sexta-feira, 27 de novembro de 2015

marrabenta

uma cadeira no cio

[você queria que eu dissesse cadela né? não
eu não caibo nessa representação
estreita
e de quatro pra sua língua morta]

uma cadeira de palha
no cio
doirada porque o sol
não é metáfora
e palha ressignifica muitas coisas

uma cadeira no cio
fibras flexíveis doiradas pelo sol
suportando
o seu peso moral e uma pelúcia
larga
de lobo manco
vestindovazios
e a lua
tão longe minguando pra gente

cadelinha, você dizia, tentando
m'ajustar à pequenez
do seu sonho cifrado na minha
mudez de cadeira aristotélica

sobre mim seu peso moral repetidas vezes
assentado
roubando meus cios de cadeira empalhada

despojando-me de grãos e pássaros
secando-me na cegueira de um sol meta-
eu-fórico

cadelinha de balanço pra trás
agora pra frente: movimento vem do verbo
movimentar

a posição da cadeira ciosa
no espaço:

dança marrabenta

lua cheia



cadeira se levanta

puxa a toalha

mexe a cintura

bate os pés

e sai andando


.



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

dessas histórias que se vê por aí

ela era só uma bruxa
azul como as gralhas
noturna

mas as gaivotas de hábitos
bicavam diurnas
seu nariz
seu ventre
sua boca

até que ela passou a ser uma bruxa
morta


.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

so, so you think you can

coloco meus fones de olvido
imaginários
e aciono o silêncio

dentro

a canção
que nem era sua
mas que você dedilhava à porta
do meu banho
quente

como a água
do chuveiro
a espuma da sua voz buscando
os pelos
da minha dança

dentro
de uma canção vermelha
como vermelhas são todas
as rosas
roubadas
aos seus espinhos

eu queria que você estivesse
dentro
do aquário

mas aquela canção não era sua
só eu
era


.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

sos

se lhe oferecesse
hoje
a palavra "sangue"

você sangraria?

ou prepararia gaze e mercúrio-
cromo para estan-
car o flu-
xo dos meus ver-
sos?


.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

questão de gênesis

no verbo
nunca
houve
princípio

no dia que chegou já era a palavra-
c'obra, cobrada, infiltrada, serpente
condenada por delírios e dilúvios
ácidos
com einstein e aqueles sete anões
no molhado indecoroso da língua

e depois
arcados
os pares
em fila
rebanho de todos os nomes e sobre-
nomes, passados
a limpo por noé
humildoso oficial graduado de rg
e ss

[você não ouve o verbo, Princípia?]

aprisionada em cadeias químicas
de carbono, carbox e heteroátomos
livres

trangenesis antes ou depois
prepúcio e
precipício
vishnu suspenso na sintaxe
de pelos
e patas e
garras vermelhas de verbo
com carne

nos cascos
de gnus e hienas de pintos obscenos
encostados
nas portas
dos lares

na esquina da general ozório com a
encomendadora sera fina outro bar
chamado floresta
e fome

o princípio não ouve o verbo mudo

a gente não nasce leoa
torna-se


.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

miração

talvez tudo seja só escuridão

com velas

*

talvez seja escuridão apenas
com barco

e vela


*

talvez seja só pena
barco e a escuridão

desvela


.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

uivo

olhos que queimam
olhos

escarlate é uma cor
canina

[uivo]

como
geleia de pimenta

escorrendo pelas
coxas

postes
em cada esquina


.



quarta-feira, 7 de outubro de 2015

dança

se ela me chama
pra dançar
eu tiro meus sapatos pesados de rua
e eu atiro meus saltos agulha
e eu assalto seu corpo de serpentina
mas ela nunca
ela nunca
nunca
me chama e eu
não tiro nada
nem as botas
sujas de lama
nem
eu só atiro
pra dentro
de mim mesma
essas palavras
molhadas
de desespero



.

domingo, 27 de setembro de 2015

explicação

não sei se sabe mas tem uma entidade e vezenquando ela m'incorpora... é uma garota, de 17 anos. morreu num acidente de carro...
e ela chamava era gerusa.


.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

se do meu púbis nascessem asas

se do meu púbis nascessem asas
provavelmente não seriam azuis
furtacores como as da borboleta
ou delicadas como o são as asas
da petúnia, dos lírios e girassóis

pois se do meu púbis nascessem
asas provavelmente seriam essas

asas de dragão

mitológicas e resistentes as asas
em mim
pubiana
membranosas como dos dracos
revestidas de penugens
de ossatura rara e forte
e escamosa como barbatanas ou
pele delicada de cavalos
-marinhos
serpenteando em águas salgadas

mas se do púbis me nascessem
as-
-as
verteria
no abraço das pernas hidromel

masculina e nórdica ou peruana
pacha mama terrosa
ou taoísta imperial
mas sempre celestiosa carnadura
de asas ventrilocais

fera de pluma e hálito
quente
asas de estrela do mar
cadente

imortais se do meu púbis brotasse
: voo

e quando elas então nascerem que nasçam hoje

pra que possas cavalgar
                         
                            reptilínea minha

                                            garganta alada


.



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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

flores

...
e é por isso também que eu não molhei as flores

e me culpo
por isso amanhã e depois de amanhã
como ontem

eu não molhei as flores

delicadas elas morrem
como eu
estou morrendo
também eu não
molhei as flores

e minha pele se cola à camada
de carne morta
embaixo das unhas vermelhas


.



terça-feira, 15 de setembro de 2015

[souvenirs]

foi viajar e me trouxe um piano
de pedra

[não, obrigada, não é aqui o endereço
mudou de casa, sr. entregador]

me diz o que é q'eu faço com teu piano
se desde sempre esse
ocupando todo o espaço da sala grande,
só não maior do que a janela

um piano de pedra não divide cômodo
com outro
piano

e é na sua mudez que meus poemas
tropeçam
os mesmos poemas que antes livres
giravam pelo salão

[como alguém pode esquecer um piano
antes de bater a porta?

e eu já disse que o tubarão branco tem 300 dentes e o peso
d'um piano de calda?

e que uma vez em preto-e-branco fizemos nele uma valsa que atravessou a madrugada?
e que outras vezes nos dissolvíamos na fumaça dos baseados em noites de jazz marítimo?
e que, agora sozinha, componho em movimentos epiléticos uma estranha dança
con-tem-po-râ-nea?]

esquecida, toda a sacralidade do piano
profanada pelas flores de plástico que insisto em molhar:
chuva de canivetes sobre o canteiro de papoulas brancas e
raras, camuflada entre as teclas paralíticas

me diz sr. entregador de que vale um piano
sem asas?

caixa de música oca, túmulo de melodias
mortas
onde uma bailarina torta
descansa                                  o tutor


.




sábado, 12 de setembro de 2015

[das contenções]

todo o passado contido na fotografia
toda a história contida no monóculo
toda a felicidade contida na moldura
todo futuro contido na palma da mão

o teu fogo contido na chama da vela
minh'água contida à borda da piscina
a música impossível contida no piano
a alma das árvores contida no bonsai
o desejo contido na mensagem cifrada
[do telegrama]

o corpo contido na abstração do nome
teu nome contido num sussurro solitá-
rio contido na rede azulada da nuvem
chove a conta-gotas
cápulas de lamento:

uma deusa sufocada no meu chacra
inferior

não é privilégio dos versos a prisão
do poema

fiéis à liberdade, só lágrimas revolucionárias transbordam


.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

[ampulheta]

como controlar em mim essa pulsão
de destruir
com os dentes tudo que me alimenta?

e o mais difícil é encontrar o ponto
exato em que a torneira não queima
nem esfria:
o ponto exato em que a àgua jorra
na temperatura
da saliva

minha mãe me dizia "filha toma cuidado com versos longos e des-
cabidos" eles enroscam nas pernas
e encurtam caminhos

mas aquilo nem era um verso, era
um fragmento, uma melodia colada na boca do dylan e eu só tinha
16 e uma gaita
porque os dezesseis são infinitos
e passei o resto da vida amarrada
atando as pontas dos teus versos

sonhei com eles essa noite enrolados no meu pescoço, tão brancos
lenço de voal descendo pelas costas, dando voltas à cintura
agarrados às canelas

e eu podia, sim eu podia repetir
o resto dos meus 16 ouvindo you must leave now / take what you need / leave your stepping stones behind / forget the dead you've left
they will not follow you...
mas a pulsão
a torneira e a ampulheta
de dopamina


como controlar o desejo de quebrar dentes dos versos selvagens,
baby blue?


.

domingo, 6 de setembro de 2015

ABBA - THE WINNER TAKES IT ALL - LEGENDADO (PORTUGUÊS-BR)

piano flanando no mar

são termômetros isso que você segura firmemente
entre as pernas?

no mar tudo é azul benzinho e a inocência
tem cheiro de sangue

ontem abri suas cartas daltônicas com a lâmina inox dos meus dentes
tortos, de liquidificador:
purê de batatas e clichês de versos amenos
milk-shake de banana
e uma vontade enorme de pular da janela só
pra não ter de engolir sua sopa homogênea de le-tri-nhas

insensato não dormir de olhos abertos
quando um piano branco
[de duas toneladas] afia
as teclas, mas

você não entende de pianos de cauda,
então preparo um banho de acentos e passo mercúrio-cromo
nas suas feridas
porque sou boazinha e tenho essa cara um pouco infantil
duas covinhas nas bochechas
e alguns dentes tortos

é um termômetro isso aí de você apertado em neoprene?

no mar benzinho tudo é comida
de peixe

e não se pode medir a fome do animal
que vive co'a boca cheia
d'água


.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

[desconhecido]

sozinha
escrevo o poema despida
porque é assim que faço
o amor

perscruto braços, pernas e ouço
meu coração comprimido entre
os dedos, seca
e ereta como saguaros fincados
às costas

sonora, o longo deserto
que se fez altura e pele
mexicana. de ascendência escorpião

me disseram pra não confiar
nos escorpiões com relógios
de pulso
que chacoalham os guizos do tempo
quando o tempo, ah! o tempo
essa cobra
cascavel se esticando sinuosa
sobre um agora infinito e im-
pronunciável,
teu nome na aspereza dos dias
dos meus dias

porisso busco esses nós dissonantes
na tua língua noturna e invernos(s)a
névoa perseguindo a trilha de vaga-
lumes raros:

zona xamânica, cosmologia mágica
alunada pela tocha sob plexo solar
aquela de número nove,
hipólita,
belicosa no seu cinturão
de água,
a deusa lunar que à calada da noite
nos habita
amazonia, Poesia.


.



terça-feira, 1 de setembro de 2015

[...]

... e é também das flores sem espécie que me irmano mais porque carnívora às vezes e outras, não; mas aquática sempre, apesar de cacto catalogado no livro de biologia das coisas inaminadas. mas é bom que se registre que já fui boa, boca, já fui vadia, fui pernas e botas vermelhas. mas talvez que tudo isso tenha me cansado um pouco dos vasos e das paredes
voal é sempre melhor do que paredes
nos azuis eu enxergo melhor e você também me parece
marinho
não como corais, mas como fundo no fundo dessas águas
marinho como tinta de caneta bic quando estou-
ra no bolso da camisa branca desenhando um coração real
ainda assim preferiria que estourasse na minha boca e
e então todas as palavras que penso já nasceriam livros

mas tudo isso - claro - só é possível porque tuas águas, tuas águas intempestivas me arremessando junco pra lá
e pra cá na página copo-de-leite branco em botão, não, são três botões ainda fechados em senha enigma críptico de acesso ao mergulho. e você nem se lembraria mas eu sim: eu me lembro de esperar e foi em 1963 nas minhas terras mexicanas e eu esperei até que o elvis tivesse coragem de novo de mergulhar daquela montanha e ele pulou, pulou em preto-e-branco e o meu corpo mar molhado se tornou canção latina e talvez tenha sido isso que corrompeu de latinidade meu bulbo lituano...
é nessa desidentidade que mais me identifico com você
que não sei quem é
mulungu régio, esticada sobre a cama tua floração rubra de sorrisos e
quer saber? acho mesmo que foi ali entre a hera e a relva que te encontrei mais bonito porque verde também são os azuis quando se misturam assim ao amar-
ela é a cor dos girassóis
esse tipo de flor estranha da espécie que tem fé
e são fiés à luz
e nunca nunca profanam o escuro encarando-o
é sempre de olhos fechados que mergulho
nos teus olhos
me demoro um pouco mais
como num banho
quente

.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

[do que (só) passa quando não se passa nada]

hoje digo não à limitação do verso
livre
quero estender-me prosa sobre a cama sempre tão mar pro meu sono apertado de ostra.

eu esperei pelos teus versos.
e, em algum momento breve dessa espera, me peguei sorrindo. pouco. porque breves também têm sido meus sorrisos desde que perdi meus dentes
de leite. desde então só sorrisos
acompanhados das mãos em concha que pra abafar o canto das sereias tecelãs de ondas
em renda e voal. dessas ondas do de-dentro da concha.
e nem bem digo isso, rio alto com essas imagens sonâmbulas invadindo meu texto sempre tão aço afiado nas pontas.
apagaria tudo se pudesse, mas hoje me permito o prosear:

esperei teus versos com um sorriso colado à xícara
de chá. e eu que nem tomo chá se não provocam alucinações, sorvi
hamamélis e calêndulas
lírios enfeitavam a mesa
e esse estranho sorriso pingando no pires.

esperei pelos teus versos e
botei meus olhos pra secar com o vento na janela
mas esse aguado sempre persistindo e forçando os cantos

e eu cantarolei um pouco até mas só
porque no radinho de pilha imaginário algum roberto ou carlos dizia que seria natal em
agosto
caso você chegasse

e o último presente do qual ainda me lembro foi um verbo
no passado
e por falar em verbos, os meus estão tão desacostumados ao infinitivo que talvez eu devesse abrir as gavetas e tirar as bolinhas gastas de naftalina e deitar água de colônia, sim alfazema!, por cima de todos eles

me sinto um pouco idiota assim traindo a seriedade da poesia com essas flores no vaso e usando esse vestido cuja alça propositalmente finge equilibrar-se no ombro
esquerdo

ah se eu pudesse entender o que me faz sorrir nessa espera pelos teus versos, talvez
não precisasse olhar no espelho a cada vez que passo por ele ou buscar uma palavra nova dessas que nunca usei no dicionário
e seria tão bom se ela rimasse com o teu nome. o teu nome que exige tanta altura da minha língua
assim, à janela, soprado ao vento, o nome que como
não como quem come mel
mas abelhas

não acredito que escrevi isso: é a primeira vez
que como abelhas
num poema
assim
tão prosaico

sorrio
e por um momento breve me pego pensando se não foi uma pena termos nos separado tão cedo, antes mesmo
de nos encontrar

sábado, 29 de agosto de 2015

[abstinências]


desculpa se piso assim
nos pés
dessa tua palavra
alta

desculpa se meus saltos
esmagam
a fumaça
dos teus signi-
ficantes

desculpa se peso
sobre
os cílios
da tua ideia rara

desculpa meu des-
concerto
nessa manhã des-
culpa

se machuco o corpo
sinuoso
da tua voz
ainda nos vãos
entre móveis
da casa

desculpa se finco
os dentes
na tua garganta
pra tragar
o silêncio
da minha ausência
de sentido

na tua vida

.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

[do lado de dentro]

do lado de dentro,
o que restou fora:
você

debruçada à janela, espólio
do amor
t'encaro agora aprisionado
no real

movimento-me felina
pelos cantos amarelos
da sala de estar
onde estivémos
- só -
tocando
as trincas que riscaram
a lisura
do desejo

lambendo
as fendas
do lado de lá dos teus ombros
onde escrevi em azul metileno
o meu nome mudo na tua boca

o tempo parou desde que você
desmontou o relógio de parede
procurando liberdade
nas rodas dentadas da engrena-
gem dos dias

faltam-me caninos pra morder
essa falta que se avoluma
áspera sobre o dorso inexato
das coisas

você nunca esperou pra saber
como é macia a gema
das pedras rangidas na dor

do lado de fora você come
o mundo
e meu mundo ainda é você

faminta à janela, só
migalhas de mim
esperando pássaros
dissidentes



.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

[me esqueça]

se quer que eu esqueça
recolha
de uma vez por todas todas as palavras que deixou espalhadas pela casa                         
todas as palavras 
que escaparam da mala 
cheia
que levou da minha vida
vazia

[como quer que esqueça
se tropeço em risos esgarçados 
ecoando ainda pelos corredores
frios dos meus ossos?]

não quero vê-las penduradas
no box do banheiro
coladas às minhas calcinhas
que nunca nunca
                 nunca
                 secam

nem as quero perdidas
entre lençois e fronhas
ou embaixo da cama
espiando meus sonhos
mínimos

porque mínimos são os cômodos de uma vida onde já não cabem mais palavras esquecidas
ou compostas como o cachecol que atávamos ao pescoço 
meuamorprasempreeuteamo

se quer mesmo que eu esqueça
lembre-se ao menos de voltar
pra buscar tudo o que esqueceu:

uma trouxa que te espera, 
pesando amontoada,
junto à porta da rua


.

sábado, 15 de agosto de 2015

[precipício]



a música, sempre
a música
calando
a poesia
dos meus dedos
estrangulados

nós gastamos
todas as xícaras
pesando
insônias
sobre o que restou de asas

eu procurei você
       nos cantos
                     gregorianos
e esquinas
do meu corpo

no hálito de tuas palavras
pelas longas avenidas
das minhas pernas
ardidas
de frio

procurei tua luz
no molhado
do entre-cílios
e na raiz
dos meus cabelos

você nunca soube

procurei procurei procurei
tua voz ressoando
no meu ventre
promessa
primogênita
melodia rubra
precipitada
no azulejo
escuro

do banheiro

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Stone Temple Pilots Hello Its Late





.

[frestas]

tem dias que só
queria estar aqui
nessa casa azul
aonde você vem
sorrateiramente
me espiar
pela fresta
com a desculpa 
es fa r r a pa da
de que vem
se certificar
de que não 
ficou
a porta [ou a válvula 
do gás] aberta 
a luz 
ainda
acesa
no meu sonho
o poema
sem terminar
o livro
no chão
a música 
escapando dos fones
[se alguem por mim perguntar
diga que só vou voltar
quando me encontrar]
por aí
tá tudo bem
mesmo quando não
estou aqui
te esperando


.

você se foi e as palavras estão





.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

você se foi e as palavras estão

assumo o fracasso desse poema
amante da teoria
                 ressentido da palavra
                                     partida

desde que você se foi todas as pa-
lavras estão
partidas

e se recusam a participar do salão
de paris e dos
domingos em
família

desde que voce se foi o meu ah
deus o meu ah
deus o meu
adeus

20 anos é um bom lugar pra morar
mas na casa dos 40
as bitucas de cigarro
não se desintegram facilmente nos
cinzeiros

paris, minas, esquinas: corredores
que levam ao lugar nenhum
de uma banheira sem água
ou janela

você se foi e todas as palavras estão
de partida
fraturadas
nem minhas mãos podem me fazer
o amor
doem
desde que você

desde que
partiu todas as palavras se foram
pra dentro ou
fora
de si, as palavras em fuga: adieu
au langage, monsieur
godard

o poema amargo roça minha boca
de café e fumaça
de trens

desde que você se foi
parti
a garganta em cesária
rouca

eu gastei os meus dedos contando
claustrofobias

na casa dos 40
todo parto é arriscado
e as bitucas de cigarro
desintegram no papel

desde que você se foi só
itinerários
do silêncio
perseguem
tua partida


.

desfocados

depois que você se foi
                  tudo
perdeu
sentido
e eu vi
o que só o escuro pode restaurar:

a verdade nua de todas as coisas


.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

lua azul

e quem me vê no longe
caminhando assim
pensa que'stou nua
por debaixo das roupas

não sabe que entre a pele
e o algodão
um canteiro
de girassóis imaginários
me incendeia

.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

penhora

minha mãe penhorou meu umbigo
à uma roseira
meus olhos, à porteira
meus pés, penhorados à estrada
inteira
acimentado às costas: um aviso
de execução
impenhorável só a boca
meu bem imóvel
de poeta
de todo resto despertencida
emprestada
assegurada
endossada
de meu apenas o que não
me pertence:
a sílaba fugitiva
o som que me escapa à grade
do dente
[eu não tenho dentes]
me diz, juiz, o que pode
esse corpo endividado
a não ser dizer mil vezes
não?

segunda-feira, 20 de julho de 2015

watsap

sei que não devia te contar isso
mas ontem transei com alguém
e juro que pensei
muito
muito
muito
profundamente

em você


.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

canhoto

é canhoto esse poema que me escreve hoje
a direita sempre amputada
                        no corpo da vida
faz da esquerda via obrigatória
                        sentido único
                        luz de neon
                        pentagrama desenhado na porta

as crianças perderam os dentes
e latem
a falta de caninos nas gengivas afiadas
onde unhas / encravadas / não param de crescer

pequenos cadáveres que insistem em viver ao rés
dos dias

memória espetada
               na coroa de lata
               prego martelado sete vezes na língua

eu sempre soube:
há um crime suspenso
                     em todo lenço
                     atado ao pescoço


.



sexta-feira, 12 de junho de 2015

a protagonista

ela encontrou o primeiro-amor-da-sua-vida
e perdeu; aí encontrou o-amor-da-sua-vida
e perdeu; mas encontrou o-grande-amor-da-
sua-vida,
perdeu

então,
sem saber o que fazer com uma vida só sua,
começou a viver

.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Maria CALLAS sings Carmen HABANERA in covent garden

desse dia que me comeu hoje

o dia amanheceu
como amanhecem os pães

sobras do ontem esse hoje
murcho
e marrento


*
eu sou só
     uma menina
             brinquedo
nas mãos 
da vida


*
corpo-túmulo
úmido
          de vida


*
sinto

experiência única
de existir

entre dois mundos 
paralelos


*
cuidado:
pessoas 

com igual tumulto
                 na alma

a poucos metros
de distância


*
só 
você sabe o que eles sentem

você sou eu


*
eles falam de cigarro e cachaça

burburinhos na sala 
ao lado

esposa
cachaça
barriga solta e 
vermes

gengivas e dentes riem suas cáries

: a verdadeira poesia da vida


*
aguardo a entrevista
quem perguntará o meu nome?
a senha de acesso ao meu ser?
somos só
           uma letra g
           atropelada por sílabas


*
um abrigo
uma obrigação
mulheres 
com úteros careados
                   como eu


*
ela sorri
e planta um sol dentado
no meu coração

de que matéria são feitos os sóis?


*
pulsam as paredes

"você já trabalhou isso?"
 o quê? 

"a morte"

todos os dias 
das 8h às 8h da manhã


*
"escolhi a vida"
ou ela escolheu?


*
"eu fui bancária"
e contava os dias em notas
de cem reais

a vida passava rápido
                        sem tempo
                        de acontecer


*
"professora"
respondo à estagiária de psicologia
que tem a cara de uma ex-aluna
                                     perdida
                                     no tempo


*
se é dia por que ainda todo esse breu?


*
ela diz "agora"
e o relógio começa a correr
das horas


*
escaldo meus pés
             num balde de gelo
             imaginário

enquanto espero 
uma estagiária de 20
decidir a vida
             dos meus 40


*
por que o pudor de dizer
o verso que
            brado
os sapatos perdidos
                 no asfalto
                 sujo
                 o verso
de sangue e nada:

uma morte recém-
nascida
enrolada no berço 
da poesia


assinale o x
(  ) branca
(  ) negra
(  ) parda
(  ) azul com listras e/ou bolinhas vermelhas

não há diferença de cor aqui:
                                      todos somos negros


*
ela diz que vai demorar um pouco
mas meu tempo é outro
730h 
distribuidas semanalmente

no canto da sala
uma salamandra muda 
de cor


*
ladradura infernal ecoando no silêncio


*
talvez seja vesga
talvez não
          não me olha
conversa olhando fixamente para um ponto 
                                              logo acima do meu ombro
direito

penso que pode estar falando diretamente 
com meus guias



*
o meu nome é
geruza

oi geruza


*
elas são tão velhas
que crimes cometem as velhas?


*
olham-me e abaixam a cabeça
não é respeito
       é compreensão


*
eu + todas 
as mulheres do mundo
limpando privadas
                e bocetas
                cagadas
                por homens


*
duas ou três lágrimas sempre me acontecem quando ouço:
1. joni mitchell
2. alguns versos / bêbados  / de amigos
3. o silêncio de minha mãe
4. a voz metálica do condutor dizendo

"estação liberdade
              desembarque pelo lado direito do trem"


*
em tempo:
que crime pode ter cometido alguém que usa uma bolsa da hello kitty?


*
procuro a palavra
mas velado é o coração dos dedos

continuo piando apenas 
                           dentro
                           do galinheiro



*
me chamam
não ouço e também não vou responder

sagrado é o nome
                   pelo qual atende 
                   meu coração



*
"se relaciona com homens ou
mulheres?"

preferencialmente 
                            com gente



*
um pássaro da raça dos possíveis
metálico
pousou na minha árvore
                            genealógica

[preciso me lembrar de colocar
óleo nas engrenagens]


*
um coração não-humano
pequenino como o de uma galinha
bate
desconcertado
e com febre
no atacama 
do meu peito



*
quatro paredes vazias de quadros
uma porta
[fechada]
                          linda!


*
uma tragédia se avizinha
e eu sinto 

vontade de fazer xixi


*
but I said:
no
no
no


*
box 02
o nome dela é X e ela não pegou
na minha mão
mas sorriu

de que matéria são feitos os afetos?


*
agouro-agora
ela me deixa só

eu posso chorar mas estou seca


*
a vida é essa insônia constante 
dos dias  


*
só a mim mesma 
confesso-me
aos outros sou pura

exibição


*
quero esvaziar meu corpo dos outros
e ser só 
experiência

                      mas mister é fazer xixi


*
ela escreve bisexual com 's' a menos
não me incomada
eu quero mais é que as palavras
se fodam


*
por favor: há um lugar em que eu possa libertar
o deserto?


*
passa a bolsa
              da hello kitty
              cheia de crimes contra a humanidade

como reintegrá-la à sociedade?


*
hoje não quero faca nem fome
só a paz
       dos suicidas que se matam
sem


*
ela deixou a porta aberta mas
tenho medo
dessa tal 
liberdade

[só pra contrariar]


*
tenho de me lembrar de tomar boldo
o bandido mencionou que é bom
                                    pro fígado

ecos da sela ao lado


*
somos criminosos tão comuns que
passaríamos 

incólumes

não fossem os crachás 
incendiando o peito



*
cinquenta e duas pétalas tem 
o girassol mais amarelo

e isso não tem 
importância nenhuma


*
capturado 
é uma palavra feita com as pintas
                                do leopardo


*
aprisionada num deserto infinito ao qual não cabem grades
aprisionada na liberdade perpétua do pensamento

mexicanizo-me

são tantos e eles cantam

meus pés tamborilam
e dentro um exército de cantores colombianos tocam flauta nas esquinas
dos meus ossos



*
na hora do aperto

o mais difícil de segurar 
é a vontade 
de fazer xixi


*
recrio uma lituânia
                  nunca vista
no quadro ausente 
                 de um box
                 de no. 2
2x2
é a medida do horizonte se abrindo
                                       sob 
                                       meus pés


*
hilda
o que aconteceu com você para ter enlouquecido mais 
do que eu?


*
vidro líquido escorrendo pelas pernas

gozo


*
fila

na minha frente: um cego
                           renovando a CNH

difícil escrever poesia
                         rimando com
                         burocracias


*
H6042
entre uma senha e outra
escrevo 
o verso

intervalos poéticos
entre inspiração e
               expiação


*
com pressa e 
faz-de-conta
a menina-brinquedo
atravessava a avenida do estado

segurando apertado
                 no gradeado de dedos
                 um centelha faiscante
                 pleonasmo

de liberdade



[ain que poeminha fofo]



.
                     




                   








terça-feira, 9 de junho de 2015

XL

e não seria de estranhar
se perguntasse à Morte: qual
o teu nome

e ela respondesse apenas
Vida


.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

pegajosa

pegajosa essa vida colada
aos meus dedos
tutti-fruti
é o cheiro de uma vida
sem sabor

cor-de-rosa é a cor
dessas rosas secas
guardadas na arca

memória

uma vida que não me abandona
pegajosa
uma vida que não posso abandonar
pegajosa
eu
nos dedos da vida


.

animal

farejo
restos
de uma memória

de uma memória
de águas
sobre os lençóis

farejo teu corpo de chuva
         teu corpo árido
                       de chuva
desabando
                    e escorrendo
sobre o telhado
da minha ideia

raridade
é o cheiro que vem de longe
é o cheiro forte que vem
                             do longe

farejo
farejo
essa memória
que nunca deixa

farejo essa memória que não
me deixa
que não me deixa
que não me
                 deixa
que não


.

acordes

enfiava dedos nos meus cabelos
como se fossem cordas
de uma guitarra

era assim que nos amávamos:
fazendo música


.

mandamentos

havia loucura naquele dizer de açoites
ele disse: "deita
e morre"

havia loucura naquela obediência cega
porque eu deitei
e morri.


.

tons

qual é a cor da morte?
será cinza?
          a cor da morte
será cinza como o pó
do que foi
verde?
azul
vermelho como sangue que corta as florestas de dentro?

será cor de escuro?
preta ou branca a luz que ilumina os olhos
da morte?

qual é a cor da morte?
será que a morte tem a cor justa
da vida?


.

nuvens

tinha uma nuvem no meio do caminho
no meu caminho tinha
uma nuvem

[nuca me esquecerei dessas nuvens pesando nos meus olhos
já tão fatigados]

aí choveram

e pronto


.

e eu entendo

viagens querem nascer
             nos meus pés
descalças
de medos movediços
cadarços
                e pedras

espessa é a via vermelha
que liga o útero
                         à ideia

viagens querem nascer nos meus pés
descalços e
eu entendo
a virgindade dos viajantes porque provei
atalhos
de uma mente confusa
e conturbada
por flashes
              e táxis
              amarelos

viagens querem nascer e eu
entendo
de folhas e unhas
e sei ler as horas vagarosas
                coladas no dorso
do sol

viagens querem
e meu cajado
tem a forma de um fórceps
          turquesa
          é sempre mais
          do que uma cor

eu entendo
eu entendo
eu entendo


calcanhares grávidos de caminhos
apagam as pegadas
             que ficam
                                   pra trás


.



.

sussurro

eu ouvi dizer que você pode voar
como uma águia
eu ouvi dizer que você pode nadar
como um peixe
eu ouvi dizer que você pode correr
como um tigre
eu ouvi dizer que você pode crer
como ninguém


.

domingo, 7 de junho de 2015

inverno

faminto ele
suga meu seio
           vazio
           em vão
           todas as palavras secaram

no inverno
só os ossos
       sobrevivem


.

primavera em sépia

quem de nós poderia imaginar
que essa minha terra de dentro
fosse tão acolhedora e fértil
que fizesse multiplicar e
crescer
imenso
o deserto que me plantaram no peito?


.

ar

o meu peixe dourado
decepcionado
              mergulhou
pra cima
e morreu
afogado


.

borboleta

era uma vez
      uma borboleta
sem asas
e sem borboleta
              ainda


.

água

eu preciso
eu preciso
me
pescar

açular em mim
essa fome
essa fome
       de anzol
            vazio


.

medo

eu só queria dizer
         que sinto
         que sinto
muito


.

Joni Mitchell - Clouds (1969) (Full Album)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

a coxa

tenho dois nomes e sobre-
nomes cruzados
ambos tatuados
                         no fêmur

indestrutíveis
gestados no colo anatômico
ligam a cabeça ao corpo fe-
moral

não podem ser vistos sob longa cicatriz amarrada na coxa
direita

apenas eu e o xamã tatua-
dor olhamos nos olhos
azuis cobalto
desses nomes que me carregam sobre as múltiplas costas
montanhosas
de suas letras

esticados sobre extensa linha àspera dois nomes próprios
impróprios ao toque mas expostos
à nudez de dentro
nomes que carrego
com a firmeza possível ao coração
descalço
neurônios machucados de pedra
e espinhos no caminho das horas

eu levo esses nomes comigo
e quem me chama
chama-os também
somos três vivendo o mesmo
corpo de sacrifício

articulado
e dividido

às vezes me esqueço

só dói quando ando


.

sábado, 16 de maio de 2015

caminantes

é preciso estar em paz com a morte
como quem desliga a tv e se deita
na noite
     sob edredons lilases
                           e quentinhos

é preciso fazer as pazes com a morte
calçar-lhe bem os pés
amarrar-lhe com nós
                            os cadarços
pavimentar com atenção redobrada
ruas e esquinas

é preciso dar-lhe as mãos
muro alto e branco acompanhando
                               nossos passos
                               em silêncio

é preciso estar enlaçado com a morte
para que ela não
                    precipite



[com amor, hoje, para meu tio Ailson]
.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

escola de condição

era em calor aquela aparição
mornura
de dois acostamentos que se
colavam

nenhuma pedra absoluta
não fosse absolutamente
necessária

na estrada tudo são
passamentos até o amarelo das linhas: amar
-elam e
passam

somente poetas veriam girassóis onde só há
tempestades
e marcas longitudinais retrorrefletoras des-
contínuas e adjacentes

mas poetas são cegos
                                     e não veem nada


.


dispositivos móveis

sozinha
no canto do verso


.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

o que digo a alguém quando digo a alguem: ei te amo

bourbon

bitucas
de cigarro, lençois futuristas
discos de vinil sem encarte
a vida
espalhada pelo chão da sala

20 anos
de fragmentos

e meu discurso mais amoroso:
'eu não sirvo pra falar de amor'



.
[explicação que ninguém pediu: esse poema foi escrito com uns versos roubados, mas por uma boa causa :P ]

sábado, 25 de abril de 2015

condensação

compressas de calêndula e maracujá
na língua
receita antiga contra afta,
inflamações e pequenos
                     gnomos
                     obsessores

cuidados extras para uma língua in-
capaz de fazer lar

a samambaia morreu encharcada e o peixinho dourado
seca
sem as bolinhas diárias: poundianamente meto o nariz
no vidro e observo
[dentro do aquário]
                 o ser do peixe-samambaia
                 esvai-se

meu deus... é assim que se ensina a fazer poesia?


.



.

madrugada insana ou very important person

madrugada insana
dessa tua festa que entra no meu quarto
invade meu sono
                   o meu espaço da cama
acorda meus músculos
                   o lado direito do meu corpo
essa tua festa que eu não quero
                                 [e nem pedi pra]
                                  ouvir
que escorre pelos vãos mínimos da janela
que penetra todos os poros da parede
que viola os buracos do meu pensamento
essa tua festa feita de dentes
                                 e sorrisos vip's

essa tua festa ao lado
que acorda e me lembra que há festa
e mais uma vez eu não fui convidada


.

mma

dilatam-se as veias do meu pescoço
formiga-me o frio por toda espinha
as palavras
encurralam
-me

as palavras armadas
me colocam contra
a parede

as palavras esmagam meu nariz
e ele sangra

[higienicamente meu nariz sangra em branco]

com quem estou brigando?

COM QUEM ESTOU BRIGANDO?

por favor me ajude
                                   a perder


.

plumas de ganso

eu invoco a musa:
ó magnânima musa das suavidades
inspira-me com doçuras!

inspira-me à voz sem veias dilatadas no pescoço
inspira-me à voz de passos compassados e lentos
inspira-me à voz em tom menor e silencioso
                                                      de suspiros
                                                      e travessuras
                                                      de travesseiros
                                                      a. herchcovitch
permita-me, musa
um único verso que valha a pena
um verso de escolha não pequena
um verso adaptável às aspas atemporais

senhora musa,
museifica-me!


.
                           

baba e bobó

meus poemas estão fadados
ao grito e
eu só queria escrever sobre

papoulas
baba de moça
bobó de camarão
rendas e camafeus

mas a voz me sai fora
do tom
demasiado combativa

meus fantasmas não morrem
a vida assim eu luto com eles

batalha perdida

eu brigo sozinha e se ganhar
ganho
de mim mesma
                         então perco


.


delicada balbúrdia

sonho o dia em que minha voz emerja docemente
do mar dessa poesia
                      aí lagoa branca e branda com patos
nadando felizes pela manhã
                          patos felizes que viram cisnes
                                             no mais tarde, patos
                          ou cisnes
                          que importa?
                          se eles bicam
                          a porra da minha língua
                          se eles bicam a porra doce
                                                           ou salgada
da minha língua
fazem campo minado
                     cemitério de covas
                                        cheias
                                        de sangue e penas


.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

parto

eu pari uma pedra
            uma pedra irregular
            e nada
               preciosa
            uma pedra

lava
de vulcão
endurecida no gelo
das minhas entranhas
             uma pedra
                     estranha
             estrangeira
negra
             uma pedra
                     gestada
             em meu útero
             branco
uma pedra
             muda

grito
riscado à retina
            uma pedra
                    herdeira
do seu vermelho
vivo
memorial

herança
lembrança ardente
armadura
incandescente
               outra
               a pedra
               porosa
               extrusiva
ígnea
[dentro]
trilha
rude e ruidosa
da pedra
     preta
     que parte
pelos caminhos
     do meio



.    

quinta-feira, 23 de abril de 2015

dourado

dourado
um peixe impresso
em notas
      azuis

tatuado de escamas
e enigmas
cioso
o peixe passeia no caos
desporto

mar aberto

dourada garoupa des-
nuda
mergulhosa de corais
vendada no demoroso esticado dos fundos

um peixe
      raro
      imaginário

azul
colado ainda nos dedos
tocaiado em dobradiças
de pernas, vacuoso
em memórias de sal

não houve
       [ruídos]
trilhas azuis

caminhos que se fazem líquidos
transparências in-can-
                                    decentes

o peixe investe no movimento
porque não há atalhos para o si-
lêncio


.



.

cachoeiras improváveis

como não me entregar àquela
cachoeira na sola dos teus pés?

eu queria era morrer afogada de descaminhos e nunca mais voltar pra casa...


.

Alice In Chains - Rain When I Die

terça-feira, 21 de abril de 2015

dedos leves

tatuei
o nome de uns santos
nas pontas dos dedos
pra me lembrar que não devo pegar nada de ninguém

mas pra ler teus versos assim tão disponíveis, eu uso
luvas


.

a carne do que pode ser

leio, re
leio, re
leio
difícil o dizer que é corpo
se pra mim o poema,
meu
e assim o visto rente à pele
peça íntima do meu desejo
delicado acessório em S
que me roça a roça oculta
no debaixo
     da língua
          o que não digo
semente d'um grito úmido
enrolado em algodão
e germinando no silêncio


.

drenagem

drena-me, senhor, esse mar
da língua

esse mar

apurado
de peso raro
sal que m'embota a poesia

seca, senhor, com teu sol
o manto,
istmo de terra
que liga a língua: penín-
sula do meu corpo a teu

etéreo ser         no outro

deixa que o junco espere
a mina brotando no céu
da boca
chovendo sobre papiros
palatais
doçura em s
cristalina em ele
transparência em ene
poesia repentina
que me alaga em ze-
lnys


.


domingo, 19 de abril de 2015

sexta

o homem tirou o pinto pra fora e mijou
encima da macumbaria: duas taças e o espumante

a namorada bebeu tudinho
depois cuidou com carinho
                                                    das palavras
                                                     inflamadas


.


sexta-feira, 17 de abril de 2015

gibi

o homem-aranha
ganha vida
limpando janelas

[antes do sol nascer
todos os meus heróis
cro-no-me-tra-dos
vestiram uniformes]

quem sou eu en-
qua-dra-da nessa história?

a vida escorre na avenida
e no varal de teto
uma alma pendurada res-
seca


.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

vai e vem

isso é o mar? 

ah mar é isso: 

vem
e vai
vem
e vai
vem
e vai
vem
e vai
vem
e vai

porra

que bonito isso


.

G Collection

estranho esse poema que me leem outro
avesso de uma ideia rubra
e chagosa

era tudo som
bra, descaso, sol
idão

agora reluz no ouro roubado da sua lei-
tura: poema rasurado de fofices em pink e gotas de chocolate Godiva

onde aquela lua primeira com são jorge
atravessado por garras
de dragão?

onde a fenda funda de uma foda solitária abortada na ponta dos dedos?

onde o buraco negro de dois caninos sem
corte e aposentados nos bolsos do jeans
surrado?

você levou meu poema pra passear e ele voltou
lindo!!!
exclamoso de tosa e pet's apetrechos: três bobs
nas orelhas e nunca mais se vê o pus pingando
dos ouvidos

de que serve ouvir a boca que não pode falar?

e isso faz todo o sentido:

domesticado na sua língua bárbara e besuntada
de cacau reimportado, um ex-estranho-poema
fica bem
fica mais
[fica comigo por favor só essa noite...]
                                                   
apresentável



.

terça-feira, 14 de abril de 2015

cafeomancia II

saboreia então tua lua
enquanto ela tá quente
no fundo da xícara
o futuro
é só uma invenção
da asa
para-
lítica



.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

indiferença

cedo
ou
tarde

pessoas me espremem no metrô

não

chega

perto

do aperto

que trago

dentro


.

segunda-feira, 30 de março de 2015

cv

eu não tive um filho
e a árvore que plantei não vingou
mas eu fiz um livro

quem sabe ele [se]
vinga


.

lobos

os lobos uivam porque estão separados
qundo juntos
gemem


.

dedicatória

colado ainda aos meus dedos
o teu poema
desespera-se
pra me fazer
gozar


.

carmim

roo
as ruas dos teus dedos

porque é de dente,
unha e risco
que a fome é feita


.

cafeomancia

como quem lê o futuro na borra de café
tento juntar as migalhas
do teu pão sobre a mesa

cacos
do que restou de mim
depois dos teus dentes

matemática refinada:
circular é quase sempre o tour do cavalo
solitário

horas escuras jogadas
à porcelana da xícara
sem asa
e janela

mas já passa das onze e eu nunca fui boa
enxadrista
pra me ganhar de você


.





roxura

violetas insones brotam nas pontas
dos dedos

germinam galhos secos entrelaçados
à memória
das cartas
que não trocamos um dia


roxura também é um dos 72 nomes
do desejo


.

fisiológica

a glândula pineal
tem o tamanho e a forma do meu clitóris

that´s the point


.

ondulações

que diferença faz mais um punhado de sal
no mar da minha cama?


.



quinta-feira, 19 de março de 2015

açucena

aqui jaz um ponto
coberto
de açucenas, mas

não, não há ponto nenhum
muito menos açucenas pra cobrir o que não existe

não há nada aqui: você foi embora e só o poema
da falta implorou uma flor: açucena
bulbosa é a planta que pranta sua partida, chuva
seca que desaba
dos meus olhos

você cavou um poço e me deixou sem água
açucenas
precisam desaguar em algum lugar: esse oco
ecoando flor
na cozinha vazia de fome, só os garfos miam
surdamente
pousada na boca do fogão a chaleira não pia
porque tudo é luz agora que você foi embora
e levou os escuros do meu café, antes forte
e hoje nem
amargo
ele era


.



Mirah - Special Death

quarta-feira, 18 de março de 2015

trem

é trem
isso que atravessa o túnel escuro da minha garganta
trem
de carga riscando os trilhos distantes
do jardim
do teu pescoço, trem
soprando longe e sem fôlego a harpa
suspensa
dos teus cabelos, trem
descarrilado
na califórnia da língua
presa, trem
no parque
de diversão
dos teus saberes
institucionalizados
trem fantasma
sentado à janela
de si mesmo. trem
cortando trigais, corvos
e girassóis
heterotópicos

pra onde vão os trens, minha mãe?

pra que vãos
vão os trens
que não têm

onde chegar?


.



segunda-feira, 16 de março de 2015

axioma

e aí você diz eu quero sim, eu quero o pra sempre
da sua alma
eu quero ela amarrada na minha cama, iluminando
nossos obscuros desejos
e eu digo não, não digo
nada

olha direito pra isso que em mim é lisura,
castração
polimento
transparência, o que é que você vai fazer
co'a minha alma?

virtuosa
leve como bolha
de sabão
sem pecado original, sem aresta e unha

uma alma sem ruga, corte ou cicatriz
destatuada, paranomásia fracassada,
uma alma arredondada e sem
cutículas
dobrada ao modo de toalha xadrez
só que voal
invisível

se você quer eu dou: pode ficar com ela
assim nua
assim sem cheiro
assim sem
esse bicho geográfico me subindo rápido pelas pernas
sem esperma
eterna
axiomática
uma alma pra ninguém
botar defeito
pendurada no varal improvisado entre duas la-
ranjeiras
pintadas em aquarela
com moldura e assinatura de
autor

pode ficar com essa alma que eu não tenho nada
pra fazer
com isso
fantasma me vigiando por cima do ombro direito
colado ao dorso
urubu albino bicando-me
de insônia

imponderável só o corpo que morre
e luta
e fede
e sofre
e ama sem amanhã

a alma não passa de utopia do desejo multilado


.

espelhos

alicia
se escondia sob a máscara
de coelho

e uivava


.

vestida de noite

a moça do vestido azul
escuro
caminha sobre a noite
escura
é a noite que caminha
sobre
a moça
azul
se confunde ao longe
asfalto
azul
é a moça azul vestida
de asfalto é
charpe moç
azul
asfalto
noite

a moça é só
                     acidente
na paisagem


.



segunda-feira, 9 de março de 2015

escritura

que bíblia outra poderia substituir
a ti
o meu corpo?

ninguém peca fora do seu templo

depositada então sobre mim a tua
crença
debruça-te agora sobre as folhas
desse tomo
e me toma
                  pelas costas
                  mesa
                  posta pro teu santo
garfo
e ceia

decora linha alinha as pegadas
desses apóstolos
que ainda vivem os seus des-
caminhos nos meus
desenganos, tua visão falha e
míope de milagres

bebe do meu vinho, come
do meu corpo, manjar sober-
ano das traças
ó santa traça que me come
as veias
ave-te avarum avis rara
que sou
eu
a bíblia fincada no teu colo
erva daninha imitando arco
íris

coloca-te agora: teus olhos
tua boca, tuas unhas crescidas
pra dentro entre
minhas folhas abertas ao meio
fio,  o marca páginas de água
dourado e ora
à nossa senhora das serpentes,
à nossa senhora das justas ser-
pentinas púrpuras, pede chama
clama
porque eu gosto de joelhos
dobrados
esfolados
no asfalto

estilhaça a tua medida mínima
de cacos
amarelos


é de asfalto que o inferno é feito

não há como fugir

a fé sobrevive de ausência

"a fé sobrevive de ausência"

.

Azzddine - Takassim (Harissa Mix)

limões

não há saída: por detrás
das grades só há limões


.

sexta-feira, 6 de março de 2015

experiência

eu botei uma pedra
enrolada em finíssimas camadas de algodão
úmido
o dedo indicador
pressão
sobre a pele
da pedra
ferida
o sol

eu botei uma pedra
à janela

e deixei lá germinando na primeira série do
primeiro grau

botei uma pedra muda e eles me chamavam
galinha
na oitava
galinha
da sétima
das sextas
do quinto, do inferno: vinha o nome secreto
dos meus dias

mas à noite
eles só me chamavam

e eu botei uma pedra enrolada em camadas
de finíssimo algodão
úmida
ferida
fechada
aberta
ao sol

germinosa a pedra que virou rocha, depois
penha, depois crosta, depois canion, depois
depressão, depois planíce, depois planalto,
depois montanha, depois maré, depois alta,
depois céu
azul

germinando
a g o r a s
à janela


.

ovo

é tudo calmaria e brancura
dentro
dessas paredes de concreto
meu corpo
carne germinando afeto
casca
calcinada
geme
amarelo
amarelo
amarelo
jaula
ao sol


.

desejo

à venda, 
nas vitrines, a vida 
é mais furta-cor... 

só os meus olhos 
prisioneiros do aqui fora
onde as cores são sempre blue, ou cinza, ou caro


.

classificados

procura-se:
o dono de um par de sapatos pretos, finos e chiquerrimos, da marca scatamacchia, coleção dublin, ref. 1313 (conf. pesquisa no site da empresa), com no máximo 3 meses de uso esporádico (conf. exame das estrias na sola);
o cinderelo usa número 42, tem bom gosto, anda macio e parece não ter pressa para encontrar o que procura;
os sapatos foram encontrados na lixeira do 8o. andar e recolhidos pela moradora do 817;
encontram-se bem acomodados no corredor, atrás da porta onde se lê: entre sem bater;
apesar de bem tratados, com pipoca e sessão da tarde, sofrem muito, choram com frequencia e já apresentam manifestações sintomáticas de complexo de abandono.




.

desgenerosa

às vezes mulher, 
outras homem, 
desgenerosa / quase sempre / no limite
absoluto 
onde os nervos do conceito se rom-
pem, eu / escrevo / pra foder
com o mundo



.

túmulo

náufrago dissidente
cobiçoso de ostras
deita os teus ouvidos nesse meu corpo / castelo 
de areia
e sinta as circunvoluções:
mistério marulhoso
do mar
enterrado no túmulo / oco
do meu peito



.

sem título

I
não tenho mais coração
mas eu te daria
um rim


II
ruidoso o dia
em que me quebrastes
eu toda cacos
e o meu amor
no chão
múltiplo
e mínimo


III
restos
d'um todo ir-
restituível
na memória do asfalto
o tempo
o tempo
não para


IV
escrevi no tempo
o Teu
nome
palavra viva
que vivo
decorando

V
são as palavras
o que em mim
molha primeiro