quinta-feira, 27 de novembro de 2014

café da manhã

no café da manhã
pão
francês
e margarina brasileña

migalhas de uma fome que me mordeu a noite toda


.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

invasão

é claro que podia 
é claro que podia ter me poupado de tudo 

mas não
              invadiu as minhas letras amarelas
              meu pão com mateiga
              minha roupa amarrotada no corpo
              meu corpo ah
              invadiu meu copo
                                   de aguardente
              invadiu meus dentes
              as nuvens que guardo no travesseiro
              meu cheiro
              as ervas do meu jardim 
                                 suspenso 
                                 por pernas
              invadiu minhas penas
                           a palha do meu cigarro
                                            a fumaça
              o debaixo das minhas unhas
              a gruta onde me escondo
                                   quando chove
              a casa que carrego nas costas
              me invadiu pelas costas
                                 pelas grades
                                 dessa gaiola
                                 de dedos
              me invadiram todos dedos                              
              invadiu meu peito
                           e nele 
                           o coração
              invadiu a minha garganta
                           e todos os gritos
                           em cada suspiro
                           o teu sorriso
              invadiu
              a minha vida         

podia 
ter poupado os meus sonhos
mas o som não
                respeita 
                o silêncio



.

Violeta Parra - Run Run se fue pa'l Norte

azul

azul

é esse pássaro que morde os meus ouvidos
                        que bate as asas
                                         nos meus sonhos
                        que fuma o ruído selvagem
                                          da rua
                        que engole a gula do meu
                                                      sorriso
                        e
                        que não tem nenhuma
                                     pena

de mim


.


terça-feira, 25 de novembro de 2014

pensamento

um
fantasma melancólico
espreita
meus pensamentos
por detrás
do espelho

desmesurada atenção
fazer poesia
pra um simples fantasma
ainda que melancólico


.

breve

digo
uma palavra
solta
a imaginação
prende

           você


.

roçado branco

leva meus olhos pra passear pelos teus
verdes
                              campos de milho
pra tomar chá no inverno de tua barba
dourada

lava minha boca com a sagrada cerveja
da tua

e roça minha pele pra receber os grãos
com teu arado
de unhas
roídas

toma-me, cigarro de palha, entre dedos
e tenta
                         em vão                                    
                                             conter-
me
mingau
queimada

Lila Downs - Palomo Del Comalito

imaginaçõa

vertical é a flecha
que cai sobre
minha cabeça

grafite de lapiseira
ponta
firme

sento-me
e acomodo-me
sobre ela
flecha em riste
a quase exatos noventa graus
queimando

bloco
alvo de papel
dessa minha louca
invaginação


.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

do alto

vira e 
mexe
a vida cai toda inteira em cima da cabeça
                                                    da gente


.

elegia à cinderela

o nome dele era 
[o nome dele não importa]

ele botou uma perna dela pra lá
e outra pra cá
aí meteu um poema bem dentro da vagina dela

o nome dela é
[o nome dela não importa]

uma perna dela foi jogada pra cá
e a outra pra lá
e o poema foi metido com força vagina adentro

era de noite e ela 
só 
soube de manhã
o corpo de lírio
delito

fios de versos 
escorrendo pelas pernas rasuradas

antimusa enrolada nos trapos de um conto
popular

fada rasgada
amputada de bolsa ou brinco
descalça 
também
na escadaria de lugar nenhum

colar de ametista dando volta no pescoço

o taxista sugeriu um ponto final
o policial questionou uso abusivo de anáforas
o médico constatou pouco espaço em branco
o porteiro lançou considerações semiológicas
o vizinho censurou o estilo hiperbólico
o marido deu-lhe uma chave de ouro na cara
o advogado pediu sete rimas ricas à vista
o pai mencionou as estrofes curtas 
o chefe apontou inverossimilhança
o pastor aconselhou duas odes e três epopeias
o poeta ensaiou uma licença poética 
            pro verso
            decassílabo 
            toda mulher gosta de poema

[não se deu ao trabalho de escrever que poemas que começam com toda-mulher-gosta-de-poema desgraçam a sintaxe desgramat
icalizada e insubordi
nada
da gente]

e porque não era taxista, policial, médico, porteiro, vizinho, marido, advogado, pai, chefe, pastor,
muito menos poeta

ela 
que é mulher
          gênero impuro
          silenciou




.
[para X,
desde dentro do meu choque e em nome do meu amor]

romance

eu queria escrever
um romance
mas eu me sinto um pouco cansada pra romances

porque os romances
tiram sono da gente
não importa se curto frag-men-ta-do líquido horizontal pós ou ultra-contemporâneo

o romance sempre é refém de mimimi e de escrevências
d'um conflito imprevisível
previsto pra abalar a estru
tura

chamadas a cobrar:
amor
atenção
e versos bordados

macumbarias e feitiços
chantagens na carteira

romances dão dor
de cabeça e lesão
por esforços repetitivos

volúpia lágrimas delírios um beijo grande e dois ou três
pequenos

suspiros

convenhamos: o processo
é cansativo

mas nada que pó de guaraná e um eu-te-amo a caneta
ao pé de página
borrada de azul
não me botem
bem
acor
dada


.

coincidência

cerca de arame farpado
que divide em dois
a minha consciência


.

consciência

cerca de arame farpado
que divide em dois
a minha coincidência


.


ato

nesta peça
eu sou aquela que vai chorar
depois
não
importa


.

Fugees & Roberta Flack - Killing Me Softly

mas

a palavra nuvem não é
nuvem
nuvem é a palavra
                           'mas'

eu te amo
mas

eu sou feliz
mas

eu amanheço
mas

eu vou
mas

eu espero
mais

e tudo que não era céu
e sol
dissipou


.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

pingentes

é imprescindível
algumas nuvens

tule tecido em algodão
pra se olhar
diretamente nos olhos

do sol

frente
a
fronte

          a nudez

cega
          do sol
cego


.



Neil Young - Heart Of Gold







[com Nicholas]

buquê de flores frescas

colhi
uma a uma as flores do meu delicado jardim
corpo estendido de terra
          macia
a colheita
orvalhada
gozosa do plantio
demoroso
e dentado
do ciscador revol-
vendo a... água
gozosa da semen-
te: forcado fabrincando duro a nova estação
de flores fincadas:
violetas
roxas
lilases
alguns azuis: canteiro protegido na tessitura
de estufa: pétalas nascidas na primavera ou
sada dos meus ais
invisíveis a olhos
nuas
as manhãs em que colhi uma a uma as flores
frescas do meu jardim
embaladas
doce
buquê de exóticas cores que eu preparei pra
você
em homenagem
a sua ausência



.

De Janeiro a Janeiro

terça-feira, 18 de novembro de 2014

fuzil

ao lado do fuzil
a morte
espera


.

amor

o meu amor tem portas
abertas
e joelhos destrancados

o meu amor
                     [é mudo]


.

turbinas

mimimi
mimimi

um avião voa pra lá

mimimi
mimimi

um avião voa pra cá

mimimi
mimimi

aninhados nas turbinas do tempo
passarinhos mimados continuam
miando
miando
miando

atenção!


.


noite

obsceno pássaro
negro
       dorme
aninhado em minhas mãos


.

violeta

qual a cor das grandes paixões
senão o violeta?

primavera tímida
florindo às bordas dos tecidos


.

aerosol

nas paredes do céu

versos
pixados
na língua de deus


.


painel

pendurado no canto
das asas
      do olho
um céu
      grafitado 
      de 
      branco


.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

cientista

se eu fosse cientista eu inventaria um simulador de céu com essas nuvens fofinhas no horizonte que a gente vê quando está voando acima delas. colocaria também um pouco de infinito. de diferente: as nuvens seriam densas para se pular sobre elas, cair deitado, rolar e rir. penso na possibilidade de serem comestíveis, mas ainda não me decidi. eu seria a primeira a testar o simulador de nuvens portátil e convidaria você para estar lá comigo. seria a primeira vez que nos encontraríamos, a sós, no infinito... no infinito fofo de nuvens... seríamos somente eu, você e o controlador por detrás das paredes camufladas de azul. (é... porque sempre tem um controlador, disfarçado de natureza, controlando nossas tempestades)


.

doce de nuvens

a pior coisa que pode acontecer com uma pessoa
pequena ou grande
é ficar com vontade de comer
nuvem

ela pode até comer chantilly
marshmallow
miolo de pão

mas nunca a vontade de comer nuvem
vai passar
vai passar
a vida toda lombrigosa

porque nuvem não se come
é só pra enfeite

issoé muito triste
eu sei

          já aconteceu comigo.


.

em cima

é tão engraçado
aqui
acima das nuvens

me interessa
quem está
em

baixo


.

genealogia

        do meu tio restou-me
uma coceira nas penas
        de baixo

e certa familiaridade
com a sujeira


.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

o homem do saco

o nome dele era val, val
de mar
porque tinha os pés incrustados em conchas
e usava um paletó de líquens
por cima do casaco de pelos
e tinha pelos na cara mas eu não tinha medo
dele

ele era o homem do saco e o homem do saco
era o meu tio

ele era perigoso
de facão e tudo
mas não tinha dente e eu ria de engraçado
a gengiva que nem minhoca
amassando pão

tinha o cheiro podre das gentes que não sabem
se gente
dos que se acham só mundo
tronco
cogumelo
abelha
ferro formiga e carniça

depois ouvi que era pedófilo e estruprador
achei bonito
não conhecia as palavras praquilo que era
a vida
que tinha matado um homem ou cinco
e que vivia fugindo dos próprios
pés

eu achava que ele guardava a cabeça
do morto
dentro do saco
um olho furado de facão e outro aberto
enrolado na roupa suja
mas nunca tive coragem pra espiar lá
dentro

quando ele aparecia em casa
com bichos invisíveis que coçavam a gente
minha mãe trancava a porta do banheiro
com duas voltas na chave

ele era andarilho
e do portão pra dentro
me botava sentada: as perninhas abertas
em cima
do pescoço dele
e trotava
pra lá e pra cá

segurando as pontas dos meus dedos
eu toda braços apertos
avezinha
de rapina
passarinha rosa roçando os piolhos
dele

não sei o que sinto quando falo isso
sensações de semente continuam analfabéticas
mesmo quando
árvores

meu tio chamava val, val
de mau

mas eu não tinha medo
e não me importava com o nome dele


.

O andarilho - Manoel de Barros

Eu já disse quem sou ele.
Meu desnome é Andaleço.
Andando devagar eu atraso o final do dia.
Caminho por beiras de rios conchosos.
Para as crianças da estrada eu sou o Homem do Saco.
Carrego latas furadas, pregos, papéis usados.
(Ouço harpejos de mim nas latas tortas.)
Não tenho pretensões de conquistar a inglória perfeita.
Os loucos me interpretam.
A minha direção é a pessoa do vento.
Meus rumos não têm termômetro.
De tarde arborizo pássaros.
De noite os sapos me pulam.
Não tenho carne de água.
Eu pertenço de andar atoamente.
Não tive estudamento de tomos.
Só conheço as ciências que analfabetam.
Todas as coisas têm ser?*
Sou um sujeito remoto.
Aromas de jacintos me infinitam.
E estes ermos me somam.

(In: Livro sobre nada)


* Penso que devemos conhecer algumas poucas cousas sobre a fisiologia dos andarilhos. Avaliar até 
onde o isolamento tem o poder de influir sobre os seus gestos, sobre a abertura de sua voz, etc. Estudar talvez a relação desse homem com as suas árvores, com as suas chuvas, com as suas pedras. Saber mais ou menos quanto tempo o andarilho pode permanecer em suas condições humanas, antes de se adquirir do chão a modo de um sapo. Antes de se unir às vergônteas como as parasitas. Antes de revestir uma pedra à maneira do limo. Antes mesmo de ser apropriado por relentos como os lagartos. Saber com exatidão quando que um modelo de pássaro se ajustará à sua voz. Saber o momento em que esse homem poderá sofrer de prenúncios. Saber enfim qual o momento em que esse homem começa a adivinhar. (BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010, p.353)


.

estalagmite

tendão
tensão
t  esão

ninguém sabe muito bem o que se passa no escuro das cavernas da escrita
onde a água
pinga
con
ti
nua
mente


.


nexo

palpita o teu
nexo
espremido na ponta dos dedos

claustro de paredes escorrega
dias
de saliva

abro a boca e teu nexo treme
escorrega
novamen
te

palpito sobre o teu (nexo) tro
castes
castos
pés pelas mãos

palpite:
respira

relâmpagos


teu astro transborda o pluri
verso
de anéis e digitais siderais


.



androgenia

eu me escondo na parte fêmea do poema
andrógino

dura

tomada de precaução

fio terra
boiando na água licorosa da parte mar chão
delicado 
tudo que é macho 
é melagridoce e es
corre nos desvãos rochosos do que em mim
gruta
grita
mais

eu me escondo e não quero fazer chamadas 
ilimitadas
pra qualquer canto
do brasil 
pagando
pouco

eu detesto receber chamadas 
a cobrar 
poesia
ou mensagens d'operadoras
no meio do poema 
claro

eu quero que a outra parte se ligue e toque
marcha ilimitada
                    [just like honey]
a fina película que encobre o que em mim
é cheiro


.

The Jesus and Mary Chain - Just Like Honey

mãos

ele colocou a cabeça entre as mãos
e os cabelos deram voltas
nos dedos

ele apertou a cabeça entre as mãos
e as unhas cravaram
nos medos

o homem com cabeça
entremente
espremeu os pensamentos
abortou as imagens fetais
amputou os mais sagrados
ideais

um homem
embrulhou a cabeça entre as mãos
e ofertou-a
                               
                                     poesia


.



a densidade do ar

havia um lugar sem
nome e sem tempo

nossos encontros aconteciam lá


.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

viçoso

quero aproveitar minhas chuvas
pra plantar essas sementes
de peixe-dourado
e esperar
geruminar
até

a próxima estação:

e vai descer na luz
com a alma na mão a saudade na mala o coração
no desejo:

corpo florido de escamas
em primavera
de água doce

plantado

na minha cama


.

cigarra

uma cigarra
canta louca
no meu peito

toda cigarra
é bomba armada pra ex-
plodir

.

chuvoso

o sumo do céu
desaguou
nos cantos
da boca
          da noite

e o meu corpo de terra
barranco
charcoso
t'aguarda

e palavra
voz rouca de sementes

santo
é o verde
que te fez assim
tão azul

meu copo agora é só
alegria


.




terça-feira, 4 de novembro de 2014

tapeçaria

pode apagar então
aqueles riscados fundos que traçou nas minhas costas
dizeres de amor
palavras loucas
desvirgulada somatória de futuros todos com destino
no fim do mapa
desenhado com rios de bic azul na sola dos meus pés

apaga tudo
não deixa nada que lembre
plano
piano
rastro
e rota
deixa lisa
deixa branca
deixa livre a parede da memória
deixa só com aplicação de papel
de pele
de pó
de arroz

rica tapeçaria pastrana
arraiolos enrolados pelo tempo
pelo teu tem


que me atravessa como sopro
que perde o fôlego
[que perde]
a cabeça
[que pede]
o juízo
[que perde]
a letra
[que pede]
a última
[que perde]
palavra


.


pajarito

dá-me um carinho passarinho
dá-me um beijo
beija-flor

nessa noite eu estou sozinho
cantando triste
sem amor


.

o milagre

tocou
com os dedos leprosos os meus poemas
e pouco
a pouco
e um
a um
eles foram se levantando


.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Carla Morrison - Dejenme Llorar





<3



.

fim

cozinhei por muito tempo
aquela palavra
fim
no poço d'um último sol
uço amarelo-
fôlego arran-
cado à unha

cozinhei em saliva'marga
até que macia a palavra
rasgou
delicada a língua bífida

e um vergão vermelho
foi tudo o que sobrou
no


.


palavra

eu te disse "amor"
você disse "legal"

então pegou amor
dichavou e fumou

só sobrou fumaça


.