terça-feira, 26 de agosto de 2014

naus

o abismo não se vê
ele nos espreita às escondidas
isso que pode ser visto ainda 
é o raso

cuidado!

senhor
não se faz amizade com abismos
eles não são confiáveis

além disso é bom 
ter a mão 
um kit Ur de primeiros socorros:
redundância de cordas e ferros
metais e percussão
sapatos de escalar com dentes
e ganchos 
de regente
quebrando 
a orquestra 
atrás 
da gente

pirataria

de literatura já inventada


.

alemão

eu gosto de alemão
eu gosto de tudo que não entendo
do alemão eu conheço bem o alem 
e a mão
fechada 
num cumprimento firme

além da mão do alemão eu gosto dos pés
invisíveis
como todos os pés verdadeiros são
os que não são
são extensões
repara nas engrenagens
e na mala
esperando-os de boca aberta
as roupas ainda dormindo
esticadas no armário
e uma corrente elétrica
pendurada no pescoço

curto-circuito

um dicionário é pouco pra fazer um haicai
com aveia, mel e sílabas tônicas

só uma língua rebelde
que não declina
pode parir 
um novo idioma


.

tiramissu

toco as cordas
dessas coisas sem cor
translúcidas e ilógicas
de um voo que se faz no barro

estico meus braços pra baixo
colho uma porção de fome em folhas crespas
mil bocas têm as gramas
carnívoras

mas meus dentes são afiados
seletivos: precisam cheirar muito antes de morder

tenho roçadeiras nas línguas
em todas as línguas, inclusive nas dos dedos
e ourobouros descendo pelos cabelos
meus poros têm cus que não se escondem
nas dobras de página do livro da minha pele
papel reciclado pra cegos de todas as línguas
inclusive as mortas
ensinando um novo idioma fantasma
aos cus da tua pele

eucossistema
fecundada por palavras de lã e carneiros
nunca comi tiramissu mas sei:  

eleva-me


.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

rotas líquidas

a cama rota
os lençóis lançados à beira
de lugar nenhum

fome & jejum

holoclaustro

       hologramas
              holometrias

plantou pequeninas asas na minha língua 
e saiu pra trabalhar

a estrada só tem fim
no meio

agora no céu da minha boca 
urtigam estrelas com dentes


.

entre coimbra e o mar

bonito
é o teu nome
nuvens de lã
soprando antigos sonhos em brancos lençóis d’água

sobre a mesa


.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

palavra grande

buscas a exatidão nesse meu sentir
palavra grande que contemple tudo
cômodo espaçoso pra tua morada

e cavas as dobras do pensamento
tentando decifrar as línguas mortas 
remexendo baús e cantos da ideia
dos meus mestres antepassados

nada há no meu sentir que seja ex
ato contínuo disperso num tempo
eu já te disse passarinho asa carne
lesmas conchas asfalto bomba atô
mica carnaval moscas vento e pão
............................................
fiz um ninho desabitado de ovo
no meu verso .........................
que não cabe palavra nem letra 
e justo ao sopro desse silêncio
............................................
que teus olhos já não ouvem mais


e dito isso nada é o que ainda há pra dizer.


.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

notas de elevação

para elevar o espírito às segundas-feiras
de manhã:

alongar os dois braços até tocar as cordas do sapato
dedilhar sem pressa as notas espaçadas de uma canção
que ainda não existe mas pode ser a nossa
melodia inédita soprada no vaievém do vento na avenida

hoje eu acordei com um besouro entalado na garganta
de pernas pro ar
e com o sangue tingido de vinho

nenhuma vez os passos até o extra me levaram tão longe
havia açucenas nas calçadas sonhando motores
e todos os semáforos abertos como um sorriso em verde
e as paredes ah as paredes não existiam menos uma:
aquela por que assim tão macia?
e por que as grades do portão me prendendo pra fora?
numa promessa de liberdade atada no tatame dos olhos

cinco estrelas pequeninas pinceladas no teu rosto
e no dedo, lembrança e herança da tua bisavó

você reparou tudo isso?

você reparou o momento em que tirei os sapatos e
passei a andar dançando
                     com a língua descalça?

ou foi só eu
a me embriagar na carne da tua poesia?
a me alimentar da fome que nem sabia
                                que fora dela me existia?


.

notas sobre "a noite estrelada"

há tornados nos meus mares
trombas d'água na tua boca
e o teu nome
e o teu nome
dando voltas à minha língua

dentro, eu te chamo
pra habitar o quadro azul
que goteja sobre a cama
há um sol metido nos meus lábios e o teu luar
em luta cravada na noite livre do meu desejo
te estica no então
sobre a minha pele
cereja roçando nela o hálito de um silêncio e espera
eu derramar
minha boca
sobre a tua desaguar o sonho
de um rio até aqui
                      tão só e sério


.





quinta-feira, 14 de agosto de 2014

bem baixinho

eu vou sussurrar o segredo colocado assim de joelhos / aos pés 
do teu ouvido: é

preciso muito braço pr'abraçar todas essas tempestades
alguma coisa sempre se perde no meio de tanto presente

preciso muita boca pr'engolir esses desamarelos girassóis
coisa alguma se ganha no meio de tanto passado sempre

será que vale a pena desenhar tanto silêncio nos desvãos in 
significantes e palavras e pontos pretextuais sem posfaciais?

mas eu empresto / mais / eu m'em presto as minhas costas 
pros teus cálculos forjados nos lábios jovens maduros de duras equações x y e zelnys raiz quadrada elevada aos quintos dos invernos potência translúcida de cigarras geométricas e ancestrais e você pode tu podes começar agora pelos nuncas da minha nuca desviando do que nela é presente: uma estrela vinda de luanda no meio da madrugada: e depois o que é agora retidão números virgulados e frações de pele em pelos arrepiados nas ruas brancuras longilíneas de lousa fria de pinheiros mas desce e aponta o lápis com cuidado que no em mim sempre tudo dói principalmente o prazer e traça um traço pro resultado vermelho porque essa busca já começa no negativo a câmera clara pra essa tua fotografia escura embaçada nas bordas laterais porque no centro ah o centro tudo é desfoque por isso por isso pendura no lugar dessa certeza uma interrogação pincela nessa conta uma interrogação trançada de corda serpente enrolada nos pincéis de van gogh desconta então duas três quatro porções de pétalas desamparadas de velhice e considera algumas pérolas ainda úmidas dessa noite sem fim de apertar os passos exilados no mapa das minhas pernas e come o teu pão preparado no cuidado de canelas demorado e impreciso é o resultado quando se soma digitais nos dedos dos pés e talvez tal vez hoje nem haja pitangas porque alguma coisa é preciso deixar pro futuro dessas coisas bonitas exorbitando o teu universo e desordenando a órbita desses dois olhos da tua iris:

não tenho ciúmes das coisas bonitas 
só tenho ciúmes daquela que é mais:


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domingo, 10 de agosto de 2014

sem título

Ka Ho

meteorológikas

nem bem ele chegou, senti a terra pulsar sob meus pés fazendo tremer as pernas todas. acho que ele não sentiu o perigo porque continuava sorrindo. mas era certo: um terremoto se aproximava. não tinha dúvida. primeiro porque estávamos num país distante, num desses lugares paradisíacos passíveis de todo tipo de tragédia que a gente só vê na tv. depois, porque eu já tinha tido outras experiências com terremotos. ou seja, era uma sobrevivente. mas acabei sorrindo também quando me dei conta que era só o celular vibrando no bolso da calça jeans. aí enquanto ele testava a temperatura da água, li a mensagem. era ele. não ele, o outro. quer dizer, não esse outro, mas o outro, no caso, ele. "que horas vc vem pra casa?". bingo! eu nunca erro: o fim do mundo só tava começando. então pra não perder tempo comecei a me livrar logo do jeans.


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faz tempo

quando eu era uma xícara ele me encheu tanto que quebrou minha asa. aí me colocou na gaiola e pendurou na janela. o dia corria pra lá e pra cá enquanto a boca da noite não me engolia. vivia sonhando café quente passado na hora e ele lá contando alpiste. demorou mas um dia no espelho olhei bem pra essa minha cara de porcelana rara e saquei que já era tarde demais pra pular. voar também não dava. então fui andando mesmo. sem pressa. equilibrada em cima dos saltos. alta. e ele apequenado teve de calar o bico e sem dar um pio começar a juntar os próprios cacos. não voltei pra ver se conseguiu. fui tomar um expresso.


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ploc

acabo de me apaixonar perdidamente por um garoto no metrô. 19/20 anos no máximo. com aqueles gorros largos de lã na cabeça saca? jogando alguma coisa barulhenta no celular. aí eu tava com um rastro de sorriso tipo alguma lembrança boba pendurada no canto da boca e ele roubou pra ele de um jeito que nem me desconcertou. isso antes ainda de eu entrar. meu olhar colou no vidro e foi arrastado até o trem parar. entrei. sentei de frente pra ele. a gente ficou se olhando. ele fez uma bola de chiclete bem suave. eu fiz outra. maior. e macia. aí ele mastigou duro. eu idem. aí fez uma bola maior do que a maior minha. eu tentei de novo mas meu chiclete era de melancia. frágil. estourou em ploc. aí ele riu de canto sem subir pra tomar ar. a gente tava no fundo da piscina. os olhos muitos vidrados um no outro. então ele deu uma leve estufada no peito dentro do moleton e fez uma bola razoável como quem diz olha-a-minha-bola. aí então eu fiz uma cara de não-to-nem-aí-pra-tua-bola. abri a bolsa. peguei outro chiclete. abri bem devagar e sem tirar os olhos dos olhos dele. enfiei na boca. mastiguei de um lado. do outro. misturei no chiclete antigo. ele era bem doce e cheiroso. aí comecei a soprar. antes abri o casaco e tirei o cachecol. acho que ele tava louco. eu tava. então eu fiz uma bola de responsa. grande macia delicada e quase transparente. meu pulmão todo lá dentro. depois fui chupando o ar devagarinho até a bola murchar. bem suavemente. e foi só. ele devia ter 19/20 anos. tinha muito potencial mas nunca conseguiria fazer uma bola maior que a minha. quer dizer... será?


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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

suor & nave louca

dizem por aí que eu sou santa
eles não sabem que nado de santa mas minha piscina é funda
outro dia transei com um et
verde

primeiro ele me abduziu, depois abduzi ele
com as duas mãos espalmadas, coladas
uma na outra, treze dedos com luz neon
entramos na conexão e nos orgasmamos
em lilás

nesse mesmo dia rolou: um massagista tântrico, o cara do semáfaro, o maluco da balada,
o poeta com caderninho de anotação, o saxista, o taxista, o sexista & a camareira doida
com brinco de pérola dentro

& mais um monte de gente estranha: todos terráquios e incomunicáveis: vindos de longe

só nado de santa, sou nua
não curto transar gente próxima
gente muito muito próxima
sua


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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

veludosa

não me basta a língua provocante
tenho é vocação pra pavão macho que é toda flor
selvática & plumosa quando o sol lhe beberica as penas

meu negócio é ócio e o osso da linguagem:
bem ali onde a carne é mais macia
e sangra
fácil

gosto de língua povoante
povoando a minha língua
todo o resto é desvio, curva ou precipício

gosto de beijo

da palavra beijo porque rima com desejo
mas rima mais com queijo
então gosto mais porque
tenho fome

e fome de poesia não se mata com pão

fome de poeta eu mato com a quebra
do regime: direita e esquerda, essas mãos desembainhadas dos bolsos empunham facas e cortam
cenouras,
rabanetes,
cebolas e
beterrabas que sangram manchando a tábua
de carne

lambo o risco vermelho que escorre dos dedos cor
te fino e afiado de papel: carga de caneta bic: estourada no tiro da madrugada:
outra linha no emaranhado das linhas que distraem
a identidade do pavão
disfaçado na anatomia loura platinada de primavera

papel primavera rosa choque, entenda-se

veludosa é a língua povoada de segredos

e eu continuo com fome


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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

a idade da razão

as margaridas têm 13 ou 21 ou 34 pétalas
                                           34 pétalas
também os crisântemos têm
girassóis têm muitas
sementes nas espirais
34 no sentido horário
55 sem sentido algum
todas as pétalas de todas as flores do mundo todo cabem numa caixa sem fundo de papelão marrom com um lacre escrito:
"caixa marrom de papelão comum da razão áurea"

dizem que Fibonacci era apaixonado por números
mas ele nunca cheirou uma flor

quando ele se apaixonou por Fibrônia pegou a caixa, tirou as pétalas e colocou tudo que é número lá dentro
ele encheu a caixa até a boca / da caixa
aí ele levou pra ela / toc toc um presente pra você
ela abriu a caixa com olhos apaixonados mas não entendeu
"o que eu faço com tantos números?"
"calcula"
"mas eu não sei calcular"
"então compra um carro"
"mas eu não sei dirigir"
"compra um vestido"
"mas não quero dançar"
"então conta"

aí Fibrônia começou a contar a história das margaridas, dos crisântemos e dos girassóis enforcados pela inquisição da razão e a história das dálias que foram absolvidas pela lei áurea

Fibonacci não soube o que fazer com aquilo
e enquanto ela falava ele calculava no jogo da velha que tinha baixado no aifone

Fibrônia continuou contando mas não entrou pra história
nem virou verbete no wikipedia


.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

porque ainda temos tempo

quanto me custaria beijar na tua boca
esse gosto
de álcool e
juventude?

tudo bem que a gente poderia disfarçar / eu finjo
que procuro um tesouro perdido no titanic / encalhada / entre o pré e o pós-
molar / mergulho  de tentáculos / perna arqueológica
assanhada de polvo cavando fósseis na tua língua / antiga / eu / ela mais ainda
que sabe todas as letras trancadas nos olhos / teus / daqueles poetas / mortos
[teus olhos se fecham quando me beija] embora não veja
se abrem quando desbeija] [pra fechar de novo quando
mas posso dizer também que tudo não passa de um experimento acadêmico
aula de tradução ou tradição / ortográfica ou ortodôntica
e você pode fngir também que não é um beijo apenas um
pouco de metáforas
porque você tem de dizer / explicar / mentir / até fingir / se for o caso / que tá louco
pra mostrar o ganido
guardado nos caninos
e tem de ser pra mim porque blablabla / porque só eu tenho currículo bom pra cachorro / porque todo mundo diz
au-au

seilá a gente inventa

porque eu não tô nem aí pra  / quanto me custaria hein?
esse gosto gostoso de álcool e poesia embebido na juventude da tua
louca


.



segunda-feira, 4 de agosto de 2014

presta atenção

presta atenção irmão
eu sou a mãe terra, você
                            é filho
                            do homem

só naquilo que milita
só naquilo q' o limita in
finito domado no branc
o papel,
sê men
aparado em látex e borr
acha, nó na extemidade
nó na garganta:
pra não escapar
escorrer e manchar a terra com os filhos
bastardos

zeus


.




toda mulher é um mundo

toda mulher é um mundo

[mas mundo nenhum é uma mulher]

toda mulher é um mundo que gira
sobre si mesma


.

concha 2

lambo a tua concha
nem ostra, nem pérola, nem
nada

somente a concha blindada:

deus vive onde não podemos estar


.

mel

meu corpo é humilde
não tem rainha nem rei
só uma concentração de trezentas e trinta e sete mil abelhas
incansáveis operárias fabricando o melhor e mais dourado e puro mel na região


.

mim

mim sempre quer mais
mim é mais guloso que eu


.

lagarta

sim, é uma lagarta
mas se veste de seda
e s'espera


.

você pensa que sabe

porque leu dois ou três versinhos
já pensa que sabe alguma coisa
sobre
mim

mim é obliquo
não s' escreve

se quer saber o que tocameus dedos
pergunte
aos anéis

se quer saber o que eu desejo
pergunte
a minha calça jeans
me conhece melhor
                   que ninguém

se quer saber sobre o que lambe me a língua
pergunte
a palavra

só que ela aprendeu a mentir faz tempo


.

mesa pra dois

eu estou vendo
você me roubar

e se deixo
é porque tenho
o bastante


.

nefelomancia

carneiros
corações
rosácea de pétalas brancas
uma casa
cachorro
conta conjunta

ela lê no longe
nuvens
escritas sobre a lousa esmaltada de azul

ondas mordem meus pés

eu uso óculos
escuros

vejo versos se esticando em prosa

farrapos
esgarçados
pelo vento


.

concha

concha
com tons de verde
traga

meus olhos


.

uivos

pessoas brancas
fritam
sob o sol
na brasa
espetos em sacríficio
              à natureza

todos são ruivos
              por dentro


.

cade ela?

voo
e volto

quem alimenta meu corpo
domestica
                minhas ondas


.

parati

essa água que desce
lambendo seu corpo
saliva salgada de mar
sou eu
sou eu
saliva salgada de mar
lambendo seu corpo
subo


.

conserto

começou massageando
               meus pés
               depois as coxas
               as costas
depois apertou meus peitos
              até arrancar um gemido
              [dois]
              que aparou entre os dedos
aí pressionou fundo até
chegar na minha alma:
espremeu-a
mantendo afastadas as pernas
e deu três nós
um em cada uma das pontas
pr'ela parar de pingar


.

dez real

no buraco sem fundo
duma depressão quaternária
desenterrei ossos
                 dentes
                 unhas
                 pêlos pubianos
                 um par de tenis ardidas número 64

e montei
um humanossauro
exposto à visitação

estudante paga
               meias
               

cigarro

embrulha essas palavras
que lhe dedico
e guarde-as

para o teu inverno
solitário


.

teatro

por detrás de uma cortina
de palavras
reestreio pressa em palco
circular


.

mirame

bien

poco
a
poco

y un poquito

más


.

próximos

próximos

[lanternas
mapas
cacos
neon
cinzeiros
fumaça
de papel]

mas nunca o bastante.


.

perdoa esse desejo em mim desmedido

perdoa as unhas
            as unhas duras
perdoa os dentes
            os dentes insistentes
perdoa o fôlego
            o fôleg'ofegante
perdoa os olhos
            os olhos
            os olhos

é que sozinha escalei
ca-da-cen-tí-me-tro
das paredes lodosas do meu abismo
até chegar aqui

            no topo


.