segunda-feira, 31 de agosto de 2015

[do que (só) passa quando não se passa nada]

hoje digo não à limitação do verso
livre
quero estender-me prosa sobre a cama sempre tão mar pro meu sono apertado de ostra.

eu esperei pelos teus versos.
e, em algum momento breve dessa espera, me peguei sorrindo. pouco. porque breves também têm sido meus sorrisos desde que perdi meus dentes
de leite. desde então só sorrisos
acompanhados das mãos em concha que pra abafar o canto das sereias tecelãs de ondas
em renda e voal. dessas ondas do de-dentro da concha.
e nem bem digo isso, rio alto com essas imagens sonâmbulas invadindo meu texto sempre tão aço afiado nas pontas.
apagaria tudo se pudesse, mas hoje me permito o prosear:

esperei teus versos com um sorriso colado à xícara
de chá. e eu que nem tomo chá se não provocam alucinações, sorvi
hamamélis e calêndulas
lírios enfeitavam a mesa
e esse estranho sorriso pingando no pires.

esperei pelos teus versos e
botei meus olhos pra secar com o vento na janela
mas esse aguado sempre persistindo e forçando os cantos

e eu cantarolei um pouco até mas só
porque no radinho de pilha imaginário algum roberto ou carlos dizia que seria natal em
agosto
caso você chegasse

e o último presente do qual ainda me lembro foi um verbo
no passado
e por falar em verbos, os meus estão tão desacostumados ao infinitivo que talvez eu devesse abrir as gavetas e tirar as bolinhas gastas de naftalina e deitar água de colônia, sim alfazema!, por cima de todos eles

me sinto um pouco idiota assim traindo a seriedade da poesia com essas flores no vaso e usando esse vestido cuja alça propositalmente finge equilibrar-se no ombro
esquerdo

ah se eu pudesse entender o que me faz sorrir nessa espera pelos teus versos, talvez
não precisasse olhar no espelho a cada vez que passo por ele ou buscar uma palavra nova dessas que nunca usei no dicionário
e seria tão bom se ela rimasse com o teu nome. o teu nome que exige tanta altura da minha língua
assim, à janela, soprado ao vento, o nome que como
não como quem come mel
mas abelhas

não acredito que escrevi isso: é a primeira vez
que como abelhas
num poema
assim
tão prosaico

sorrio
e por um momento breve me pego pensando se não foi uma pena termos nos separado tão cedo, antes mesmo
de nos encontrar

Um comentário:

  1. Muito bom mesmo! Das poesias que encontro em meus tropeços pela internet as suas são das minhas favoritas.
    "J"

    ResponderExcluir