quinta-feira, 20 de novembro de 2014

elegia à cinderela

o nome dele era 
[o nome dele não importa]

ele botou uma perna dela pra lá
e outra pra cá
aí meteu um poema bem dentro da vagina dela

o nome dela é
[o nome dela não importa]

uma perna dela foi jogada pra cá
e a outra pra lá
e o poema foi metido com força vagina adentro

era de noite e ela 
só 
soube de manhã
o corpo de lírio
delito

fios de versos 
escorrendo pelas pernas rasuradas

antimusa enrolada nos trapos de um conto
popular

fada rasgada
amputada de bolsa ou brinco
descalça 
também
na escadaria de lugar nenhum

colar de ametista dando volta no pescoço

o taxista sugeriu um ponto final
o policial questionou uso abusivo de anáforas
o médico constatou pouco espaço em branco
o porteiro lançou considerações semiológicas
o vizinho censurou o estilo hiperbólico
o marido deu-lhe uma chave de ouro na cara
o advogado pediu sete rimas ricas à vista
o pai mencionou as estrofes curtas 
o chefe apontou inverossimilhança
o pastor aconselhou duas odes e três epopeias
o poeta ensaiou uma licença poética 
            pro verso
            decassílabo 
            toda mulher gosta de poema

[não se deu ao trabalho de escrever que poemas que começam com toda-mulher-gosta-de-poema desgraçam a sintaxe desgramat
icalizada e insubordi
nada
da gente]

e porque não era taxista, policial, médico, porteiro, vizinho, marido, advogado, pai, chefe, pastor,
muito menos poeta

ela 
que é mulher
          gênero impuro
          silenciou




.
[para X,
desde dentro do meu choque e em nome do meu amor]

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