domingo, 1 de junho de 2014

campanha: abandone um cachorrinho

era uma vez um cachorro desses de estimação chamado bilu ou pitoco ou totó não sei o nome mas sei que ele tinha nome e acho até que sobrenome. devia de ser III ou IV na ordem do reinado. ele era um desses cães bem alimentados. era um desses cães que usam roupas. um desses cães com coleira. desses cães como gente. cães que tem dono. era uma vez um cão... 
agora era essa coisa toda estranha toda peluda às vezes escova, no verão bem rente. essa coisa sem lugar ou com lugar definido e certo pra fazer cocô. com hora pra comer e hora pra engordar. castrado e limpo. um cãozinho porque todos ficam inhos quando são amadinhos. e bem-aventurados os filhos dos homens. protegidos mimados coisa e tal... tal coisa.
nunca ou se por pouco tempo ele nem sabe ou lembra porque desde sempre parece adotado por uma criança com família, certidão festa e biscoito de soja. depois já de casa e agora viaja junto no final de semana. cadeirinha, cinto e vento na estrada. comercial de margarina e liberdade. ração porque a gastrite a pressão o colesterol e exames de rotina. o dia no spa comemora os cinco anos. o bolo de carne fura a dieta. parada no posto pro xixi e músculos esticados. passeio no colo vestido de lã. quase carneiro. quase humano. quase cão. quase nada... uma gota de dó pinga dos olhos caídos. duas de piedade, nas orelhas caídas. não é basset mas todos caídos são. 
uma noite comichão de uivo. inspiração de lobo. rascunho borrado lá na paisagem daltônica do sonho. mas se nem a lembrança de cão. nem esperança. só uma história. só uma lenda esquecida de cão idioma perdido entre um au e outro.
quem foi que disse? quem foi que inventou que sina de cão é ser gente? quem foi que roubou o cão dele? quem foi que fez campanha pra tirar do bicho seu animal? e a rua? o rabo em riste? lata revirada? espada nas garras? saliva pingando corrosiva do dente afiado? quem foi que roubou do cão a sua mordida? a liberdade da fome? o cio inchado? o vento de verdade e o pelo hippie? quem tirou dele o abandono? todos os caninos? a chuva e o frio? a solidão e a força? o sol esticado e a primavera? a oportunidade de ir e de voltar?
ah quem foi que inventou campanha pra fazer do cão gente? domesticado e obediente? deficiente?dependente? endividado? agradecido? barriga cheia? será?
não sei... deve de ser quem fez campanha pra fazer cachorro da gente ... é... pode ser... já nem me lembro disso também... tal coisa... coisa e tal.


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Um comentário:

  1. O cão é da gente, ficou como gente pra gente poder comprar ficar enfeitado e nem se comportar como cão, agora um cão é um pet de salão.

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