quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

aquecimento global

tocou campainha, entrou na minha vida e abriu o zíper
da mala de ferramentas
depois foi fuçando as coisas lá dentro: 'tá quente aqui'
eu sei e não entendo nada
de refrigeradores

aí me explicou tim-tim com tim-tim e era um brinde
ao conhecimento, e também ao gelo
derretendo nas forminhas quadradas
à carne crua apodrecendo
na boca fechada e suas mãos eram hábeis
co'as palavras

a vida é muito monótona quando se sabe tudo

e eu não sei nada sobre refrigeradores, mas
entendo de mãos hábeis no procedimento
cirúrgico é o mundo mágico dentro da caixa

: depois estala os dedos e é o frio
de novo orvalhando garrafas de leite
agarradas à porta
o barulho do motor novinho em folhas
de agrião & capim santo

eu gosto de aprender, mas depois esqueço tudo
e ardo de incompreensão
braseiro plantado no branco polar desse consul

frost free
é a vida muito monótona quando se sabe toda

e amanhã ele volta
pra cuidar da minha máquina de lavar poesia

.


Um comentário:

  1. Eu também lavo minha poesia. Às vezes demoro-me no olhar e outras cores surgem nos traços lavados, nas fugas que se eternizam.
    Geruza, penso do mesmo modo. O lírico está aqui, nesta caixa de mistérios que somos cada um e nós.
    Da cena cotidiana, das mãos quentes, do peito morno nada frost nada free, é parido o texto sem cozimentos estéticos, sem temperos ácidos, sem adornos fúteis. Gostei. Li, repeti e gostei. Falou-me.

    Abraços. A gente um dia se encontra na linha de algum texto. Ou numa manhã de paz, ou numa futura tarde de tempestades.
    Muitos girassóis para você. E pitangas também. S. G. Vilches (um tosco e velho poeta)

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