segunda-feira, 30 de março de 2015

cv

eu não tive um filho
e a árvore que plantei não vingou
mas eu fiz um livro

quem sabe ele [se]
vinga


.

lobos

os lobos uivam porque estão separados
qundo juntos
gemem


.

dedicatória

colado ainda aos meus dedos
o teu poema
desespera-se
pra me fazer
gozar


.

carmim

roo
as ruas dos teus dedos

porque é de dente,
unha e risco
que a fome é feita


.

cafeomancia

como quem lê o futuro na borra de café
tento juntar as migalhas
do teu pão sobre a mesa

cacos
do que restou de mim
depois dos teus dentes

matemática refinada:
circular é quase sempre o tour do cavalo
solitário

horas escuras jogadas
à porcelana da xícara
sem asa
e janela

mas já passa das onze e eu nunca fui boa
enxadrista
pra me ganhar de você


.





roxura

violetas insones brotam nas pontas
dos dedos

germinam galhos secos entrelaçados
à memória
das cartas
que não trocamos um dia


roxura também é um dos 72 nomes
do desejo


.

fisiológica

a glândula pineal
tem o tamanho e a forma do meu clitóris

that´s the point


.

ondulações

que diferença faz mais um punhado de sal
no mar da minha cama?


.



quinta-feira, 19 de março de 2015

açucena

aqui jaz um ponto
coberto
de açucenas, mas

não, não há ponto nenhum
muito menos açucenas pra cobrir o que não existe

não há nada aqui: você foi embora e só o poema
da falta implorou uma flor: açucena
bulbosa é a planta que pranta sua partida, chuva
seca que desaba
dos meus olhos

você cavou um poço e me deixou sem água
açucenas
precisam desaguar em algum lugar: esse oco
ecoando flor
na cozinha vazia de fome, só os garfos miam
surdamente
pousada na boca do fogão a chaleira não pia
porque tudo é luz agora que você foi embora
e levou os escuros do meu café, antes forte
e hoje nem
amargo
ele era


.



Mirah - Special Death

quarta-feira, 18 de março de 2015

trem

é trem
isso que atravessa o túnel escuro da minha garganta
trem
de carga riscando os trilhos distantes
do jardim
do teu pescoço, trem
soprando longe e sem fôlego a harpa
suspensa
dos teus cabelos, trem
descarrilado
na califórnia da língua
presa, trem
no parque
de diversão
dos teus saberes
institucionalizados
trem fantasma
sentado à janela
de si mesmo. trem
cortando trigais, corvos
e girassóis
heterotópicos

pra onde vão os trens, minha mãe?

pra que vãos
vão os trens
que não têm

onde chegar?


.



segunda-feira, 16 de março de 2015

axioma

e aí você diz eu quero sim, eu quero o pra sempre
da sua alma
eu quero ela amarrada na minha cama, iluminando
nossos obscuros desejos
e eu digo não, não digo
nada

olha direito pra isso que em mim é lisura,
castração
polimento
transparência, o que é que você vai fazer
co'a minha alma?

virtuosa
leve como bolha
de sabão
sem pecado original, sem aresta e unha

uma alma sem ruga, corte ou cicatriz
destatuada, paranomásia fracassada,
uma alma arredondada e sem
cutículas
dobrada ao modo de toalha xadrez
só que voal
invisível

se você quer eu dou: pode ficar com ela
assim nua
assim sem cheiro
assim sem
esse bicho geográfico me subindo rápido pelas pernas
sem esperma
eterna
axiomática
uma alma pra ninguém
botar defeito
pendurada no varal improvisado entre duas la-
ranjeiras
pintadas em aquarela
com moldura e assinatura de
autor

pode ficar com essa alma que eu não tenho nada
pra fazer
com isso
fantasma me vigiando por cima do ombro direito
colado ao dorso
urubu albino bicando-me
de insônia

imponderável só o corpo que morre
e luta
e fede
e sofre
e ama sem amanhã

a alma não passa de utopia do desejo multilado


.

espelhos

alicia
se escondia sob a máscara
de coelho

e uivava


.

vestida de noite

a moça do vestido azul
escuro
caminha sobre a noite
escura
é a noite que caminha
sobre
a moça
azul
se confunde ao longe
asfalto
azul
é a moça azul vestida
de asfalto é
charpe moç
azul
asfalto
noite

a moça é só
                     acidente
na paisagem


.



segunda-feira, 9 de março de 2015

escritura

que bíblia outra poderia substituir
a ti
o meu corpo?

ninguém peca fora do seu templo

depositada então sobre mim a tua
crença
debruça-te agora sobre as folhas
desse tomo
e me toma
                  pelas costas
                  mesa
                  posta pro teu santo
garfo
e ceia

decora linha alinha as pegadas
desses apóstolos
que ainda vivem os seus des-
caminhos nos meus
desenganos, tua visão falha e
míope de milagres

bebe do meu vinho, come
do meu corpo, manjar sober-
ano das traças
ó santa traça que me come
as veias
ave-te avarum avis rara
que sou
eu
a bíblia fincada no teu colo
erva daninha imitando arco
íris

coloca-te agora: teus olhos
tua boca, tuas unhas crescidas
pra dentro entre
minhas folhas abertas ao meio
fio,  o marca páginas de água
dourado e ora
à nossa senhora das serpentes,
à nossa senhora das justas ser-
pentinas púrpuras, pede chama
clama
porque eu gosto de joelhos
dobrados
esfolados
no asfalto

estilhaça a tua medida mínima
de cacos
amarelos


é de asfalto que o inferno é feito

não há como fugir

a fé sobrevive de ausência

"a fé sobrevive de ausência"

.

Azzddine - Takassim (Harissa Mix)

limões

não há saída: por detrás
das grades só há limões


.

sexta-feira, 6 de março de 2015

experiência

eu botei uma pedra
enrolada em finíssimas camadas de algodão
úmido
o dedo indicador
pressão
sobre a pele
da pedra
ferida
o sol

eu botei uma pedra
à janela

e deixei lá germinando na primeira série do
primeiro grau

botei uma pedra muda e eles me chamavam
galinha
na oitava
galinha
da sétima
das sextas
do quinto, do inferno: vinha o nome secreto
dos meus dias

mas à noite
eles só me chamavam

e eu botei uma pedra enrolada em camadas
de finíssimo algodão
úmida
ferida
fechada
aberta
ao sol

germinosa a pedra que virou rocha, depois
penha, depois crosta, depois canion, depois
depressão, depois planíce, depois planalto,
depois montanha, depois maré, depois alta,
depois céu
azul

germinando
a g o r a s
à janela


.

ovo

é tudo calmaria e brancura
dentro
dessas paredes de concreto
meu corpo
carne germinando afeto
casca
calcinada
geme
amarelo
amarelo
amarelo
jaula
ao sol


.

desejo

à venda, 
nas vitrines, a vida 
é mais furta-cor... 

só os meus olhos 
prisioneiros do aqui fora
onde as cores são sempre blue, ou cinza, ou caro


.

classificados

procura-se:
o dono de um par de sapatos pretos, finos e chiquerrimos, da marca scatamacchia, coleção dublin, ref. 1313 (conf. pesquisa no site da empresa), com no máximo 3 meses de uso esporádico (conf. exame das estrias na sola);
o cinderelo usa número 42, tem bom gosto, anda macio e parece não ter pressa para encontrar o que procura;
os sapatos foram encontrados na lixeira do 8o. andar e recolhidos pela moradora do 817;
encontram-se bem acomodados no corredor, atrás da porta onde se lê: entre sem bater;
apesar de bem tratados, com pipoca e sessão da tarde, sofrem muito, choram com frequencia e já apresentam manifestações sintomáticas de complexo de abandono.




.

desgenerosa

às vezes mulher, 
outras homem, 
desgenerosa / quase sempre / no limite
absoluto 
onde os nervos do conceito se rom-
pem, eu / escrevo / pra foder
com o mundo



.

túmulo

náufrago dissidente
cobiçoso de ostras
deita os teus ouvidos nesse meu corpo / castelo 
de areia
e sinta as circunvoluções:
mistério marulhoso
do mar
enterrado no túmulo / oco
do meu peito



.

sem título

I
não tenho mais coração
mas eu te daria
um rim


II
ruidoso o dia
em que me quebrastes
eu toda cacos
e o meu amor
no chão
múltiplo
e mínimo


III
restos
d'um todo ir-
restituível
na memória do asfalto
o tempo
o tempo
não para


IV
escrevi no tempo
o Teu
nome
palavra viva
que vivo
decorando

V
são as palavras
o que em mim
molha primeiro