segunda-feira, 18 de agosto de 2014

notas de elevação

para elevar o espírito às segundas-feiras
de manhã:

alongar os dois braços até tocar as cordas do sapato
dedilhar sem pressa as notas espaçadas de uma canção
que ainda não existe mas pode ser a nossa
melodia inédita soprada no vaievém do vento na avenida

hoje eu acordei com um besouro entalado na garganta
de pernas pro ar
e com o sangue tingido de vinho

nenhuma vez os passos até o extra me levaram tão longe
havia açucenas nas calçadas sonhando motores
e todos os semáforos abertos como um sorriso em verde
e as paredes ah as paredes não existiam menos uma:
aquela por que assim tão macia?
e por que as grades do portão me prendendo pra fora?
numa promessa de liberdade atada no tatame dos olhos

cinco estrelas pequeninas pinceladas no teu rosto
e no dedo, lembrança e herança da tua bisavó

você reparou tudo isso?

você reparou o momento em que tirei os sapatos e
passei a andar dançando
                     com a língua descalça?

ou foi só eu
a me embriagar na carne da tua poesia?
a me alimentar da fome que nem sabia
                                que fora dela me existia?


.

Nenhum comentário:

Postar um comentário