segunda-feira, 27 de abril de 2015

o que digo a alguém quando digo a alguem: ei te amo

bourbon

bitucas
de cigarro, lençois futuristas
discos de vinil sem encarte
a vida
espalhada pelo chão da sala

20 anos
de fragmentos

e meu discurso mais amoroso:
'eu não sirvo pra falar de amor'



.
[explicação que ninguém pediu: esse poema foi escrito com uns versos roubados, mas por uma boa causa :P ]

sábado, 25 de abril de 2015

condensação

compressas de calêndula e maracujá
na língua
receita antiga contra afta,
inflamações e pequenos
                     gnomos
                     obsessores

cuidados extras para uma língua in-
capaz de fazer lar

a samambaia morreu encharcada e o peixinho dourado
seca
sem as bolinhas diárias: poundianamente meto o nariz
no vidro e observo
[dentro do aquário]
                 o ser do peixe-samambaia
                 esvai-se

meu deus... é assim que se ensina a fazer poesia?


.



.

madrugada insana ou very important person

madrugada insana
dessa tua festa que entra no meu quarto
invade meu sono
                   o meu espaço da cama
acorda meus músculos
                   o lado direito do meu corpo
essa tua festa que eu não quero
                                 [e nem pedi pra]
                                  ouvir
que escorre pelos vãos mínimos da janela
que penetra todos os poros da parede
que viola os buracos do meu pensamento
essa tua festa feita de dentes
                                 e sorrisos vip's

essa tua festa ao lado
que acorda e me lembra que há festa
e mais uma vez eu não fui convidada


.

mma

dilatam-se as veias do meu pescoço
formiga-me o frio por toda espinha
as palavras
encurralam
-me

as palavras armadas
me colocam contra
a parede

as palavras esmagam meu nariz
e ele sangra

[higienicamente meu nariz sangra em branco]

com quem estou brigando?

COM QUEM ESTOU BRIGANDO?

por favor me ajude
                                   a perder


.

plumas de ganso

eu invoco a musa:
ó magnânima musa das suavidades
inspira-me com doçuras!

inspira-me à voz sem veias dilatadas no pescoço
inspira-me à voz de passos compassados e lentos
inspira-me à voz em tom menor e silencioso
                                                      de suspiros
                                                      e travessuras
                                                      de travesseiros
                                                      a. herchcovitch
permita-me, musa
um único verso que valha a pena
um verso de escolha não pequena
um verso adaptável às aspas atemporais

senhora musa,
museifica-me!


.
                           

baba e bobó

meus poemas estão fadados
ao grito e
eu só queria escrever sobre

papoulas
baba de moça
bobó de camarão
rendas e camafeus

mas a voz me sai fora
do tom
demasiado combativa

meus fantasmas não morrem
a vida assim eu luto com eles

batalha perdida

eu brigo sozinha e se ganhar
ganho
de mim mesma
                         então perco


.


delicada balbúrdia

sonho o dia em que minha voz emerja docemente
do mar dessa poesia
                      aí lagoa branca e branda com patos
nadando felizes pela manhã
                          patos felizes que viram cisnes
                                             no mais tarde, patos
                          ou cisnes
                          que importa?
                          se eles bicam
                          a porra da minha língua
                          se eles bicam a porra doce
                                                           ou salgada
da minha língua
fazem campo minado
                     cemitério de covas
                                        cheias
                                        de sangue e penas


.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

parto

eu pari uma pedra
            uma pedra irregular
            e nada
               preciosa
            uma pedra

lava
de vulcão
endurecida no gelo
das minhas entranhas
             uma pedra
                     estranha
             estrangeira
negra
             uma pedra
                     gestada
             em meu útero
             branco
uma pedra
             muda

grito
riscado à retina
            uma pedra
                    herdeira
do seu vermelho
vivo
memorial

herança
lembrança ardente
armadura
incandescente
               outra
               a pedra
               porosa
               extrusiva
ígnea
[dentro]
trilha
rude e ruidosa
da pedra
     preta
     que parte
pelos caminhos
     do meio



.    

quinta-feira, 23 de abril de 2015

dourado

dourado
um peixe impresso
em notas
      azuis

tatuado de escamas
e enigmas
cioso
o peixe passeia no caos
desporto

mar aberto

dourada garoupa des-
nuda
mergulhosa de corais
vendada no demoroso esticado dos fundos

um peixe
      raro
      imaginário

azul
colado ainda nos dedos
tocaiado em dobradiças
de pernas, vacuoso
em memórias de sal

não houve
       [ruídos]
trilhas azuis

caminhos que se fazem líquidos
transparências in-can-
                                    decentes

o peixe investe no movimento
porque não há atalhos para o si-
lêncio


.



.

cachoeiras improváveis

como não me entregar àquela
cachoeira na sola dos teus pés?

eu queria era morrer afogada de descaminhos e nunca mais voltar pra casa...


.

Alice In Chains - Rain When I Die

terça-feira, 21 de abril de 2015

dedos leves

tatuei
o nome de uns santos
nas pontas dos dedos
pra me lembrar que não devo pegar nada de ninguém

mas pra ler teus versos assim tão disponíveis, eu uso
luvas


.

a carne do que pode ser

leio, re
leio, re
leio
difícil o dizer que é corpo
se pra mim o poema,
meu
e assim o visto rente à pele
peça íntima do meu desejo
delicado acessório em S
que me roça a roça oculta
no debaixo
     da língua
          o que não digo
semente d'um grito úmido
enrolado em algodão
e germinando no silêncio


.

drenagem

drena-me, senhor, esse mar
da língua

esse mar

apurado
de peso raro
sal que m'embota a poesia

seca, senhor, com teu sol
o manto,
istmo de terra
que liga a língua: penín-
sula do meu corpo a teu

etéreo ser         no outro

deixa que o junco espere
a mina brotando no céu
da boca
chovendo sobre papiros
palatais
doçura em s
cristalina em ele
transparência em ene
poesia repentina
que me alaga em ze-
lnys


.


domingo, 19 de abril de 2015

sexta

o homem tirou o pinto pra fora e mijou
encima da macumbaria: duas taças e o espumante

a namorada bebeu tudinho
depois cuidou com carinho
                                                    das palavras
                                                     inflamadas


.


sexta-feira, 17 de abril de 2015

gibi

o homem-aranha
ganha vida
limpando janelas

[antes do sol nascer
todos os meus heróis
cro-no-me-tra-dos
vestiram uniformes]

quem sou eu en-
qua-dra-da nessa história?

a vida escorre na avenida
e no varal de teto
uma alma pendurada res-
seca


.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

vai e vem

isso é o mar? 

ah mar é isso: 

vem
e vai
vem
e vai
vem
e vai
vem
e vai
vem
e vai

porra

que bonito isso


.

G Collection

estranho esse poema que me leem outro
avesso de uma ideia rubra
e chagosa

era tudo som
bra, descaso, sol
idão

agora reluz no ouro roubado da sua lei-
tura: poema rasurado de fofices em pink e gotas de chocolate Godiva

onde aquela lua primeira com são jorge
atravessado por garras
de dragão?

onde a fenda funda de uma foda solitária abortada na ponta dos dedos?

onde o buraco negro de dois caninos sem
corte e aposentados nos bolsos do jeans
surrado?

você levou meu poema pra passear e ele voltou
lindo!!!
exclamoso de tosa e pet's apetrechos: três bobs
nas orelhas e nunca mais se vê o pus pingando
dos ouvidos

de que serve ouvir a boca que não pode falar?

e isso faz todo o sentido:

domesticado na sua língua bárbara e besuntada
de cacau reimportado, um ex-estranho-poema
fica bem
fica mais
[fica comigo por favor só essa noite...]
                                                   
apresentável



.

terça-feira, 14 de abril de 2015

cafeomancia II

saboreia então tua lua
enquanto ela tá quente
no fundo da xícara
o futuro
é só uma invenção
da asa
para-
lítica



.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

indiferença

cedo
ou
tarde

pessoas me espremem no metrô

não

chega

perto

do aperto

que trago

dentro


.