quinta-feira, 12 de junho de 2014

a menina que abandonava livros

sim, alguns eram roubados. mas não todos. uns ganhados, outrocados. comprou alguns, embora livros não possam ser possuídos, nem quando a gente brinca que é dono. eram na verdade todos, sem exceção, emprestados. porque vindos da biblioteca maior. a menina sabia disso e se abandonava numa leitura boa e despreocupada dos dias. do livro dos dias...

mas essa história não é só da menina, é da menina e do menino-dos-olhos tristes e aguados de insônia. a madrugada alerta e seca. mas mais ainda a história é dos livros que eles se leem: livros infinitos que no mais nunca terminam e às vezes não, mas às vezes sim, que precisam terminar. terminar antes do fim se é que estou sabendo escrever uma história que ainda é no apesar do peso chumbo de papel.

e ele não ainda mas ela sim sabia que um livro não merece gaveta nem estante. que deitado ou ereto, fechado o livro adoece. e essa historia nem é ainda dela e dele, mas dele e dela com eles separados porque ele lendo outra história e agora ela nenhuma ou uma que é leitura de esticar na vida. mas ele ali com seu livro só na cabeceira marcador de página empoeirado e redondo de boca de copo em descanso na capa. e a menina que sabe porque um dia também ela soube depois de insaber que essa coisa de leitura a gente tá sempre escolhendo se continua ou se não. porque a leitura ou se abandona ou abandona. 

e se parece estranho por causo de amor e tal, nenhuma leitura é igual. se o livro desapeteceu de um o outro nele se agarra e mais tarde que cedo os olhos colados e de joelhos depois deitados no rodapé. sim que eu bem sei que é porque a menina é leitora assídua de doer. mas ele ainda não sabe que nunca teve de saber e mastiga palavra goma e gruda no capítulo que nunca sai e se avança retorna logo pegajando pelo rabo o fio da meada que lhe escapou. mas ela no seu canto não sabe dele decantando lá e se soubesse não adiantaria o dizer 'larga esse livro' que esse livro não é seu e nem é obrigativo que livro é sempre delícia de se lamber, desempresta ora! devolve que é maldieza claustrofóbica mantê-lo acorrentado assim se.

mas como saber se depois de desencalhada a nau dos olhos a viagem recomeça margeada da infiniteza do horizonte translúcido véu cascateando im possível? fácil: não se sabe. nunca se sabe se. palavrinha ordinária que aprendeu a algozia das correntes em condicional. é tudo risco. e rabisco. faz assim vai no lendo até a página 54 que 54 é 27 mais 27 e se no 27 primeiro as coisas estão mal arranjadas ainda tem tempo igual pra tentar ordenar. então mais 27 e chegou 54 ponto em que se abandonou só pra ver o que acontece e aconteceu porque o tempo do passado também mora nos livros. o infinito deles é no pra frente e no pra trás que só no aqui ele para. 

então marca remarca bem e para: se faz feliz continua, se faz indiferença, abandona... porque abandonar também é ato de amor e de respeito ao outro. ao outro livro. ao livro outro. que é sempre outro sendo ele o mesmo só esquecido disso o leitor e o livro no querer ser um, porque isso também é história contada mal da carochinha. o bom leitor que nem por isso é ou deve ser leitor bom interpreta no ar a labareda do fogo queimando lençol d'água no debaixo da terra: não é nada honroso manter fechado um livro quando já não se perde nem quer se perder na leitura...

então abandona porque todo livro tem o direito de ser abandonado. 

todo livro tem o direito de ser deixado ali no balanço do parque, no caixa do banco. o livro esquecido no banheiro público. um livro esperando ônibus no ponto. na mesa do bar. todo livro tem o direito de ser livre. de ser encontrado assim por acaso no metrô. num encontro suave, imprevisível, pulsante, olhos colados na surpresa um do outro. livro livre louco pra se perder. ou encontrar. ou se encontrar. que a vida dos livros é toda feita de encontros.

todo livro tem direito 
a uma nova história. 

a menina sabia. 
o menino viria 
             a saber.


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