sexta-feira, 28 de agosto de 2015

[do lado de dentro]

do lado de dentro,
o que restou fora:
você

debruçada à janela, espólio
do amor
t'encaro agora aprisionado
no real

movimento-me felina
pelos cantos amarelos
da sala de estar
onde estivémos
- só -
tocando
as trincas que riscaram
a lisura
do desejo

lambendo
as fendas
do lado de lá dos teus ombros
onde escrevi em azul metileno
o meu nome mudo na tua boca

o tempo parou desde que você
desmontou o relógio de parede
procurando liberdade
nas rodas dentadas da engrena-
gem dos dias

faltam-me caninos pra morder
essa falta que se avoluma
áspera sobre o dorso inexato
das coisas

você nunca esperou pra saber
como é macia a gema
das pedras rangidas na dor

do lado de fora você come
o mundo
e meu mundo ainda é você

faminta à janela, só
migalhas de mim
esperando pássaros
dissidentes



.

Um comentário:

  1. acordar de ressaca e se deparar com "esperando pássaros dissidentes" é um bom sintoma. de quê? - ainda nao sei, talvez nunca saberei. estou viciado em seus poemas. gracias...

    ResponderExcluir