segunda-feira, 25 de maio de 2015

a coxa

tenho dois nomes e sobre-
nomes cruzados
ambos tatuados
                         no fêmur

indestrutíveis
gestados no colo anatômico
ligam a cabeça ao corpo fe-
moral

não podem ser vistos sob longa cicatriz amarrada na coxa
direita

apenas eu e o xamã tatua-
dor olhamos nos olhos
azuis cobalto
desses nomes que me carregam sobre as múltiplas costas
montanhosas
de suas letras

esticados sobre extensa linha àspera dois nomes próprios
impróprios ao toque mas expostos
à nudez de dentro
nomes que carrego
com a firmeza possível ao coração
descalço
neurônios machucados de pedra
e espinhos no caminho das horas

eu levo esses nomes comigo
e quem me chama
chama-os também
somos três vivendo o mesmo
corpo de sacrifício

articulado
e dividido

às vezes me esqueço

só dói quando ando


.

sábado, 16 de maio de 2015

caminantes

é preciso estar em paz com a morte
como quem desliga a tv e se deita
na noite
     sob edredons lilases
                           e quentinhos

é preciso fazer as pazes com a morte
calçar-lhe bem os pés
amarrar-lhe com nós
                            os cadarços
pavimentar com atenção redobrada
ruas e esquinas

é preciso dar-lhe as mãos
muro alto e branco acompanhando
                               nossos passos
                               em silêncio

é preciso estar enlaçado com a morte
para que ela não
                    precipite



[com amor, hoje, para meu tio Ailson]
.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

escola de condição

era em calor aquela aparição
mornura
de dois acostamentos que se
colavam

nenhuma pedra absoluta
não fosse absolutamente
necessária

na estrada tudo são
passamentos até o amarelo das linhas: amar
-elam e
passam

somente poetas veriam girassóis onde só há
tempestades
e marcas longitudinais retrorrefletoras des-
contínuas e adjacentes

mas poetas são cegos
                                     e não veem nada


.


dispositivos móveis

sozinha
no canto do verso


.