segunda-feira, 29 de setembro de 2014

capitulo 77

foi aí que comecei a lidar com artesanato
fiz um verso longo de arame farpado e dei três voltas no pescoço

ficou lindo!


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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

capitulo 67

é claro que deu merda

deu merda pra todo mundo e talvez tenha sido mesmo eu
a única culpada

acontece que tava bom pra nós
pelo menos eu achava que tava

pra mim parecia que nós três estávamos respirando melhor
depois que ele chegou
e passou a frequentar
meus mares de dentro

nunca me faltava oxigênio
mesmo quando fazíamos aquelas peripécias todas na jaula
do globo
da morte
vivíamos
mais
felizes

sempre uma brisa fresca
um sorriso alegre
depositado na conta do travesseiro

ele me fazia bem
com seus pés alados

mas aí ele resolveu
que nós dois éramos nós
sem ele
sem ela

e minhas asas murcharam


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terça-feira, 23 de setembro de 2014

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

capítulo 16

adivinhosa

ela tinha cheiro de baunilha e chupava sorvete com os dedos

mas era inverno e sorvete, frio demais pra aquecer a língua
enrigecida e acorrentada
no silêncio

eu tava numas de academia: ler na esteira me deixa com tesão
de escrever

meus dedos tamborilam no controle
remoto

os dela, entretidos com outra coisa

'preparo um chá de sálvia e vemos um pouco de tv'
'prefiro coca... gelada'

ríamos das minhas meias: duas aspirantes à alegria

duas carreiras de fogo branco esticadas sobre a mesa

sinos tocam no meu peito

'perto de você eu queimo'


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domingo, 14 de setembro de 2014

capítulo 13

que porra é essa que ele tá fazendo?

por que destrança meus cílios quando eu mesma levei milhares de frações de segundos para atá-los uns nos outros em delicados nós de penélope, a feia

minhas moiras incansáveis na arte da costura e de repente o laço de cílios se desfazendo de repente as linhas das digitais de repente o fino fio de algodão e a agulha de repente e o rastro e o corte e o pente cravando os dentes

passei as mãos no cabelo

as mulheres passam as mãos no cabelo quando não sabem muito bem o que fazer
ou quando sabem muito bem
o que fazer

?


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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

capítulo 12

exórdio
é a citação que precede o corpo
do texto
pro derrida o exórdio guarda um excedente de sentido que dá o comando do que vai ser lido

eu tenho uma tatuagem inscrita no corpo
ela está situada antes e depois da pele e tem cor de sangue
azul

piquei quando tava na prisão
é a marca de um condenado e todo mundo sabe que o condenado não tem tempo:
tá suspenso no entre-lugar da pele

tatuagem é bom que faz lembrar de não esquecer de procurar a memória que ainda
falta

mentira: não é uma tatuagem

é uma circuncisão: tradição dos malditos cicatrizada em torno do meu pescoço
porque é ele que encabeça meus textos


'mas fica tranquilo benzinho pode continuar metendo
isso não quer dizer nada não só solidão

pertença'



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capítulo 10

eu tinha dentes grandes quando era criança
como nunca deixei de ser, tenho-os até hoje

mas nunca mordi ninguém
sempre soletrei sílaba por sílaba cada um dos meus im-
pulsos

por que então o desejo agora
de morder o pescoço do tatuador e cravar os dentes ali na garganta dele pra vampirizar a fonte
das trovoadas, dos relâmpagos e desses sismos todos que ele picou nos meus olhos
ainda fechados?

e-u-n-ã-o-s-e-i


.

ninguém

ninguém conhece
o carteiro

ninguém


.

capítulo 9

tudo o que ela dizia era silêncio e então era
como estar em casa

em casa grande e vazia de quinquilharia, as palavras ecoam e dançam

dançamos

não podia mover-se
mas veio com fome e unhas longas

mas unhas não resistem
a dentes


.

capítulo 8

aí ficamos as duas separadas por uma fina linha de algodão
invisível

'você está mais pra lá ou pra cá?'

ouvi 'lá'
depois me pediu pra puxá-la de volta
tentei

mas seus dedos só tinham as pontas
tudo o mais era abismo impalpável
de escuros

lisos os meus dedos
e molhados demais
                                     pra segurar


.




capítulo 5

'o que você tem escrito aí?'

os caras perguntam

as mulheres também, mas elas leem em silêncio e silenciam
invariavelmente a mulher encara o amor mais de frente

já os homens curtem te deixar de quatro
por eles

então perguntam duas vezes: 'o que você tem escrito aí?'
e  'o que quer dizer isso?'

sim: todos - intelectuais ou fortes - querem saber o significado por detrás das coisas
o que se esconde sob a pele das palavras

nessas horas nunca fingem que compreendem
a nudez estimula
a nudez

ou o pavor de ser encarado por ideogramas desconhecidos embrenhados nas sombras
dessa selva urbana de peles e pelos:
corpus

'ah entendi: tu não te moves de ti... hmmm
então agora vem vem dar pra mim gostosa'

e avançam


eu não me movo



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capítulo 6

tatuagem pra mim é que nem casamento:
pra vida toda

claro que não pensei nada disso antes de picar a tatoo

mas a gente nunca pensa


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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

capítulo 3

'tu não te moves de ti'
não é coisa pra se tatuar nas costas

não é à toa que ela escreveu no papel e não na pele da garganta (embora)

dependendo da posição não é fácil prum cara comer uma mina
com um peso assim se impondo a cada investida
forte

mas tá lá e em letras caligráficas e anônimas e
agora tenho que conviver
com isso de tirar a roupa e tal

é quase como ter três peitos ou duas vaginas e mais um tanto
de explicação

é por isso (também) que decidi fazer sexo só:

1. se for inevitável
2. preferencialmente com mulheres (porque mulheres a. não são derrubadas facilmente e b. sabem fazer filosofia de verdade)
3. com tatuadores

mas esse 3. aí surgiu só agora e eu ainda tô pensando se
mantenho

tô pensando

pensando
pensando

enquanto prolongo o tempo dessa picada



.




capítulo 1

perguntou se eu só tinha duas tatuagens

'não!' e expliquei o meu medo da dor
'só tenho uma'

aí mostrei as costas. meio rápido, meio assim pra não dar tempo de ler
então ficou me olhando
me olhando de um jeito que me mexeu lá por dentro

'são duas',

repetiu que eram duas
e eu fiz uma cara que é igual essa mesma que eu tenho de curiosidade
curiosidade que não acaba
nunca

'você tem uma tempestade tatuada nos olhos'

foi isso que ele disse
e eu pisquei


.


gosto

eu gosto desse quarto
novo
eu gosto dessa cama
nova
e gosto dessa colcha
gosto
dessas minhas coxas
em xadrez
descruzando
novo
essa minha vida
nova


.

desejo

quisera meus pássaros todos
voando-me


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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

cena punk

o meu vizinho abre os braços
e prepara
um mosh

é o melhor show da sua vida


histéricas as árvores em roda
se empurram no bate-cabeça


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domingo, 7 de setembro de 2014

outono

pendurou-se aos pés
da pitangueira
             e suicidou-a


.

oficina de criação

colocava os sapatos que pertencera à mãe
e a bolsa amarela a tiracolo
herança da avó
a menina brincava de ser mulher brincando de ser menina brincando
no porto de santos a menina
era mulher


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