quinta-feira, 13 de novembro de 2014

o homem do saco

o nome dele era val, val
de mar
porque tinha os pés incrustados em conchas
e usava um paletó de líquens
por cima do casaco de pelos
e tinha pelos na cara mas eu não tinha medo
dele

ele era o homem do saco e o homem do saco
era o meu tio

ele era perigoso
de facão e tudo
mas não tinha dente e eu ria de engraçado
a gengiva que nem minhoca
amassando pão

tinha o cheiro podre das gentes que não sabem
se gente
dos que se acham só mundo
tronco
cogumelo
abelha
ferro formiga e carniça

depois ouvi que era pedófilo e estruprador
achei bonito
não conhecia as palavras praquilo que era
a vida
que tinha matado um homem ou cinco
e que vivia fugindo dos próprios
pés

eu achava que ele guardava a cabeça
do morto
dentro do saco
um olho furado de facão e outro aberto
enrolado na roupa suja
mas nunca tive coragem pra espiar lá
dentro

quando ele aparecia em casa
com bichos invisíveis que coçavam a gente
minha mãe trancava a porta do banheiro
com duas voltas na chave

ele era andarilho
e do portão pra dentro
me botava sentada: as perninhas abertas
em cima
do pescoço dele
e trotava
pra lá e pra cá

segurando as pontas dos meus dedos
eu toda braços apertos
avezinha
de rapina
passarinha rosa roçando os piolhos
dele

não sei o que sinto quando falo isso
sensações de semente continuam analfabéticas
mesmo quando
árvores

meu tio chamava val, val
de mau

mas eu não tinha medo
e não me importava com o nome dele


.

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