sábado, 18 de outubro de 2014

patoá

talvez seja isso mesmo que a palavra, assim quando escrita, tá sempre a dois ou três passos da gente, mantendo distância segura e só aguardando, meio que de longe, a nossa vinda, palavra-templo de portas entreabertas, exigindo apenas a força dum empurrão e, depois, depois só aquilo que a gente tá a fim de dar... já a música ah ahmúsicah ela é assim toda ousada, intrusa, caradepau, a música não espera: ela se lança sobre a gente sem pedir licença, sem diplomacia nenhuma, sem perguntar se estamos prontos ou não... 

aqui do lado de casa tem uma loja de cd - é incrível que isso ainda exista e eu acho até que alguém paga pra manter esse negócio de tocar gente aberto - todo dia trago de lá uma música de presente colada na língua que nem bala toffe de paçoca... mas bala que já veio nua sem que se ouvisse o som do papel anunciando chegada: só o susto dum grude doce enroscado nos caninos e, depois, a língua profanada, toda melada de som

hoje passei lá, cheia de sacolas vazias, e ela, ah ela pulou sobre mim num assalto inesperado... tentei me desvencilhar mas ela, ah sedutora, uma prostituta pendurada no meu pescoço... não se me largou, enlaçou os dois braços na garganta e arranhou o invólucro da ideia, lambendo lentamente a pele porosa do meu olvido... filha de ninguém! ratazana sorrateira! uma sacana esmolenta a quem eu disse primeira vez não! depois, segunda, um fechar de olhos pra observar seu giro larapioso abrindo sem força meu porta-moedas do peito... arrancando de mim o que já nem tenho: meia dúzia de prata líquida, sem valor pra você, mas que eu ainda guardava como um precioso patoá, plantado no céu da boca.

https://www.youtube.com/watch?v=kjRo_CHSdt0


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