domingo, 27 de setembro de 2015

explicação

não sei se sabe mas tem uma entidade e vezenquando ela m'incorpora... é uma garota, de 17 anos. morreu num acidente de carro...
e ela chamava era gerusa.


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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

se do meu púbis nascessem asas

se do meu púbis nascessem asas
provavelmente não seriam azuis
furtacores como as da borboleta
ou delicadas como o são as asas
da petúnia, dos lírios e girassóis

pois se do meu púbis nascessem
asas provavelmente seriam essas

asas de dragão

mitológicas e resistentes as asas
em mim
pubiana
membranosas como dos dracos
revestidas de penugens
de ossatura rara e forte
e escamosa como barbatanas ou
pele delicada de cavalos
-marinhos
serpenteando em águas salgadas

mas se do púbis me nascessem
as-
-as
verteria
no abraço das pernas hidromel

masculina e nórdica ou peruana
pacha mama terrosa
ou taoísta imperial
mas sempre celestiosa carnadura
de asas ventrilocais

fera de pluma e hálito
quente
asas de estrela do mar
cadente

imortais se do meu púbis brotasse
: voo

e quando elas então nascerem que nasçam hoje

pra que possas cavalgar
                         
                            reptilínea minha

                                            garganta alada


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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

flores

...
e é por isso também que eu não molhei as flores

e me culpo
por isso amanhã e depois de amanhã
como ontem

eu não molhei as flores

delicadas elas morrem
como eu
estou morrendo
também eu não
molhei as flores

e minha pele se cola à camada
de carne morta
embaixo das unhas vermelhas


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terça-feira, 15 de setembro de 2015

[souvenirs]

foi viajar e me trouxe um piano
de pedra

[não, obrigada, não é aqui o endereço
mudou de casa, sr. entregador]

me diz o que é q'eu faço com teu piano
se desde sempre esse
ocupando todo o espaço da sala grande,
só não maior do que a janela

um piano de pedra não divide cômodo
com outro
piano

e é na sua mudez que meus poemas
tropeçam
os mesmos poemas que antes livres
giravam pelo salão

[como alguém pode esquecer um piano
antes de bater a porta?

e eu já disse que o tubarão branco tem 300 dentes e o peso
d'um piano de calda?

e que uma vez em preto-e-branco fizemos nele uma valsa que atravessou a madrugada?
e que outras vezes nos dissolvíamos na fumaça dos baseados em noites de jazz marítimo?
e que, agora sozinha, componho em movimentos epiléticos uma estranha dança
con-tem-po-râ-nea?]

esquecida, toda a sacralidade do piano
profanada pelas flores de plástico que insisto em molhar:
chuva de canivetes sobre o canteiro de papoulas brancas e
raras, camuflada entre as teclas paralíticas

me diz sr. entregador de que vale um piano
sem asas?

caixa de música oca, túmulo de melodias
mortas
onde uma bailarina torta
descansa                                  o tutor


.




sábado, 12 de setembro de 2015

[das contenções]

todo o passado contido na fotografia
toda a história contida no monóculo
toda a felicidade contida na moldura
todo futuro contido na palma da mão

o teu fogo contido na chama da vela
minh'água contida à borda da piscina
a música impossível contida no piano
a alma das árvores contida no bonsai
o desejo contido na mensagem cifrada
[do telegrama]

o corpo contido na abstração do nome
teu nome contido num sussurro solitá-
rio contido na rede azulada da nuvem
chove a conta-gotas
cápulas de lamento:

uma deusa sufocada no meu chacra
inferior

não é privilégio dos versos a prisão
do poema

fiéis à liberdade, só lágrimas revolucionárias transbordam


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terça-feira, 8 de setembro de 2015

[ampulheta]

como controlar em mim essa pulsão
de destruir
com os dentes tudo que me alimenta?

e o mais difícil é encontrar o ponto
exato em que a torneira não queima
nem esfria:
o ponto exato em que a àgua jorra
na temperatura
da saliva

minha mãe me dizia "filha toma cuidado com versos longos e des-
cabidos" eles enroscam nas pernas
e encurtam caminhos

mas aquilo nem era um verso, era
um fragmento, uma melodia colada na boca do dylan e eu só tinha
16 e uma gaita
porque os dezesseis são infinitos
e passei o resto da vida amarrada
atando as pontas dos teus versos

sonhei com eles essa noite enrolados no meu pescoço, tão brancos
lenço de voal descendo pelas costas, dando voltas à cintura
agarrados às canelas

e eu podia, sim eu podia repetir
o resto dos meus 16 ouvindo you must leave now / take what you need / leave your stepping stones behind / forget the dead you've left
they will not follow you...
mas a pulsão
a torneira e a ampulheta
de dopamina


como controlar o desejo de quebrar dentes dos versos selvagens,
baby blue?


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domingo, 6 de setembro de 2015

ABBA - THE WINNER TAKES IT ALL - LEGENDADO (PORTUGUÊS-BR)

piano flanando no mar

são termômetros isso que você segura firmemente
entre as pernas?

no mar tudo é azul benzinho e a inocência
tem cheiro de sangue

ontem abri suas cartas daltônicas com a lâmina inox dos meus dentes
tortos, de liquidificador:
purê de batatas e clichês de versos amenos
milk-shake de banana
e uma vontade enorme de pular da janela só
pra não ter de engolir sua sopa homogênea de le-tri-nhas

insensato não dormir de olhos abertos
quando um piano branco
[de duas toneladas] afia
as teclas, mas

você não entende de pianos de cauda,
então preparo um banho de acentos e passo mercúrio-cromo
nas suas feridas
porque sou boazinha e tenho essa cara um pouco infantil
duas covinhas nas bochechas
e alguns dentes tortos

é um termômetro isso aí de você apertado em neoprene?

no mar benzinho tudo é comida
de peixe

e não se pode medir a fome do animal
que vive co'a boca cheia
d'água


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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

[desconhecido]

sozinha
escrevo o poema despida
porque é assim que faço
o amor

perscruto braços, pernas e ouço
meu coração comprimido entre
os dedos, seca
e ereta como saguaros fincados
às costas

sonora, o longo deserto
que se fez altura e pele
mexicana. de ascendência escorpião

me disseram pra não confiar
nos escorpiões com relógios
de pulso
que chacoalham os guizos do tempo
quando o tempo, ah! o tempo
essa cobra
cascavel se esticando sinuosa
sobre um agora infinito e im-
pronunciável,
teu nome na aspereza dos dias
dos meus dias

porisso busco esses nós dissonantes
na tua língua noturna e invernos(s)a
névoa perseguindo a trilha de vaga-
lumes raros:

zona xamânica, cosmologia mágica
alunada pela tocha sob plexo solar
aquela de número nove,
hipólita,
belicosa no seu cinturão
de água,
a deusa lunar que à calada da noite
nos habita
amazonia, Poesia.


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terça-feira, 1 de setembro de 2015

[...]

... e é também das flores sem espécie que me irmano mais porque carnívora às vezes e outras, não; mas aquática sempre, apesar de cacto catalogado no livro de biologia das coisas inaminadas. mas é bom que se registre que já fui boa, boca, já fui vadia, fui pernas e botas vermelhas. mas talvez que tudo isso tenha me cansado um pouco dos vasos e das paredes
voal é sempre melhor do que paredes
nos azuis eu enxergo melhor e você também me parece
marinho
não como corais, mas como fundo no fundo dessas águas
marinho como tinta de caneta bic quando estou-
ra no bolso da camisa branca desenhando um coração real
ainda assim preferiria que estourasse na minha boca e
e então todas as palavras que penso já nasceriam livros

mas tudo isso - claro - só é possível porque tuas águas, tuas águas intempestivas me arremessando junco pra lá
e pra cá na página copo-de-leite branco em botão, não, são três botões ainda fechados em senha enigma críptico de acesso ao mergulho. e você nem se lembraria mas eu sim: eu me lembro de esperar e foi em 1963 nas minhas terras mexicanas e eu esperei até que o elvis tivesse coragem de novo de mergulhar daquela montanha e ele pulou, pulou em preto-e-branco e o meu corpo mar molhado se tornou canção latina e talvez tenha sido isso que corrompeu de latinidade meu bulbo lituano...
é nessa desidentidade que mais me identifico com você
que não sei quem é
mulungu régio, esticada sobre a cama tua floração rubra de sorrisos e
quer saber? acho mesmo que foi ali entre a hera e a relva que te encontrei mais bonito porque verde também são os azuis quando se misturam assim ao amar-
ela é a cor dos girassóis
esse tipo de flor estranha da espécie que tem fé
e são fiés à luz
e nunca nunca profanam o escuro encarando-o
é sempre de olhos fechados que mergulho
nos teus olhos
me demoro um pouco mais
como num banho
quente

.