quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

incêndio

por muito tempo tive um amante -  e acho inclusive que nos amamos
ele era bombeiro
não sei bem o que nos aproximou mas a gente se dava bem

ele era argentino
forte e grande e feliz como devem ser todos os bombeiros
argentinos
e os heróis
de histórias em quadrinhos
mas são dos seus olhos
profundamente azuis
oceânicos
a minha lembrança mais terna
sentia-me tragada por aquela constante ressaca
marítima
eu o amava por isso
talvez

me amava porque eu o fazia se lembrar do maior incêndio de sua vida, dizia
a fábrica de fogos de artifícios cuspindo labaredas a noite inteira
três pessoas morreram
mas, segredava, havia sido um senhor incêndio
lindo

depois fazíamos amor
ele ficava de pau duro quando repetia a história
o incêndio de 1999, pra ele
tinha o meu nome

os olhos vermelhos escalando meu corpo
me tomando como se fosse a última vez
todas as vezes

o que é que você tem?
febre, ele dizia
e eu queimava

mas aí um dia alguma coisa aconteceu e ele se foi
também
confesso uma ponta de inveja da mulher que dorme nas águas empoçadas do seu olhar
mas só uma ponta
desse iceberg que me frequenta por dentro

não consegui mais me desvencilhar daquele nome com o qual me batizou
sua língua
labareda de fogo
artifícios
a minha

aquele incêndio tinha o meu nome
e o meu nome era
incen
diosa

mas não sobrou muita coisa perto de mim
nem móveis
nem gentes
nem papéis
nem o canavial que me brotava nas costas
só nadas azuis
e algum vento
que sigo
queimando


.

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