sábado, 14 de junho de 2014

merda

então que isso não é autobiografia. pelo menos não deveria ser porque se tudo aqui é, o que tem cara de não é que poderia e até deveria ser ficção. desmentido tamanho que as coisas têm se sentadas na cadeira do cinema, do teatro ou do analista. não sei. acho até que nunca soube mesmo dos limites das coisas. não só das coisas mas dos lugares. fiz de todos eles deslimites o lugar abrindo fendas e buracos nas paredes pra respirar de uns escuros que me grudaram na memória coisa besta que todo mundo já ficou preso em lugares assim de portas abertas. eu mesma uma vez fiquei presa de um banheiro desses antigos de fundo de quintal feios e fedidos de fossa demais pra caberem em ficção e me lembro que tudo li era escuro e se me lembro do escuro era porque feito de madeira e entre as ripas desvãos que deixavam a luz entrar como se como se o que? seilá do que estou falando ops escrevendo porque não era disso que eu deveria falar mas de uma coisa real uma sensação vinda de um episódio presente. tudo começa nessa minha gana ganosa de em diante de agora limpar toda a merda. e essa merda de ideia tava aqui na minha cabeça antes mesmo de eu chegar à casa porque to revirando tudo desde lá pelos cabos de telefone. mas aí cheguei e parece que trouxe comigo o problema ou se o problema parece quis se materializar pra mim assim de modo tão explícito porque enquanto escrevo eles estão lá. os homens estão lá em cima dessas batidas duras de marreta picareta sobre o chão procurando o vazamento. meu pai preocupado porque nunca que lembrava do esgoto porque ninguém nem ele nem mãe nem a irmã ou eu mesma lembramos que existe um esgoto passando por debaixo da casa. clar que a gente sabe mas saber é esquecer também. saber é esquecer mais do que lembrar. então que o cano do esgoto ou o cano da merda estourou e vazou. mas isso não é simples assim porque se o cheiro se percebe se a água suja se vê desembocar na foz de terra do jardim não se sabe de onde vem no debaixo da terra o ponto da infiltração do encanamento. e todos aqui desesperados com o cheiro e minha mãe resolveu dormir porque o que há de se fazer afinal? minha irmã foi ver filme japonês porque o japão é logo ali e tão bonito e olhos vidrados e meu pai lá todo nervoso se sentindo cagado pelas pernas logo ele que não lembra onde os canos se encontram em T. e eu que merda mais posso fazer a não ser escrever afinal? porque o cheiro não me incomoda que to acostumada tanto nos de-dentro usando perfume de vez em quando só pra disfarçar e pra não incomodar os desincomodados. então às vezes vou lá e brinco com o barata e o paraná a gente ri e falo que nunca mais vou cagar mas a verdade é que me dá uma sensação estranha ver toda a extensão do lá de fora cavada fundo e a terra a terra úmida retirada dos buracos já são muitos um caminho de buracos e o cano ali exibindo a força do tigre todo impecável intestino resistente à fermentação caralho então eu penso que limpar a merda é um troço duro mesmo porque a gente tem de quebrar é tudo. tem de quebrar tudo pra consertar. tem de quebrar tudo até encontrar a porra do lugar exato onde a merda começou a vazar. mas que droga! lugar exato nesses deslimites do caralho! porra e é claro que eu sei que isso daria uma belezura de texto literário poema sanitário enredo terceira pessoa cagão mas me falta papel higiênico pra escrever ficção então eu prefiro assim torcer pra não ter de quebrar o chão dentro da casa porque eu queria mesmo é que o problema ficasse lá fora porque lá fora é sempre o melhor lugar para meus esgotamentos embora o lá fora esteja tão enraizado nesse meus aqui dentro. todos os lugares estão no mesmo lugar: na cara do outro que nos olha tão distante mesmo quando colado na gente... mas eu queria a ilusão de não ter de dar de cara com ele aqui debaixo dos meus pés, dos pés da cama, dos pés da família, dos meus roídos rodapés...

#quemerdapontocom




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