sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Queen & Annie Lennox & David Bowie - Under Pressure - HD

Fernanda Montenegro recitando Simone Beauvoir - Globo News





“A impressão que eu tenho é a de não ter envelhecido embora eu esteja instalada na velhice.
O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim. Provisoriamente.
Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar.
Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa pra minha liberdade hoje? Não sou escrava dele.
O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo; vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade.
Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.”
[Simone de Beauvoir]

.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

bioluminescência

enquanto não posso m'abraçar no teu corpo
afundo delicadamente as mãos
em tua sombra

e gozo no escuro


.

peixes sedentos

o rio afoga tudo que ama
é preciso ser forte
ou peixe


.

vó rosalina

as folhas branquinhas da cabeça dela
viviam carregadas
de passarinhos
maduros
lá do chão eu esticava uns olhos
lombrigosos e ela ria
gordo
"vem cá fia
toma aqui seu bocadim de asa"
eu enchia a boca
e saía voando
.

paraiso

não dá pra escrever um poema
e permanecer
casto

todo poema instaura um pecado
original


.

diálogos

à beira do rio de mim
brotam pássaros
pedras
sombras e flores
selvagens

à beira do rio de mim
em amarelos solares
as trompetes de anjo
cantam em coro com
o vento:

vem sentar-te comigo
lídia
à beira do rio
de mim

enlaça as mãos
e espera: todo o rio
corre
para o mar


.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

aquário

não sei como esses peixes me brotaram dentro
mas fato é que tubarões filhotes comem uns aos outros antes mesmo
de nascer
por isso meu útero assim
retalhado

algumas vezes coloco o escafandro e desço
mil pés
abaixo do nível do mar
e fico lá flutuando entre as ruínas do ventre

algumas vezes não volto nunca mais

rasgo
o uniforme da Cia de Perfuração Maríntima
e me encolho, nua, entre uma âncora
enferrujada e o leme vestido de coral

e permaneço ali
assim: molusco enquistado

me gestando
               pra sempre



.


1.

PRIMEIRA LIÇÃO DO MENINO ADÃO
não
se aproxime

aquelas frutas te comem

avesso

o lado de lá das minhas águas
é fogo

hemograma

ele escolheu a melhor veia 
e tirou dali duas seringas de violeta
de metila
pra avaliar a quantidade e a forma
dos meus azuis


eu estou bem, obrigada
já seus dentes
nunca mais serão os mesmos

casimirianas

enquanto nada acontece
escrevo poesia do passado
quando acontecer
não escrevo mais


.

destino

o destino de toda certeza é virar uma dúvida
o destino de toda certeza é virar uma dúvida?

1895-1908 Loie Fuller's Serpentine Dance (highlights from the greatest m...

regras marítimas

ainda criança me ensinaram a deixar
o navio
e vir para perto das águas

em adulta
a lição do abandono não
me esqueceu

já os homens
todos afundaram tentando
ficar no alto


.

promessa

eu disse te amo
respondeu:  
       promete que vai ser feliz?

e eu fui muito triste
tentando cumprir a promessa
       alheia


.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

incêndio

por muito tempo tive um amante -  e acho inclusive que nos amamos
ele era bombeiro
não sei bem o que nos aproximou mas a gente se dava bem

ele era argentino
forte e grande e feliz como devem ser todos os bombeiros
argentinos
e os heróis
de histórias em quadrinhos
mas são dos seus olhos
profundamente azuis
oceânicos
a minha lembrança mais terna
sentia-me tragada por aquela constante ressaca
marítima
eu o amava por isso
talvez

me amava porque eu o fazia se lembrar do maior incêndio de sua vida, dizia
a fábrica de fogos de artifícios cuspindo labaredas a noite inteira
três pessoas morreram
mas, segredava, havia sido um senhor incêndio
lindo

depois fazíamos amor
ele ficava de pau duro quando repetia a história
o incêndio de 1999, pra ele
tinha o meu nome

os olhos vermelhos escalando meu corpo
me tomando como se fosse a última vez
todas as vezes

o que é que você tem?
febre, ele dizia
e eu queimava

mas aí um dia alguma coisa aconteceu e ele se foi
também
confesso uma ponta de inveja da mulher que dorme nas águas empoçadas do seu olhar
mas só uma ponta
desse iceberg que me frequenta por dentro

não consegui mais me desvencilhar daquele nome com o qual me batizou
sua língua
labareda de fogo
artifícios
a minha

aquele incêndio tinha o meu nome
e o meu nome era
incen
diosa

mas não sobrou muita coisa perto de mim
nem móveis
nem gentes
nem papéis
nem o canavial que me brotava nas costas
só nadas azuis
e algum vento
que sigo
queimando


.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

rosário de dentes

video


.

rosário de dentes

trouxe de outro mundo a cara devorada
por um dragão
e um incêndio
subindo pelas ruas ruidosas da avenida que corta
aquele de-dentro da garganta
onde gritos
colidem no interior
d'um grito
mudo

era com ele que me encontrava quando cerrava os olhos
os sapatos amontoados do lado de fora e os dedos
deslizando sobre o rosário
de dentes

eu rezava a letra de uma canção do ramones
entre um trago e outro de uisque
barato
porque tava caro demais bancar
meu desejo

e caralho meu desejo é explodir
explodir essa porra desse poema meu desejo é
parar no me
io d'um verso idiota
meu desejo é dar na tua cara estraçalhada de dragão
enfiar uma bomba nesse buraco de escuro e vísceras
mijar em cima desse incêndio de merda
que você meteu
nas minhas gavetas
de calcinhas
nas minhas gavetas de camisas e calças vincadas dos meus sapatos de salto das minhas agulhas da minha erva
nas gavetas onde guardo as chaves da casa
que não tenho mais
da paz que eu não tenho mais
da vida
que você fodeu

eu quero é que se dane esse teu grito em que voa longe os meus papéis o meu dinheiro as contas de telefone e gás
que porra é essa que você pensa que tá fazendo com a minha vida?
mesmo agora quando já não faz mais
na-da
essas duas mãos nojentas trançadas
me esperando

eu quero é decepar os teus dedos enroscados pra sempre nos meus cabelos

eu quero é que o inferno te queime e todos os diabos te comam ao som estridente de uma guitarra eletrizada

que merda passou pela tua cabeça de me deixar aquele bilhete?
aquela porra daquele testamento de amor eterno?
aquela adaga sem corte
e sem adaga

vá a merda com teu amor de merda
com teu sangue aguado de merda
com teu caralho murcho de merda
com tua letra tremida de azul no papel

com teu nome escaravelho me comendo por dentro

sacana filho da puta

eu sei que você tá morto

mas eu quero que você morra mil vezes mais

uma


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

bom dia

como posso escrever um poema
sobre o presente
se a manhã ainda está
sendo escrita
por meus olhos nublados
de tinta
amar
ela?


.

domingo, 7 de dezembro de 2014

estrangeirismo

ela me manda calar
e cola
a concha ao ouvido
o que sabem as conchas que eu ainda não sei?



.

pedra

foram as tuas serpentes
que fizeram pedra dos meus braços

e dos meus abraços
jazigo de mármore
pra tua morada


.

naturalidade

eu tenho um amigo que nasceu em Maravilha
ele é maravilhoso
mas todo mundo quer que seja maravilhense

isso é uma pena

porque eu nasci em Laranjal
e sou
doce


.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Justo

deixa esses sapatos que já não te servem mais
e calça teus pés nos meus
que são tamanho
G


.

tatuagem

eu tenho uma geruza tatuada nas costas
em traços realistas

que te encara
face-to-face
olho-no-olho

quando você vem
por detrás
pra me transpassar
com sua faca
                 afiada

eu tenho uma geruza tatuada nas costas
ela tá sempre alerta

maçã aberta

tudo o mais
é engodo
distração
desvio e
camuflagem


.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

as três delícias

tenho uma pequenina loucura morando 
atrás do meu ouvido
vive sola 
la locurita
batendo panelas 
cantando gardel
e suge
rindo coisas ab
surdas

mapa astral

sentindo-se parcialmente deslocada na casa VIII 
geminiana com sol na paulista
ascendente em capão redondo
e lua na vila
mariana
precisa mudar seu nodo norte
e se encontrar

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

devagar como a matemática

gosto de sentar num banquinho e ver a vida passar
lenta
gosto de sorrir pras pessoas que sorriem pra mim sorrindo pra elas quando sorrindo passam assim
lenta
gosto de ouvir a playlist que toca no jardim ao lado suspenso de cinzas e flores envioletadas
lenta
gosto de observar o escavador abrindo túneis escuros em toda extensão do pensamento
lenta
é a ideia que gosto de sentir
no seu abrir de pétalas
lenta

sentada no banquinho, balanço
lenta
pernas queimadas
pela xícara de chá
que já esfriou nos trilhos do tempo mas ainda
tem gosto de água
e hortelã

as folhas que me sobem pelas canelas
têm a textura estriada dos sonhos que sonhei pra viver
lenta
contigo
lenta
a tarde que se elabora vítrea em favos de mel
lenta
a tarde que se elabora
há tanto tempo
para ser
presente
de um futuro
em dois
dividido
lenta
ment
a


.

menina

não era penélope, mas teceu um longo tapete
mágico
com os finos fios de seu cabelo
marrom
ponto a 
ponto cruzado no trançado geométrico
lindo desenho 
d'um labirinto místico
sobre folhas justas
de juta

presa as pontas com tictac
suas franjas aladas balançando com o vento
na companhia de pequenos 
pássaros sem 
asas
ainda

a menina do tapete 
voadora
abandona os sapatos gastos
repisa grossa trança de romeus enrolada às canelas
e senta pra pensar
em nada
a não ser nos pequenos pássaros
ainda
sem asas

pernas cruzadas frente ao tear inventado
laçando nuvens
ela fia fiandeira
de destinos
fio por fio os seus cabelos
agora
d'eles
os pássaros
com asas 
marrom
adornando a imaginação

e a menina sem tapete
só asas
sorria muito enquanto caminhava
descalça


.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

hárvore

pássaros azuis
pousavam
nos seus dedos

por isso tão livres e
leves
sobre meu corpo
                       céu

porque os pássaros
[quando são azuis]
o céu e os
dedos
gostam da liber
                    dade



.

José Gonzalez + Mia Doi Todd - Um Girassol da Cor do Seu Cabelo [Live 6-...

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

do amor

contei 
sete sementes de pedra do sol
mergulhadas entre os meus lençóis listrados 
de algodão
e sete mudas de sálvia cuidadosamente depositadas sobre 
as fronhas finas do meu travesseiro

espero
pra ver o que vinga


.

 

muda

cuspi saliva
         salina 
         néctar sagrado 
na cova terrosa 
das tuas mãos 

           revolvi 
com o arado 
           de dedos 
           e unhas
molhada
           em azul

três dias de lua 
e três luas 
de sol

plantei ali entre raias 
estriadas 
de destino
               uma muda 
de amanhã
enxertada de ontem:

terceiro olho
nublado de chuvas


.

invasão (som)


video