quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Legiao Urbana-Andrea Doria ao vivo

bota vermelha de cano longo

eu ando com saudades
longas
apertando os meus pés


.

banho

amarrei os sete ramos
das minhas ervas de poder

preparei o banho de acento
com um punhado
de sálvia
              e sílaba
tônica

botei o poema de cócoras
intimidade exposta
medicina ancestral
curadoria de chá


ele ficou ali sentado
períneo mergulhado
na mornura

preguiçoso

agora diz que tá gestando
uma flor

orquídea anã
piquininha
quase nem se vê

mas tá lá
mergulhada na fumaça

do cachimbo dele


.

L'odiosomatto

desmontei o despertador
mas não encontrei
o tempo
perdido

tic-tac
tic-tac
tic-tac

marcapasso
sintonizado
no rodapé
do seu tango de pulso

desponteiro frenético

giros do agora

só essa noite

me pega pra dançar?


.

de todos os azuis

milou maass


de todos os azuis
só o seu
me é mais verde


.

ciosa

como

a loba

lambo a culpa

molhada

no vão

das pernas


.

chorosa

é sempre tuas costas 
que eu amo primeiro

depois ombros e nuca
cabelos

as pegadas invisíveis
do teu cheiro

no contato

é o teu corpo de cacto
que desamo primeiro

depois dedos e agulhas
língua

as letras invisíveis
no poema
alheio



.




a confissão

você lembra aquela noite?

eu cheguei cedo
eu não jantei
eu tive febre
eu chorei de medo
eu disse eu-te-amo
eu beijei tua boca
eu disse pra-sempre
eu apaguei a luz
eu dormi no teu abraço

eu lembro aquela noite

você chegou cedo
você não jantou
você teve febre
você chorou de medo
você disse eu-te-amo
você beijou minha boca
você disse pra-sempre
você apagou
você dormiu

naquela noite
eu trepei com o meu melhor amigo


.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

quando agora me começou

quando o sol bater na janela
do meu quarto

                    agora mesmo
o mundo re-
começou


.

Legião Urbana - Quando O Sol Bater na Janela do Seu Quarto (Ao vivo.metr...

poema

é preciso escrever muita, mas muita porcaria mesmo
pra, por pura obra do acaso, 
encontrar alguma coisinha 
que valha 
uma pena

poema é que nem gente.


.

tempo

meus cabelos amanheceram tingidos de neve
e os meus seios
mais tristes
do que ontem

meus dedos amanheceram tingidos de nome
e a minha língua
triste
de silêncio


.


pescaria

chegou e 
me trouxe de volta 
pra casa

e então sentados lado 
a lado só
o verde sem tamanho
do interior

arremesso o molinete
dou linha pros olhos
tentando pescar o teu

horizonte

pacienciosa espera

d'antigos pescadores
da pele
do lago
arrepiado pelo vento

na geografia rochosa 
do abraço

a delicada pescaria
que dispensa anzóis


.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

livro

eu sei o teu nome

eu sei o teu número
eu sei todos os teus números

eu sei os teus poemas
eu sei todos os teus poemas

eu sei teu rodapé
eu sei a tua boca

eu sei o teu desejo
eu só sei um
aquele que importa


.

liberdade

a minha liberdade
para quando?


.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

nome

me diz então o nome dessa história
porque um pouco
de pântano
invadiu minha memória:

uns ciprestes altos e vigilantes
sérios senhores fardados
de escuros

depois uns muitos olhos
vermelhos
crocodilos à espreita de pernas

de fadas fodidas
abandonadas à lama

no meio disso tudo tua mão
assim só ela
empunhando os cinco dedos
unhas roídas
e uma estrela de davi
fincada na palma

me dá um sol
e guarda o segredo do nome
que eu não preciso mais
                                 dele


.

idílio

ele amanheceu
com um pequeno cadáver
entre os dentes


.

Ponto Saudação à Iansã Umbanda (com letra)

sábado, 18 de outubro de 2014

patoá

talvez seja isso mesmo que a palavra, assim quando escrita, tá sempre a dois ou três passos da gente, mantendo distância segura e só aguardando, meio que de longe, a nossa vinda, palavra-templo de portas entreabertas, exigindo apenas a força dum empurrão e, depois, depois só aquilo que a gente tá a fim de dar... já a música ah ahmúsicah ela é assim toda ousada, intrusa, caradepau, a música não espera: ela se lança sobre a gente sem pedir licença, sem diplomacia nenhuma, sem perguntar se estamos prontos ou não... 

aqui do lado de casa tem uma loja de cd - é incrível que isso ainda exista e eu acho até que alguém paga pra manter esse negócio de tocar gente aberto - todo dia trago de lá uma música de presente colada na língua que nem bala toffe de paçoca... mas bala que já veio nua sem que se ouvisse o som do papel anunciando chegada: só o susto dum grude doce enroscado nos caninos e, depois, a língua profanada, toda melada de som

hoje passei lá, cheia de sacolas vazias, e ela, ah ela pulou sobre mim num assalto inesperado... tentei me desvencilhar mas ela, ah sedutora, uma prostituta pendurada no meu pescoço... não se me largou, enlaçou os dois braços na garganta e arranhou o invólucro da ideia, lambendo lentamente a pele porosa do meu olvido... filha de ninguém! ratazana sorrateira! uma sacana esmolenta a quem eu disse primeira vez não! depois, segunda, um fechar de olhos pra observar seu giro larapioso abrindo sem força meu porta-moedas do peito... arrancando de mim o que já nem tenho: meia dúzia de prata líquida, sem valor pra você, mas que eu ainda guardava como um precioso patoá, plantado no céu da boca.

https://www.youtube.com/watch?v=kjRo_CHSdt0


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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

capíltulo 139

'oliver me promete uma coisa'

'o que benzinho?'

'promete que não vai morrer
nunca'

'eu não vou morrer benzinho'

'por quê?'

'porque eu sou uma ficção'


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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

indomável

[denis dubois]

pedras

não suporto o grito das pedras
sob meus pés

elas sangram aos meus passos
algumas morrem
outras ficam em estado crítico

nada posso fazer agora que dispensei as asas
crueldade alada açoitando as nuvens e azuis
celestiais

não me movo: só em mim mesmo
me movimento
meu corpo foi feito pra machucar


.

anzóis

então me empresta teus anzóis de pescar companhia
não me deixe sozinha atrás do armário
enquanto a noite se alonga até quase tocar um raio
de sol é claro
que eu pego e pago o favor em dobro dobrada sobre
a cama
enrolada nos lençóis e nas rendas e na rede de arame
armada pra confundir tubarão espada na mão ao alto
me empresta os teus anzóis
pesca tu mesmo meus poros
me arranca uma a uma as es
camas me bota pra dormir no teu peito e canta canção
de mar daquelas de ondas que levam e nunca é demais
trazer de volta pra casa um peixe dourado sereia loura
alguma coisa que lembre
poesia no fim de um dia
vinho, chocolate, solidão
pensamentos exaltados de uma mulher em abstinência
lisérgica
hormonal


.

Audioslave - Like a Stone