quinta-feira, 11 de junho de 2015

desse dia que me comeu hoje

o dia amanheceu
como amanhecem os pães

sobras do ontem esse hoje
murcho
e marrento


*
eu sou só
     uma menina
             brinquedo
nas mãos 
da vida


*
corpo-túmulo
úmido
          de vida


*
sinto

experiência única
de existir

entre dois mundos 
paralelos


*
cuidado:
pessoas 

com igual tumulto
                 na alma

a poucos metros
de distância


*
só 
você sabe o que eles sentem

você sou eu


*
eles falam de cigarro e cachaça

burburinhos na sala 
ao lado

esposa
cachaça
barriga solta e 
vermes

gengivas e dentes riem suas cáries

: a verdadeira poesia da vida


*
aguardo a entrevista
quem perguntará o meu nome?
a senha de acesso ao meu ser?
somos só
           uma letra g
           atropelada por sílabas


*
um abrigo
uma obrigação
mulheres 
com úteros careados
                   como eu


*
ela sorri
e planta um sol dentado
no meu coração

de que matéria são feitos os sóis?


*
pulsam as paredes

"você já trabalhou isso?"
 o quê? 

"a morte"

todos os dias 
das 8h às 8h da manhã


*
"escolhi a vida"
ou ela escolheu?


*
"eu fui bancária"
e contava os dias em notas
de cem reais

a vida passava rápido
                        sem tempo
                        de acontecer


*
"professora"
respondo à estagiária de psicologia
que tem a cara de uma ex-aluna
                                     perdida
                                     no tempo


*
se é dia por que ainda todo esse breu?


*
ela diz "agora"
e o relógio começa a correr
das horas


*
escaldo meus pés
             num balde de gelo
             imaginário

enquanto espero 
uma estagiária de 20
decidir a vida
             dos meus 40


*
por que o pudor de dizer
o verso que
            brado
os sapatos perdidos
                 no asfalto
                 sujo
                 o verso
de sangue e nada:

uma morte recém-
nascida
enrolada no berço 
da poesia


assinale o x
(  ) branca
(  ) negra
(  ) parda
(  ) azul com listras e/ou bolinhas vermelhas

não há diferença de cor aqui:
                                      todos somos negros


*
ela diz que vai demorar um pouco
mas meu tempo é outro
730h 
distribuidas semanalmente

no canto da sala
uma salamandra muda 
de cor


*
ladradura infernal ecoando no silêncio


*
talvez seja vesga
talvez não
          não me olha
conversa olhando fixamente para um ponto 
                                              logo acima do meu ombro
direito

penso que pode estar falando diretamente 
com meus guias



*
o meu nome é
geruza

oi geruza


*
elas são tão velhas
que crimes cometem as velhas?


*
olham-me e abaixam a cabeça
não é respeito
       é compreensão


*
eu + todas 
as mulheres do mundo
limpando privadas
                e bocetas
                cagadas
                por homens


*
duas ou três lágrimas sempre me acontecem quando ouço:
1. joni mitchell
2. alguns versos / bêbados  / de amigos
3. o silêncio de minha mãe
4. a voz metálica do condutor dizendo

"estação liberdade
              desembarque pelo lado direito do trem"


*
em tempo:
que crime pode ter cometido alguém que usa uma bolsa da hello kitty?


*
procuro a palavra
mas velado é o coração dos dedos

continuo piando apenas 
                           dentro
                           do galinheiro



*
me chamam
não ouço e também não vou responder

sagrado é o nome
                   pelo qual atende 
                   meu coração



*
"se relaciona com homens ou
mulheres?"

preferencialmente 
                            com gente



*
um pássaro da raça dos possíveis
metálico
pousou na minha árvore
                            genealógica

[preciso me lembrar de colocar
óleo nas engrenagens]


*
um coração não-humano
pequenino como o de uma galinha
bate
desconcertado
e com febre
no atacama 
do meu peito



*
quatro paredes vazias de quadros
uma porta
[fechada]
                          linda!


*
uma tragédia se avizinha
e eu sinto 

vontade de fazer xixi


*
but I said:
no
no
no


*
box 02
o nome dela é X e ela não pegou
na minha mão
mas sorriu

de que matéria são feitos os afetos?


*
agouro-agora
ela me deixa só

eu posso chorar mas estou seca


*
a vida é essa insônia constante 
dos dias  


*
só a mim mesma 
confesso-me
aos outros sou pura

exibição


*
quero esvaziar meu corpo dos outros
e ser só 
experiência

                      mas mister é fazer xixi


*
ela escreve bisexual com 's' a menos
não me incomada
eu quero mais é que as palavras
se fodam


*
por favor: há um lugar em que eu possa libertar
o deserto?


*
passa a bolsa
              da hello kitty
              cheia de crimes contra a humanidade

como reintegrá-la à sociedade?


*
hoje não quero faca nem fome
só a paz
       dos suicidas que se matam
sem


*
ela deixou a porta aberta mas
tenho medo
dessa tal 
liberdade

[só pra contrariar]


*
tenho de me lembrar de tomar boldo
o bandido mencionou que é bom
                                    pro fígado

ecos da sela ao lado


*
somos criminosos tão comuns que
passaríamos 

incólumes

não fossem os crachás 
incendiando o peito



*
cinquenta e duas pétalas tem 
o girassol mais amarelo

e isso não tem 
importância nenhuma


*
capturado 
é uma palavra feita com as pintas
                                do leopardo


*
aprisionada num deserto infinito ao qual não cabem grades
aprisionada na liberdade perpétua do pensamento

mexicanizo-me

são tantos e eles cantam

meus pés tamborilam
e dentro um exército de cantores colombianos tocam flauta nas esquinas
dos meus ossos



*
na hora do aperto

o mais difícil de segurar 
é a vontade 
de fazer xixi


*
recrio uma lituânia
                  nunca vista
no quadro ausente 
                 de um box
                 de no. 2
2x2
é a medida do horizonte se abrindo
                                       sob 
                                       meus pés


*
hilda
o que aconteceu com você para ter enlouquecido mais 
do que eu?


*
vidro líquido escorrendo pelas pernas

gozo


*
fila

na minha frente: um cego
                           renovando a CNH

difícil escrever poesia
                         rimando com
                         burocracias


*
H6042
entre uma senha e outra
escrevo 
o verso

intervalos poéticos
entre inspiração e
               expiação


*
com pressa e 
faz-de-conta
a menina-brinquedo
atravessava a avenida do estado

segurando apertado
                 no gradeado de dedos
                 um centelha faiscante
                 pleonasmo

de liberdade



[ain que poeminha fofo]



.
                     




                   








Um comentário:

  1. Definitivamente, preciso respirar!
    Me empresta seu escafandro, G!

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