sexta-feira, 27 de novembro de 2015

marrabenta

uma cadeira no cio

[você queria que eu dissesse cadela né? não
eu não caibo nessa representação
estreita
e de quatro pra sua língua morta]

uma cadeira de palha
no cio
doirada porque o sol
não é metáfora
e palha ressignifica muitas coisas

uma cadeira no cio
fibras flexíveis doiradas pelo sol
suportando
o seu peso moral e uma pelúcia
larga
de lobo manco
vestindovazios
e a lua
tão longe minguando pra gente

cadelinha, você dizia, tentando
m'ajustar à pequenez
do seu sonho cifrado na minha
mudez de cadeira aristotélica

sobre mim seu peso moral repetidas vezes
assentado
roubando meus cios de cadeira empalhada

despojando-me de grãos e pássaros
secando-me na cegueira de um sol meta-
eu-fórico

cadelinha de balanço pra trás
agora pra frente: movimento vem do verbo
movimentar

a posição da cadeira ciosa
no espaço:

dança marrabenta

lua cheia



cadeira se levanta

puxa a toalha

mexe a cintura

bate os pés

e sai andando


.



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

dessas histórias que se vê por aí

ela era só uma bruxa
azul como as gralhas
noturna

mas as gaivotas de hábitos
bicavam diurnas
seu nariz
seu ventre
sua boca

até que ela passou a ser uma bruxa
morta


.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

so, so you think you can

coloco meus fones de olvido
imaginários
e aciono o silêncio

dentro

a canção
que nem era sua
mas que você dedilhava à porta
do meu banho
quente

como a água
do chuveiro
a espuma da sua voz buscando
os pelos
da minha dança

dentro
de uma canção vermelha
como vermelhas são todas
as rosas
roubadas
aos seus espinhos

eu queria que você estivesse
dentro
do aquário

mas aquela canção não era sua
só eu
era


.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

sos

se lhe oferecesse
hoje
a palavra "sangue"

você sangraria?

ou prepararia gaze e mercúrio-
cromo para estan-
car o flu-
xo dos meus ver-
sos?


.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

questão de gênesis

no verbo
nunca
houve
princípio

no dia que chegou já era a palavra-
c'obra, cobrada, infiltrada, serpente
condenada por delírios e dilúvios
ácidos
com einstein e aqueles sete anões
no molhado indecoroso da língua

e depois
arcados
os pares
em fila
rebanho de todos os nomes e sobre-
nomes, passados
a limpo por noé
humildoso oficial graduado de rg
e ss

[você não ouve o verbo, Princípia?]

aprisionada em cadeias químicas
de carbono, carbox e heteroátomos
livres

trangenesis antes ou depois
prepúcio e
precipício
vishnu suspenso na sintaxe
de pelos
e patas e
garras vermelhas de verbo
com carne

nos cascos
de gnus e hienas de pintos obscenos
encostados
nas portas
dos lares

na esquina da general ozório com a
encomendadora sera fina outro bar
chamado floresta
e fome

o princípio não ouve o verbo mudo

a gente não nasce leoa
torna-se


.