terça-feira, 15 de setembro de 2015

[souvenirs]

foi viajar e me trouxe um piano
de pedra

[não, obrigada, não é aqui o endereço
mudou de casa, sr. entregador]

me diz o que é q'eu faço com teu piano
se desde sempre esse
ocupando todo o espaço da sala grande,
só não maior do que a janela

um piano de pedra não divide cômodo
com outro
piano

e é na sua mudez que meus poemas
tropeçam
os mesmos poemas que antes livres
giravam pelo salão

[como alguém pode esquecer um piano
antes de bater a porta?

e eu já disse que o tubarão branco tem 300 dentes e o peso
d'um piano de calda?

e que uma vez em preto-e-branco fizemos nele uma valsa que atravessou a madrugada?
e que outras vezes nos dissolvíamos na fumaça dos baseados em noites de jazz marítimo?
e que, agora sozinha, componho em movimentos epiléticos uma estranha dança
con-tem-po-râ-nea?]

esquecida, toda a sacralidade do piano
profanada pelas flores de plástico que insisto em molhar:
chuva de canivetes sobre o canteiro de papoulas brancas e
raras, camuflada entre as teclas paralíticas

me diz sr. entregador de que vale um piano
sem asas?

caixa de música oca, túmulo de melodias
mortas
onde uma bailarina torta
descansa                                  o tutor


.




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