundação e o meu vermelho é mar é infinito é urbano

desvio - >

já troquei nome sobretudo cachecol
segredinhos sujos de liquidificador
joguei fora os desenhos desanimados das paredes
joguei paredes
nasci hoje há 15 minutos da estação lygia clark
esquina com a nossa-senhora-de-todos
-os-nomes

agora sou pisciana
co'ascendência escorpião e lua teimosa na casa
cheia
e um sol queimando a colmeia de pelos e azuis
raros entre as pernas

meus ovários cabem na pineal e são imensos

na garganta gesto um bebê que fala a língua
dos anjos e os anjos falam / a /
todas as línguas

me ciganei na luz
e posso ler teu futuro no encarte de um maço
de cigarros derby
debby é o meu nome e, por favor, entra na fila
do autógrafo

que risco uns versos lilases nessa tua cara
de espanto te espanco
mas sem poesia porque minha poesia é grande demais pra caber no ateu abraço



segunda-feira, 14 de março de 2016

1/4 canto

ácida eu era sua
viagem
cosmogônica
um zepelin
entalado na garganta
e você
sonhando irrigação eólica
no meu mangue
seco

caranguejos espadachins
deixam seus túmulos
em andada
pelas minhas coxas
e se espantam dos joelhos esfolados
'pede perdão e reza
o credo' ele dizia depois de gozar
da minha cara
e até hoje tenho medo de gente
destemida

mas não era o caso de me casar
com você
apenas desenterrarmos juntos
a carcaça de um tubarão-rei
xamã dos mares
naufragado nas dunas escorregadias
de suas ancas e omoplata
e eu queria dizer que
sou a pomba-gira do absolut
mas é só o piva assombrando
minhas próprias alucinações

a língua amortecida
o maracatu obstruindo a cantata
sarabanda de natal

e o que importa agora é que também eu
[aqui]
com o catimbó todo
pulsando no peito
exus, ebós & tambores
silenciosos
você
com o lampião à frente
acendendo os quatro cantos
onde chegamos juntos
e solitários

vindos de lugar nenhum


.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

folia

folião apressado:
se o tempo s'esticasse para além da fantasia
descobriria no meu corpo
a nascente
de toda poesia


.

concertina

eu te dei o meu buquê de margaridas negras
e você cheirou
duas carreiras brancas sempararprarespirar
eu te contei em segredo o meu nome
gardênia de ascendência escorpião
e você injetou até a última gota do teu veneno
na minha garganta
e eu engoli
suas palavras ácidas
e me roubou três orgasmos porque eu não
queria dar
e então fodemos o amor feito
dois ouriços mexicanos
concêntricos
& alucinados
dezesseis mil picos no wikipédia
e o risco
roleta russa na rodovia, ruiva
você rugia
as orelhas roídas
de serpentinas e concertina
um carnaval-de-olinda
em blocos de pêlos
fantasiados nós 2 dedos
suados e metidos
na febre funda da poesia
fodíamos
e era o amor ou quase
riso de pierrô
dentes ensimesmados
fodendo
fodendo
fodendo

ourissos


.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

[nada]

suspenso o corpo grosso da ideia
parado [ainda] no relógio mudo:

teus ponteiros perdidos
pousados pra sempre nas penas
da águia
aquática

seguro meu sexo
camuflado em algas estéreis

o rio sereno
não sabe dos meus nadas
singulares: NADA

pensa lodo, pedregulhos
surubins dourados e grandes cavalos-
marinhos

onde camufladas em águas há apenas
pequenas obsessões
[e uma grande
talvez]

libertas da língua, palavras
deixam o porto sem aceno

oh alas, para qué las quiero
si tengo mis aletas pa' NADAR?





terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

às margens

plantava-me
[ali]
sobre tua boca
ereta
e per-fei-ta-men-te
equilibrada

caule e
botão de rosa
prestes a desabrochar


.


sábado, 30 de janeiro de 2016

pedra ainda

I
uma pedra
perdida
de suas asas

uma pedra
apartada
pra sempre
do princípio

do principal:

privada até do impulso
de voo


II
uma pedra
paralisada
no nunca 
mais
alada

petrificada toda ela
uma pedra
sem pedra
concreta
íntegra
integrada
desprovida a pedra
do seu im-possível
não ser


III
uma pedra
só pedra
mais nada


IV
profundo
é o sono
das pedras que nem
dormem


V
peito de pedra
empedrado
ainda peito
fóssil de água-
viva
alerta

vidrada


VI
pedra empertigada
remoendo asas
alheias



.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

de onde vem a voz que não se houve

onde as pedras guardam
suas asas?

como saber as pedras no movimento lento de seu ir
e vir?

pergunto mais: quem testemunhará pela testemunha
senão a pedra?

o apelo das pedras despidas do algodão
malha fina da linguagem
à vista de outras, também nuas e mudas
de gestos

tudo é superfície porosa nas pedras que suam
sob o sol
pedras-anfíbias, polidas pelo tempo recusam-se
ao grito

como um poema que fracassou
ao permitir-se ser / esse mesmo
em seu lugar


.



do imperdoável

de quem são os rostos que violentam meu sono?

a fênix não pode parar
de nascer
essa é a sua sentença

e rara é a palavra
proferida
no quase-silêncio
das pedras

traços
lembranças do que jamais
                     [se] passou

a menina traída
no balanço distante
olha-me acusadora:

'por que revelou
meus segredos?'

(ouço-a no eco
das coisas mudas)

ela me aponta o indicador
no lugar da unha, uma ferida
sangra

(de que liberdade falamos se mesmo o meu olhar
contido
na circularidade do olho?)

digo não sei
e que os segredos não são ainda
o segredo

mas a tinta da caneta é azul
e já escorre entre os dedos

(uma cicatriz na íris comprometerá para sempre
sua identificação)

então a memória
mora atrás
ou à frente
do pensamento?

digo não sei
e peço perdão



quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

oração à nau que te tem dentro

[para nuno g.]

oro
à estranha nau que te trouxe
à terra

havia pudor neste corpo
pálido de primeira 
pessoa no singular
apátrida 
pudento
antes da chuva jorrando
vômitos
e mitos

tua boca 
na minha, abusada 
não contém os versos que m'escapam dos lábios leporinos
tua boca
abusada, na minha

oro
ao cão-morcego que pensaram morto
triturado nos dedos gástricos do sol

corsário negro 
vestindo sombras na luz que invade 
a pequena fresta: vulva azul 
das minhas cortinas insones



.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

o rio me olha

o rio me olha
perdido

não sabe para onde
segue

não conhece mapas
hidrográficos
e cartilhas escolares

o rio me olha
assustado 
co'a força q'o arrasta

interroga meu saber
preciso
de ciência e engenha-
rias

ouso o silêncio

[ ]

não há resposta
fora
da língua muda
dos rios  
do grito
das enchurradas

o rio me olha
perdida
e segue  
o seu destino
de rio
           cego


.

ritual

e mais uma vez incorporada de mim
transtorno-me
poeta

é a chuva que não cessa de lançar-me

versos
à janela


.

domingo, 3 de janeiro de 2016

algo



algo de asas me coçavam as costas 
e quando olhei pra trás não eram asas, não eram metáforas aladas, 
eram costas; 

algo de naus me rasgavam o peito 
e quando olhei pros peitos, não eram naus, não eram metáforas marítimas, 
eram peitos; 

então algo de abuso, algo de traição, algo de faca afiada 
cortou meu pensamento, 
mas quando olhei o escuro nos vãos dos trilhos
das minhas pernas 
era só menstrução; 

foi aí que algo de braços e pernas, algo de garganta e orelha, 
cu e vagina, 
algo de língua e umbigo e mamilos, 
algo de rosto nos dedos dos pés, 
cotovelos e canela, algo 
de corpo m'incorporou 
e quando olhei 
[de frente] 
pra ele já era deus...


.