segunda-feira, 29 de junho de 2015

canhoto

é canhoto esse poema que me escreve hoje
a direita sempre amputada
                        no corpo da vida
faz da esquerda via obrigatória
                        sentido único
                        luz de neon
                        pentagrama desenhado na porta

as crianças perderam os dentes
e latem
a falta de caninos nas gengivas afiadas
onde unhas / encravadas / não param de crescer

pequenos cadáveres que insistem em viver ao rés
dos dias

memória espetada
               na coroa de lata
               prego martelado sete vezes na língua

eu sempre soube:
há um crime suspenso
                     em todo lenço
                     atado ao pescoço


.



sexta-feira, 12 de junho de 2015

a protagonista

ela encontrou o primeiro-amor-da-sua-vida
e perdeu; aí encontrou o-amor-da-sua-vida
e perdeu; mas encontrou o-grande-amor-da-
sua-vida,
perdeu

então,
sem saber o que fazer com uma vida só sua,
começou a viver

.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Maria CALLAS sings Carmen HABANERA in covent garden

desse dia que me comeu hoje

o dia amanheceu
como amanhecem os pães

sobras do ontem esse hoje
murcho
e marrento


*
eu sou só
     uma menina
             brinquedo
nas mãos 
da vida


*
corpo-túmulo
úmido
          de vida


*
sinto

experiência única
de existir

entre dois mundos 
paralelos


*
cuidado:
pessoas 

com igual tumulto
                 na alma

a poucos metros
de distância


*
só 
você sabe o que eles sentem

você sou eu


*
eles falam de cigarro e cachaça

burburinhos na sala 
ao lado

esposa
cachaça
barriga solta e 
vermes

gengivas e dentes riem suas cáries

: a verdadeira poesia da vida


*
aguardo a entrevista
quem perguntará o meu nome?
a senha de acesso ao meu ser?
somos só
           uma letra g
           atropelada por sílabas


*
um abrigo
uma obrigação
mulheres 
com úteros careados
                   como eu


*
ela sorri
e planta um sol dentado
no meu coração

de que matéria são feitos os sóis?


*
pulsam as paredes

"você já trabalhou isso?"
 o quê? 

"a morte"

todos os dias 
das 8h às 8h da manhã


*
"escolhi a vida"
ou ela escolheu?


*
"eu fui bancária"
e contava os dias em notas
de cem reais

a vida passava rápido
                        sem tempo
                        de acontecer


*
"professora"
respondo à estagiária de psicologia
que tem a cara de uma ex-aluna
                                     perdida
                                     no tempo


*
se é dia por que ainda todo esse breu?


*
ela diz "agora"
e o relógio começa a correr
das horas


*
escaldo meus pés
             num balde de gelo
             imaginário

enquanto espero 
uma estagiária de 20
decidir a vida
             dos meus 40


*
por que o pudor de dizer
o verso que
            brado
os sapatos perdidos
                 no asfalto
                 sujo
                 o verso
de sangue e nada:

uma morte recém-
nascida
enrolada no berço 
da poesia


assinale o x
(  ) branca
(  ) negra
(  ) parda
(  ) azul com listras e/ou bolinhas vermelhas

não há diferença de cor aqui:
                                      todos somos negros


*
ela diz que vai demorar um pouco
mas meu tempo é outro
730h 
distribuidas semanalmente

no canto da sala
uma salamandra muda 
de cor


*
ladradura infernal ecoando no silêncio


*
talvez seja vesga
talvez não
          não me olha
conversa olhando fixamente para um ponto 
                                              logo acima do meu ombro
direito

penso que pode estar falando diretamente 
com meus guias



*
o meu nome é
geruza

oi geruza


*
elas são tão velhas
que crimes cometem as velhas?


*
olham-me e abaixam a cabeça
não é respeito
       é compreensão


*
eu + todas 
as mulheres do mundo
limpando privadas
                e bocetas
                cagadas
                por homens


*
duas ou três lágrimas sempre me acontecem quando ouço:
1. joni mitchell
2. alguns versos / bêbados  / de amigos
3. o silêncio de minha mãe
4. a voz metálica do condutor dizendo

"estação liberdade
              desembarque pelo lado direito do trem"


*
em tempo:
que crime pode ter cometido alguém que usa uma bolsa da hello kitty?


*
procuro a palavra
mas velado é o coração dos dedos

continuo piando apenas 
                           dentro
                           do galinheiro



*
me chamam
não ouço e também não vou responder

sagrado é o nome
                   pelo qual atende 
                   meu coração



*
"se relaciona com homens ou
mulheres?"

preferencialmente 
                            com gente



*
um pássaro da raça dos possíveis
metálico
pousou na minha árvore
                            genealógica

[preciso me lembrar de colocar
óleo nas engrenagens]


*
um coração não-humano
pequenino como o de uma galinha
bate
desconcertado
e com febre
no atacama 
do meu peito



*
quatro paredes vazias de quadros
uma porta
[fechada]
                          linda!


*
uma tragédia se avizinha
e eu sinto 

vontade de fazer xixi


*
but I said:
no
no
no


*
box 02
o nome dela é X e ela não pegou
na minha mão
mas sorriu

de que matéria são feitos os afetos?


*
agouro-agora
ela me deixa só

eu posso chorar mas estou seca


*
a vida é essa insônia constante 
dos dias  


*
só a mim mesma 
confesso-me
aos outros sou pura

exibição


*
quero esvaziar meu corpo dos outros
e ser só 
experiência

                      mas mister é fazer xixi


*
ela escreve bisexual com 's' a menos
não me incomada
eu quero mais é que as palavras
se fodam


*
por favor: há um lugar em que eu possa libertar
o deserto?


*
passa a bolsa
              da hello kitty
              cheia de crimes contra a humanidade

como reintegrá-la à sociedade?


*
hoje não quero faca nem fome
só a paz
       dos suicidas que se matam
sem


*
ela deixou a porta aberta mas
tenho medo
dessa tal 
liberdade

[só pra contrariar]


*
tenho de me lembrar de tomar boldo
o bandido mencionou que é bom
                                    pro fígado

ecos da sela ao lado


*
somos criminosos tão comuns que
passaríamos 

incólumes

não fossem os crachás 
incendiando o peito



*
cinquenta e duas pétalas tem 
o girassol mais amarelo

e isso não tem 
importância nenhuma


*
capturado 
é uma palavra feita com as pintas
                                do leopardo


*
aprisionada num deserto infinito ao qual não cabem grades
aprisionada na liberdade perpétua do pensamento

mexicanizo-me

são tantos e eles cantam

meus pés tamborilam
e dentro um exército de cantores colombianos tocam flauta nas esquinas
dos meus ossos



*
na hora do aperto

o mais difícil de segurar 
é a vontade 
de fazer xixi


*
recrio uma lituânia
                  nunca vista
no quadro ausente 
                 de um box
                 de no. 2
2x2
é a medida do horizonte se abrindo
                                       sob 
                                       meus pés


*
hilda
o que aconteceu com você para ter enlouquecido mais 
do que eu?


*
vidro líquido escorrendo pelas pernas

gozo


*
fila

na minha frente: um cego
                           renovando a CNH

difícil escrever poesia
                         rimando com
                         burocracias


*
H6042
entre uma senha e outra
escrevo 
o verso

intervalos poéticos
entre inspiração e
               expiação


*
com pressa e 
faz-de-conta
a menina-brinquedo
atravessava a avenida do estado

segurando apertado
                 no gradeado de dedos
                 um centelha faiscante
                 pleonasmo

de liberdade



[ain que poeminha fofo]



.
                     




                   








terça-feira, 9 de junho de 2015

XL

e não seria de estranhar
se perguntasse à Morte: qual
o teu nome

e ela respondesse apenas
Vida


.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

pegajosa

pegajosa essa vida colada
aos meus dedos
tutti-fruti
é o cheiro de uma vida
sem sabor

cor-de-rosa é a cor
dessas rosas secas
guardadas na arca

memória

uma vida que não me abandona
pegajosa
uma vida que não posso abandonar
pegajosa
eu
nos dedos da vida


.

animal

farejo
restos
de uma memória

de uma memória
de águas
sobre os lençóis

farejo teu corpo de chuva
         teu corpo árido
                       de chuva
desabando
                    e escorrendo
sobre o telhado
da minha ideia

raridade
é o cheiro que vem de longe
é o cheiro forte que vem
                             do longe

farejo
farejo
essa memória
que nunca deixa

farejo essa memória que não
me deixa
que não me deixa
que não me
                 deixa
que não


.

acordes

enfiava dedos nos meus cabelos
como se fossem cordas
de uma guitarra

era assim que nos amávamos:
fazendo música


.

mandamentos

havia loucura naquele dizer de açoites
ele disse: "deita
e morre"

havia loucura naquela obediência cega
porque eu deitei
e morri.


.

tons

qual é a cor da morte?
será cinza?
          a cor da morte
será cinza como o pó
do que foi
verde?
azul
vermelho como sangue que corta as florestas de dentro?

será cor de escuro?
preta ou branca a luz que ilumina os olhos
da morte?

qual é a cor da morte?
será que a morte tem a cor justa
da vida?


.

nuvens

tinha uma nuvem no meio do caminho
no meu caminho tinha
uma nuvem

[nuca me esquecerei dessas nuvens pesando nos meus olhos
já tão fatigados]

aí choveram

e pronto


.

e eu entendo

viagens querem nascer
             nos meus pés
descalças
de medos movediços
cadarços
                e pedras

espessa é a via vermelha
que liga o útero
                         à ideia

viagens querem nascer nos meus pés
descalços e
eu entendo
a virgindade dos viajantes porque provei
atalhos
de uma mente confusa
e conturbada
por flashes
              e táxis
              amarelos

viagens querem nascer e eu
entendo
de folhas e unhas
e sei ler as horas vagarosas
                coladas no dorso
do sol

viagens querem
e meu cajado
tem a forma de um fórceps
          turquesa
          é sempre mais
          do que uma cor

eu entendo
eu entendo
eu entendo


calcanhares grávidos de caminhos
apagam as pegadas
             que ficam
                                   pra trás


.



.

sussurro

eu ouvi dizer que você pode voar
como uma águia
eu ouvi dizer que você pode nadar
como um peixe
eu ouvi dizer que você pode correr
como um tigre
eu ouvi dizer que você pode crer
como ninguém


.

domingo, 7 de junho de 2015

inverno

faminto ele
suga meu seio
           vazio
           em vão
           todas as palavras secaram

no inverno
só os ossos
       sobrevivem


.

primavera em sépia

quem de nós poderia imaginar
que essa minha terra de dentro
fosse tão acolhedora e fértil
que fizesse multiplicar e
crescer
imenso
o deserto que me plantaram no peito?


.

ar

o meu peixe dourado
decepcionado
              mergulhou
pra cima
e morreu
afogado


.

borboleta

era uma vez
      uma borboleta
sem asas
e sem borboleta
              ainda


.

água

eu preciso
eu preciso
me
pescar

açular em mim
essa fome
essa fome
       de anzol
            vazio


.

medo

eu só queria dizer
         que sinto
         que sinto
muito


.

Joni Mitchell - Clouds (1969) (Full Album)