segunda-feira, 28 de julho de 2014

domingo, 20 de julho de 2014

Dmitri Shostakovich - Waltz No. 2

ciganice

hoje a cigana me visitou
pediu cachimbo, saia rodada e pulseira
depois o bailado raro riso varandoso e as ervas que dão cheiro
incensando bailarina o corpo da ₢asa, a cortina dos cabelos, os anéis ser
penteando dedos

me disse da noite cantando alta na relva e do fogo queimando a panela
dos vinhos, da escrita de fumaça dissipando o destino
fumamos duas no corpo de uma
eu aprendi o que me disse
me disse então das cartas
da raposa e dos troncos, do rato comendo as pedras plantadas na terra

e eu aprendi

depois me disse do amor que se faz na pressa das nuvens gralhas negras expulsando a lua
do amor que se faz de saias levantadas emboladas na cintura
do amor dos corpos encurralados no morão
e do gozo de foice e flores

a tudo eu ouvi
e aprendi

mas desse amor eu já sabia


.

sábado, 19 de julho de 2014

kheper

você diz que não tenho alma, poesia
terra de ninguém

então prova: liberta essa tua fome de cão ladroso babando atrás da cerca de arame farpado e finca
finca livre os dentes, bastardo, no meu peito
e rasga, ras
            ga a caverna do que em mim habita:

enfrenta logo e de uma vez o exército negro de escaravelhos endemoniados de gadara
vindicadores de nada
comedores de vísceras
fornicadores do tempo
missivistas dos mortos
vivedores de minhas dores de dentro

mata se capaz isso que em mim é alma: milhares de olhos e bocas e asas e ânus e dentes transjordando natureza morta
poesia de carne
esterco sagrado do universo

e se ao final da luta ainda houver sóis a transportar
deita
todo teu peso, cansado
nesse meu corpo jazigo
habita o âmago de uma vaziez capinada de branco
costura, por dentro, tua alma de carne
                                        na carne da minh'alma

e sepulta na minha
       a tua vi[n]da


.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

cansaço

eu tava cansada
é eu tava muito cansada
e andava cansada
e dormia cansada
e acordava mais cansada ainda

e os meus poemas saíam suados e curvos
desanimados os poemas com relógio de pulso
anêmicos os poemas que batem só cartão

então eu pus o meu corpo pra descansar
num varal

bem no meio de uma primavera de papoulas empapadas de orvalho
pontos em vermelho vivo e visceral salpicados de sereno

pendurado
o meu corpo balançava com o vento pra lá
e pra cá desinvestido das horas especialmente dos depois
pendurado ali meu corpo nem parecia meu tão longe do chão
tão longe do céu roçando as flores
do alto

corpo sem terra
corpo sem teto

etérea

alongada como palmeira plantada no azul

e nessa paisagem bucólica e linda eu
sequei

desbotado meus cabelos antes tão solares
mais ainda os olhos
e dentro do peito aorta de alfaces crespas e descoloridas

é eu tava cansada
e em descanso

sequei

no tempo sem tempo do agora sou apenas palha de mim
sobre papoulas
sob arame fino de varal

mas não importa
eu já tava seca quando caminhava
eu já tava seca quando caminhava debaixo da chuva

a única diferença é que agora o vento também
sabe


.

lascada

atrito
entre pedras

tímida faísca
sonhando incêndio em floresta de zippo


.

figos

por que não os figos
se eles é que estavam a ponto de?

fruta mediterrosa e suculenta de polpa
de roxuras e maciez nas partes
de porosidade delicada
                       pequena
                       arca de sementes

tudo no figo é convite
e
hospitalidade à lingua

por que buscar fora da estação?

apito de trem soprando longe o verbo maracujá
e maçãs, morangos não, que não têm cavernas
nem luzes
apagadas
no de-dentro do figo

por que então
             não?

se a mulher desde sempre figueira
                                    amaldiçoada pela fome do homem
                                                                   de oração


.

SANTA ESMERALDA

quinta-feira, 17 de julho de 2014

queimada

nossos
corpos
em desespero
queimando sobre o gramado verde
                              d'uma mesa
                                       de bilhar


.

colagens

carrego um polvo colado à boca
e nove tentáculos distraídos tentando meus dentes

estranho é o polvo sem gente
só flores carnívoras tapando ventosas
uma carreira delas, opiácias, atraindo os atraíveis

sedutor é o polvo que me tenta os dentes
disfarçado em procura e oferenda de mar
azul é o bocado de fome que me sacia a sede

tomo
o polvo que me finca os dentes

mas é a gengiva macia e banguela que os morde mais


.


corpo-coração

um corpo-coração
de braços abertos, de pernas abertas
um corpo-coração
de cabelo e punho, articulação e tato
pulsando o tempo decoroso dos dias e das noites marcadas com símbolos descatáveis no calendário

um corpo-coração nuclear que quando pára faz tudo morrer ao seu redor, inclusive

os dias
as noites
os símbolos
e o calendário


.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

domingo, 13 de julho de 2014

Faun - Unda

FAUN "Diese kalte Nacht" [Official Video | HD]

terreiro

dos mamilos salgados de minhamaejá
brotou tudo que é mar, finíssima flor de sal crespando no horizonte pacífico
placenta pr'oxum, sua filha, alquimizar
doçura

.

tulipa

queria te envolver co'a minha escuridão
e plantar uma lua no teu peito, redonda
                                            e nova

pequenina como botão, invisível
em gola de camisa
pra não acender luz nenhuma no que é trevoso

escuressência líquida escorrendo sobre asfalto
no teu peito, eu
trinca fechada na tua camisa
                            de força
sobretudo
nua negra lua fenobarbital
tu-lipa despetalada
pendendo na forca


.

tatuagem

espero
esse teu dizer de fogo
língua de dragão lambendo dorso
escorpião picando chamado no pescoço:

vem
a noite se faz tarde
                    volta pra Casa
                                      mor


.

Yansã e Xango

terça-feira, 8 de julho de 2014

miração

a minha poesia
            aspira
            à guelra e paz

prostrada à janela persegue-te horizonte
armada de navios & aeronaves especiais

de papel


.

o barba azul

teu pescoço mastiga meus olhos
sem dó

meus caninos
         acorrentados
                          sangram


.

sábado, 5 de julho de 2014

...

... todas as vezes que um amigo desiste da vida, uma inspiração cai morta pra sempre dentro do peito da gente.

.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

sem título

três de julho de dois mil e catorze. estranho 
é o dia que nasce para guardar um suicídio.

triste e ensolarado túmulo no fim de um caminho cheio de pistas e placas ao avesso apontando abismos.
cansei de perguntar aos meus amigos por
que, então, meu amigo?

cansei da pequenitude de um querer ser deus a má-
quina de manipular um dia no tabuleiro xadrez de se
isso se
aquilo


profano então tua morte 
com o poema idiota por
quê? tua foi a blasfêmia: 
silêncio contra pergunta

não pergunto mais e nem quero entender o chão a janela o suco de uva sobre a mesa o sorriso seu dente amarelo as festas os óculos perdidos a alegria a dor o sono estendido no sofá amarelo a toalha de banho a lágrima a vergonha o corpo o corpo a janela o chão o pai o caixão fechado 

nunca mais perguntarei
por que, meu amigo?

vou te deixar em paz mas 
nada de mais
apenas 

não quero continuar esse poema besta essa merda de poema por
que, meu amigo?

porra se nem passou pela tua cabeça que do quarto ainda poderia te restar um pouco de vida
nem que poderia ter ficado paraplégico tetraplégico quadraplégico ou a putaqueopariuplégico ou
nem que ainda assim teria sido bem melhor por
que, meu amigo, 
éramos amigos


.
[para J., hoje]